As urnas refletem apostas futuras, com o mercado financeiro antecipando efeitos das propostas de candidatos na economia e a necessidade de estratégias para proteger seu patrimônio.
A semana pós-eleitoral começou com grande movimentação nos mercados. O dólar registrou uma queda significativa, enquanto a bolsa de valores disparou, marcando uma das maiores altas recentes.
Essas oscilações não são novidade em períodos eleitorais, pois o mercado financeiro tenta constantemente antecipar os rumos da economia sob um novo governo. Declarações de candidatos e pesquisas de intenção de voto são fatores cruciais para essa dinâmica.
Para entender melhor esse cenário e saber como agir, especialistas explicam o que está por trás da volatilidade e como investir com segurança, conforme informações divulgadas pelo g1.
Por que as eleições causam tanta volatilidade nos mercados?
O mercado financeiro é um ambiente de expectativas, e as eleições são um dos maiores geradores de incerteza. Investidores reagem às propostas dos candidatos, tentando prever seus impactos na economia, seja no crescimento, na inflação ou nas taxas de juros.
Conforme explica Rogerio Freitas, chefe de investimentos do ASA, “Os preços refletem expectativas sobre crescimento, inflação, juros e, no Brasil, sobretudo a trajetória fiscal. A eleição deixa essas variáveis em aberto, e cada pesquisa ou declaração muda as probabilidades de cada cenário.”
Dados históricos confirmam que o Ibovespa, o dólar e os juros futuros tendem a reagir com maior intensidade em períodos eleitorais. A incerteza sobre as contas públicas e os rumos da economia são os principais motivadores dessas oscilações.
Os efeitos se manifestam de diferentes maneiras. A bolsa de valores, por exemplo, reflete as expectativas dos investidores sobre o desempenho das empresas e da economia como um todo. Já o dólar reage à percepção de risco do país, influenciando a entrada e saída de capital estrangeiro.
O impacto das pesquisas eleitorais e eventos políticos
Os movimentos do mercado financeiro não se restringem apenas ao dia da eleição. Antes mesmo de os eleitores irem às urnas, falas de candidatos e pesquisas eleitorais já provocam altas e baixas no dólar, na bolsa e nas taxas de juros.
Recentemente, a notícia de um reajuste do Bolsa Família, anunciado pelo governo a 17 dias das eleições presidenciais, gerou preocupações com o impacto nas contas públicas. Isso resultou na desvalorização do real em relação ao dólar e na queda da bolsa brasileira para 185 mil pontos.
Da mesma forma, pesquisas eleitorais têm um poder significativo. Em 10 de setembro, uma pesquisa que mostrou Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente de Lula (PT) em uma eventual disputa de segundo turno coincidiu com a queda de 0,18% do dólar, que fechou a R$ 5,1026, e a alta de 1,42% do Ibovespa, alcançando 188.268 pontos.
No dia seguinte à apuração do primeiro turno, que mostrou Flávio Bolsonaro (PL) à frente com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula (PT), o dólar caiu mais de 4%, chegando a R$ 5, o menor patamar desde maio. Simultaneamente, a bolsa brasileira disparou 7,70%, na maior alta diária desde março de 2020, fechando no recorde de 206.912 pontos.
Cenários políticos e a percepção de risco
A percepção do mercado financeiro sobre os candidatos é um fator determinante. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, por exemplo, é avaliada como favorável ao equilíbrio das contas públicas. Essa expectativa tende a reduzir as taxas de juros projetadas para os próximos anos e a aumentar o interesse por investimentos no Brasil, beneficiando a bolsa e o real.
Rogerio Freitas, do ASA, ressalta que “A volatilidade tende a crescer perto das eleições, mas os primeiros atos do eleito pesam mais que o discurso de campanha. Mas cada eleição precisa ser lida no seu próprio contexto.”
É importante notar que a volatilidade não se limita aos períodos eleitorais. Notícias políticas, especialmente aquelas que podem afetar a inflação, os juros e a atividade econômica, também movimentam os mercados. Contudo, outros fatores globais podem mitigar o impacto político, como observado durante o Mensalão em 2006, quando o fluxo de capital estrangeiro e a alta das commodities prevaleceram, segundo Alvaro Maia, banker da StoneX.
Como investir com segurança em tempos de incerteza eleitoral?
Em momentos de alta volatilidade, como os períodos eleitorais, a cautela e a estratégia são essenciais para os investidores. Uma das principais recomendações é recorrer à renda fixa para atravessar o período com maior segurança.
Alvaro Maia destaca que “Em um momento em que temos juros em dois dígitos, a renda fixa está especialmente atrativa. São várias opções, com destaque para os títulos públicos prefixados ou para os fundos de renda fixa.”
Para quem planeja investir na bolsa de valores, a recomendação é evitar montar uma carteira de ações baseada em pesquisas eleitorais ou em apostas sobre o resultado das urnas. O ideal é manter uma estratégia de longo prazo e fazer ajustes na carteira sem agir por impulso.
Rogerio Freitas aconselha que “O melhor é manter a estratégia de longo prazo e fazer ajustes na carteira sem agir por impulso. Grande parte do resultado vem da forma como os investimentos são distribuídos.” Ele complementa que “Diversificar, inclusive no exterior, ajuda a reduzir riscos, enquanto uma reserva de fácil acesso evita que o investidor precise vender ativos em momentos de queda. O tempo é o maior aliado.”
Outro cuidado fundamental é adequar a carteira ao perfil de cada investidor e à sua tolerância ao risco. Investidores mais conservadores devem concentrar uma parcela maior de seus recursos em aplicações menos sujeitas a oscilações, enquanto aqueles que aceitam correr mais riscos podem ter uma fatia maior em ativos como ações.

