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Necromancia Digital: Como a IA Recria Pessoas Mortas como Sam Neill e Elis Regina, Gerando Debates Éticos e Dividindo Opiniões no Brasil

A morte de figuras públicas, como o ator Sam Neill, conhecido por ‘Jurassic Park’, e o fisiculturista Gabriel Ganley, tem gerado um fenômeno peculiar nas redes sociais: a recriação digital de suas imagens por meio da Inteligência Artificial (IA).

Essas ‘homenagens’ digitais, que mostram Neill como um fantasma entre dinossauros ou Ganley em uma ‘academia nas nuvens’, reacendem um debate complexo sobre os limites da tecnologia e o respeito à memória dos falecidos.

O uso de IA para manipular vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas mortas é conhecido como **’necromancia digital’**, um tema que gera controvérsia e levanta sérias questões éticas, conforme informações divulgadas pelo g1.

O Que é a Necromancia Digital?

Popularmente, a necromancia refere-se à prática de comunicação com os mortos. Em sua versão digital, o termo descreve a manipulação de **vozes, imagens e traços de personalidade** de indivíduos falecidos para gerar conteúdos produzidos com Inteligência Artificial.

Essa tendência é cercada de discussões, pois o conteúdo gerado por IA pode transformar o processo de luto em um produto, criando o que alguns chamam de ‘fantoches digitais’ de pessoas que já não podem se manifestar ou se defender.

Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro ‘All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data’, explica que a novidade reside na facilidade de criação desses avatares.

Dilemas Éticos e a Transformação do Luto

Com a popularização de ferramentas de IA como ChatGPT e Claude, a criação dos chamados **’grief bots’**, ou ‘robôs de luto’, tornou-se mais acessível. Essas plataformas podem usar ‘restos digitais’, como mensagens e vídeos de pessoas falecidas, para construir avatares interativos.

Este uso indiscriminado pode distorcer a memória dos indivíduos. Flávia Christina, filha de Pelé, por exemplo, criticou vídeos desse tipo, afirmando que as imagens do pai geradas por IA ‘não são atitudes normais dele’, o que demonstra o desconforto familiar com a **necromancia digital**.

Além da vulnerabilidade dos falecidos, especialistas apontam para a exploração de familiares no setor conhecido como ‘grief tech’, ou ‘tecnologia do luto’. Empresas e até pessoas comuns criam versões virtuais de entes queridos, oferecendo interações com esses clones digitais.

A professora Elaine Kasket destaca que o luto é uma experiência profundamente individual. Para ela, é impossível prever o efeito que a **necromancia digital** terá sobre quem enfrenta uma perda, pois o que é útil para um pode ser traumático para outro.

A maior preocupação de Kasket é a tentativa da indústria de tecnologia de tratar o luto como um ‘problema’ a ser ‘resolvido’. Ela argumenta que o luto não é uma patologia, mas uma parte fundamental da experiência humana, e que usar robôs para isso pode ser prejudicial ao processo natural de perda.

Casos de Repercussão: De Hollywood ao Brasil

A recriação digital não é um fenômeno totalmente novo. Em Hollywood, a tecnologia foi usada para concluir cenas de Paul Walker em ‘Velozes e Furiosos 7’ (2015) e para recriar digitalmente Peter Cushing em ‘Rogue One: Uma História Star Wars’ (2016).

No Brasil, um dos casos de maior repercussão ocorreu em 2023, quando a Volkswagen utilizou tecnologia de deepfake para criar um dueto entre Elis Regina, falecida há 44 anos, e sua filha, Maria Rita, em uma campanha publicitária. As reações na internet se dividiram, e órgãos reguladores analisaram o caso.

O Conar chegou a investigar se a campanha violava o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, e um projeto de lei propunha diretrizes para o uso de imagens e áudios de falecidos por IA. Ambos, no entanto, acabaram arquivados, mostrando a dificuldade em acompanhar a velocidade da inovação tecnológica.

A Urgência da Regulamentação e os Direitos Póstumos

Elaine Kasket alerta que a regulamentação não avança com rapidez suficiente para mitigar os riscos do uso inadequado da IA após a morte. ‘Qualquer pessoa pode usar restos digitais para manipular os mortos como fantoches’, afirma a professora.

Ela observa que governos frequentemente são influenciados por empresas de tecnologia, o que pode comprometer a proteção da privacidade dos cidadãos. Como solução, a especialista defende a criação de um modelo de direitos da personalidade que se estenda além da morte física, limitando legalmente o uso de ‘restos digitais’ para replicação ou personificação.

A própria Kasket já tomou precauções pessoais: ‘Coloquei uma cláusula de ‘não me transforme em bot’ no meu testamento, embora isso ainda não seja legalmente aplicável no Reino Unido’, revelando a preocupação com a própria memória digital em um futuro não muito distante.

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