Avanços na Economia de Lula 3 Contrastam com o Pesado Custo de Vida e Endividamento Familiar
O Brasil registrou um período de crescimento econômico robusto, com o Produto Interno Bruto (PIB) em ascensão e a taxa de desemprego atingindo mínimas históricas durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A renda média do trabalho também apresentou melhora, indicando um cenário de recuperação em diversos indicadores macroeconômicos.
Contudo, essa melhora nos números não se refletiu de forma homogênea no cotidiano dos brasileiros. O custo de vida elevado, o crescente endividamento e os juros persistentemente altos limitaram o alívio no orçamento das famílias, gerando um paradoxo entre os bons resultados econômicos e a percepção de bem-estar da população.
Economistas apontam que a distribuição desigual dos ganhos econômicos, a frustração de expectativas e a polarização política foram fatores cruciais para a disputa eleitoral acirrada, conforme informação divulgada pelo g1.
Indicadores Positivos, Alívio Limitado no Bolso
O desempenho da atividade econômica e do mercado de trabalho foi um dos pontos mais favoráveis do governo Lula 3. O país acumulou três anos consecutivos de crescimento, o desemprego caiu para níveis históricos e o emprego formal se expandiu. No entanto, esses resultados não foram sentidos por todos na mesma medida.
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), explica que os indicadores agregados podem mascarar realidades distintas. “O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer. A média parece boa, mas não necessariamente está melhor para todo mundo”, afirma Matos.
A economista ressalta que setores como a agropecuária e a indústria extrativa, influenciados por preços internacionais de commodities, tiveram um desempenho diferente do comércio e de parte da indústria, mais dependentes do consumo interno. No mercado de trabalho, José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), observa que muitas das novas vagas se concentraram em serviços de menor qualificação, sem um avanço equivalente em atividades de nível superior e salários mais altos.
O salário mínimo, apesar dos reajustes acima da inflação, ainda está próximo dos níveis reais de 2012 e 2013, segundo Oreiro. Para famílias de menor renda, a alta dos preços dos alimentos é uma pressão adicional, pois esses itens consomem uma parcela maior do orçamento. “É aquele efeito catraca: o preço dos alimentos subiu desde a pandemia e não caiu, pelo contrário, continuou subindo, porém menos intensamente. E, infelizmente, para as pessoas mais pobres, isso pesa muito”, explica o professor.
Endividamento Familiar e o Peso dos Juros
Além dos preços, o endividamento e o custo do crédito são fatores que consomem a renda disponível das famílias, mitigando o impacto positivo do crescimento do emprego e dos rendimentos. Em julho de 2026, as famílias destinavam 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas, com 11,5% desse valor referente apenas aos juros, conforme dados do Banco Central.
O percentual de famílias endividadas também cresceu, passando de 78% em janeiro de 2023 para 81,7% em setembro do ano corrente, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). O cartão de crédito é a principal modalidade, presente em 85,2% das famílias com dívidas.
O programa Desenrola, lançado pelo governo em três edições, buscou aliviar essas contas. Contudo, Alessandra Ribeiro, sócia e economista da Tendências Consultoria, adverte que, embora as iniciativas possam reduzir as dívidas no curto prazo, elas não eliminam as condições que favorecem o endividamento. “Sem essas mudanças, a família pode usar o dinheiro liberado para cobrir outras pendências e voltar a se endividar”, explica a economista, citando a questão dos juros elevados e a escassez de crédito de longo prazo.
Contas Públicas e a Pressão sobre a Selic
A condução da política econômica, especialmente em relação às contas públicas, tem um impacto direto nas condições de crédito. Alessandra Ribeiro aponta a dificuldade de controlar as despesas obrigatórias como um dos principais problemas da política fiscal do governo Lula 3, mencionando os reajustes do salário mínimo, a vinculação de pisos de saúde e educação à arrecadação e a expansão de benefícios sociais.
As contas do Governo Central registraram déficits primários significativos em 2023, 2024 e 2025, e também entre janeiro e agosto de 2026. A dificuldade em gerar superávits contribui para o aumento da dívida pública, que atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, equivalente a R$ 11,1 trilhões, conforme o Banco Central.
Silvia Matos critica a decisão de aumentar os gastos no início do mandato sem garantir receitas permanentes, citando a PEC da Transição como um fator que ampliou o desequilíbrio fiscal. Esse cenário de desequilíbrio das contas públicas pode levar a juros mais altos, pois investidores exigem maior remuneração e a expansão dos gastos pode pressionar a inflação.
A taxa básica de juros, a Selic, que começou 2023 em 13,75% ao ano e estava em 13,75% perto das eleições, reflete essa pressão. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos, desestimulando o consumo de bens duráveis e os investimentos empresariais. José Luis Oreiro, por sua vez, critica o arcabouço fiscal por tentar conciliar metas de gastos e resultados primários sem instrumentos independentes para ambos, e ressalta que o pagamento de juros é uma parcela expressiva do desequilíbrio.
Reformas e Desafios Futuros: Tributação e Política Industrial
Apesar das críticas, economistas também identificam medidas com potencial positivo no governo Lula 3. A reforma tributária sobre o consumo é um dos pontos de convergência, buscando simplificar regras e melhorar o ambiente de negócios. “Foi a reforma possível, mas ainda assim é algo que vai trazer efeitos positivos para a economia brasileira ao longo do tempo”, avalia Alessandra Ribeiro.
A manutenção da autonomia do Banco Central e a condução da política monetária sob a presidência de Gabriel Galípolo também são vistas positivamente por Silvia Matos. Contudo, José Luis Oreiro observa que a política monetária permaneceu mais ortodoxa do que parte do governo esperava. A política industrial, com a Nova Indústria Brasil, é alvo de críticas de Oreiro, que argumenta que os incentivos perderam força diante dos juros elevados e da valorização do real, dificultando investimentos e exportações.
Em outras frentes, Ribeiro destaca como positivas a revisão de benefícios fiscais e a tributação de fundos no exterior. Na política externa, a tentativa de diversificar parceiros comerciais do Brasil para reduzir a dependência de EUA e China é vista como uma estratégia importante em um cenário global incerto, marcado por novas tarifas e conflitos internacionais.
Polarização Política e a Frustração das Expectativas
A avaliação do governo não se restringe apenas aos indicadores econômicos. Fatores políticos e sociais também moldam a percepção pública. Silvia Matos aponta que transformações na sociedade, como a valorização do empreendedorismo e a resistência a políticas sociais pela classe C, influenciam a visão sobre o papel do Estado.
A economista argumenta que o PT não compreendeu plenamente essas mudanças nem a amplitude da coalizão que levou Lula à Presidência, sugerindo que uma agenda mais próxima do centro político seria mais adequada. “O PT acha que venceu as eleições de 2022, quando, na verdade, foi o Bolsonaro que perdeu. Quem venceu, de fato, foi a frente ampla. A agenda, do ponto de vista político e econômico, era para ser mais de centro”, analisa Matos.
A polarização política também dificulta uma avaliação puramente econômica, com a identificação política muitas vezes pesando mais que os resultados. José Luis Oreiro adiciona que a distância entre as expectativas da população e a realidade econômica gerou frustração. “As pessoas estavam muito esperançosas que ele retornaria com a prosperidade do governo Lula 1 e 2, até do governo Dilma 1. Houve uma frustração de expectativas: melhorou, mas não o que as pessoas esperavam”, conclui Oreiro, sublinhando que os brasileiros ainda lembram dos tempos de bonança de 2011 e 2012.

