Medidas retaliatórias do Canadá atingem US$ 20 bilhões em mercadorias americanas, de aço a alimentos, após fracasso em negociações entre Trump e Carney
O Canadá iniciou nesta terça-feira (8) a aplicação de novas tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos, marcando um novo e tenso capítulo na crescente guerra comercial entre os dois países vizinhos. As alíquotas variam de 15% a 50%, afetando uma vasta gama de mercadorias americanas.
Essas medidas de retaliação canadenses incidem sobre um volume estimado de 27,6 bilhões de dólares canadenses, o equivalente a cerca de US$ 20 bilhões ou R$ 103 bilhões. A lista de produtos inclui itens como aço, alumínio, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel e componentes eletrônicos.
A imposição das tarifas do Canadá sobre produtos dos EUA ocorre após uma série de negociações entre os governos de Donald Trump, presidente dos EUA, e Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, terem fracassado em agosto, conforme informações divulgadas pelo g1.
O que muda com as novas tarifas canadenses
As recém-implementadas tarifas do Canadá foram estrategicamente desenhadas para impactar os mesmos setores americanos que já haviam sido alvo das barreiras impostas pelos Estados Unidos. A intenção é clara: uma retaliação proporcional e equivalente às ações de Washington.
Isso significa que, se os Estados Unidos aplicam uma taxa específica a um produto canadense, Ottawa responde com uma tarifa similar sobre as mercadorias americanas correspondentes. Essa dinâmica busca equilibrar a balança comercial e pressionar o governo americano.
É importante destacar que as medidas canadenses não afetam mercadorias que já estavam em trânsito para o Canadá quando as tarifas entraram em vigor. Além disso, a cobrança é válida apenas para produtos que são considerados de origem estritamente americana, evitando impactar terceiros.
O Canadá também mantém as tarifas de retaliação que já estavam em vigor sobre automóveis americanos, um setor de grande sensibilidade para ambos os países. A continuidade dessas taxas demonstra a firmeza da postura canadense na disputa comercial.
Como a guerra comercial começou e se intensificou
A atual escalada da disputa comercial entre Canadá e EUA teve início no começo de 2025, quando o presidente Donald Trump, em seu segundo mandato, anunciou tarifas sobre produtos canadenses. As justificativas apresentadas incluíam o combate ao tráfico de fentanil e a necessidade de reduzir o déficit comercial americano.
Inicialmente, a entrada em vigor dessas tarifas foi adiada por 30 dias para permitir negociações. Contudo, em março de 2025, Washington implementou uma tarifa de 25% sobre diversos produtos canadenses e uma taxa de 10% sobre parte das importações de energia do Canadá.
Em resposta, Ottawa divulgou sua primeira grande lista de retaliação, que abrangia alimentos, bebidas, eletrodomésticos, roupas e outros bens de consumo. Pouco depois, o conflito se expandiu com os EUA cobrando 25% sobre aço e alumínio importados, o que levou o Canadá a responder com novas tarifas sobre esses mesmos produtos americanos, além de computadores e equipamentos esportivos.
O setor automotivo também entrou na mira em março de 2025, quando Trump anunciou uma tarifa de 25% sobre automóveis importados. As regras do acordo USMCA previam um tratamento diferenciado, mas o Canadá reagiu em abril com tarifas sobre veículos americanos que não se enquadravam e componentes de fora da América do Norte.
Apesar da escalada, as negociações continuaram. Em maio, o primeiro-ministro Mark Carney se reuniu com Trump na Casa Branca, e um prazo de 30 dias foi estabelecido para um avanço. No entanto, as conversas foram interrompidas em junho devido a uma disputa sobre o imposto canadense sobre serviços digitais.
Ainda em 2025, Washington elevou suas tarifas para 50%, enquanto Ottawa, em setembro, retirou a maior parte de suas tarifas de retaliação, mantendo apenas as sobre aço, alumínio e automóveis. A redução não encerrou a disputa, que se intensificou novamente em 2026.
A escalada em 2026 e o fracasso das negociações
Em julho de 2026, os Estados Unidos anunciaram uma nova tarifa de 10% sobre produtos canadenses, alegando uma investigação sobre trabalho forçado, com isenção para mercadorias que cumprissem as regras do USMCA. Essa medida adicionou mais pressão à já fragilizada relação comercial.
No mesmo mês, a primeira revisão obrigatória do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México (USMCA) ocorreu. Washington decidiu não estender o tratado em sua forma atual, acionando o mecanismo de revisões anuais, embora o USMCA continue em vigor, mas sob escrutínio constante.
Ainda em julho, o governo americano utilizou a Seção 338 de sua legislação comercial para anunciar tarifas adicionais de até 50% sobre cerca de 27,6 bilhões de dólares canadenses em produtos do Canadá. Itens como vinho, móveis, laticínios, cimento, roupas e equipamentos esportivos foram afetados, elevando a tensão.
Essas novas barreiras levaram os governos a intensificar as negociações, com Ottawa buscando evitar mais tarifas e preservar o acesso de suas empresas ao mercado americano. Contudo, as conversas fracassaram em agosto, sem um acordo.
Em 22 de agosto, os Estados Unidos implementaram as tarifas de 50% sobre os produtos canadenses. Em resposta, o governo de Mark Carney anunciou que aplicaria medidas equivalentes a partir deste 8 de setembro. Dois dias depois, Trump ainda anunciou uma tarifa de 50% sobre carros, caminhões e peças automotivas canadenses a partir de janeiro de 2027, sinalizando um futuro ainda mais incerto para o comércio bilateral.
Por que a disputa é tão importante e seus impactos
Canadá e Estados Unidos compartilham uma das relações comerciais mais integradas do mundo, onde empresas dependem fortemente umas das outras para matérias-primas, peças e componentes. Essa interdependência é particularmente visível na indústria automotiva, onde um único componente pode atravessar a fronteira várias vezes durante o processo de produção.
Por essa razão, uma tarifa pode ter um efeito cascata, afetando não apenas o exportador estrangeiro, mas também o importador, que paga o imposto diretamente à alfândega. O custo pode ser distribuído ao longo da cadeia de suprimentos e, em última instância, repassado ao consumidor final, elevando preços e reduzindo a competitividade.
A ameaça de novas tarifas sobre veículos é especialmente sensível devido a essa integração profunda. Montadoras no Canadá, como Toyota e Honda, que juntas respondem por mais de três quartos dos veículos produzidos no país, dependem de fornecedores de toda a América do Norte. Uma tarifa de 50% sobre carros e peças canadenses pode, assim, prejudicar não só empresas do Canadá, mas também companhias estrangeiras com base produtiva no país.
A disputa já começou a influenciar decisões sobre a localização da produção. O presidente Trump chegou a afirmar que a fabricante canadense de jatos executivos Bombardier deveria produzir nos EUA para continuar vendendo no mercado americano, sob pena de ser impedida. A Bombardier, que já emprega 3,5 mil pessoas nos EUA e gasta mais de US$ 2,5 bilhões anualmente com fornecedores americanos, ilustra como o conflito transcende as tarifas, atingindo investimentos e cadeias de fornecedores.
O Canadá, por sua vez, também tem incentivado a produção doméstica. O governo destinou 4,7 bilhões de dólares canadenses para a produção e manutenção de 313 vagões da VIA Rail no país, um projeto que deve gerar quase 700 empregos. Esses equipamentos, antes produzidos nos Estados Unidos, passarão a ser fabricados em solo canadense, mostrando uma mudança estratégica.
Os efeitos do conflito já são visíveis na economia canadense. Em julho, o superávit comercial de bens do país caiu drasticamente para 769 milhões de dólares canadenses, uma queda significativa em relação aos 4,2 bilhões de dólares canadenses registrados em junho. No mesmo mês, as exportações canadenses para os Estados Unidos recuaram 6,6%, enquanto as importações de produtos americanos cresceram 1,8%.
Em agosto, o Canadá registrou a perda de cerca de 42 mil empregos, e a taxa de desemprego atingiu 6,4%. Embora esses números não possam ser atribuídos exclusivamente às tarifas, eles refletem o ambiente de maior incerteza e pressão econômica enfrentado pelo Canadá em meio à escalada da guerra comercial.
