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Como o PIX, o sistema de pagamento instantâneo do Brasil, desafia gigantes americanas e se torna pauta em disputa comercial com os EUA

O rápido crescimento do PIX no Brasil, essencial para pequenos negócios e transformador do mercado de pagamentos, agora é argumento central em novo tarifaço dos EUA.

O PIX, o sistema de pagamento instantâneo brasileiro, em pouco menos de cinco anos, revolucionou a forma como milhões de brasileiros e pequenos negócios realizam transações financeiras, tornando-se sinônimo de agilidade e redução de custos.

Contudo, essa inovação que conquistou o país agora se encontra no centro de uma inesperada disputa comercial internacional. Os Estados Unidos utilizam o sucesso do sistema como um dos argumentos para justificar a imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados.

Segundo informações divulgadas pelo g1, o governo americano alega que a estrutura do PIX, operado pelo Banco Central, cria uma vantagem competitiva injusta sobre as empresas privadas de pagamento americanas.

O PIX e a transformação do mercado brasileiro

Para milhões de pequenos negócios, o PIX significou recebimento imediato, redução de custos e maior facilidade para administrar o fluxo de caixa. Antes de sua implementação, muitos comerciantes dependiam de dinheiro em espécie ou de cartões, que envolviam taxas e prazos maiores para o repasse dos valores.

Com o PIX, o dinheiro entra na conta no mesmo momento, facilitando a compra de mercadorias, o pagamento de fornecedores e a organização das contas. Essa combinação transformou o sistema em uma das principais ferramentas financeiras dos pequenos negócios.

Uma pesquisa do Sebrae, em parceria com o Ipespe, revela que 59% dos donos de pequenos negócios já consideram o PIX o principal meio de recebimento das vendas. O levantamento também aponta que 53% usam o sistema para pagar parceiros comerciais, e entre os MEIs, 97% o utilizam como forma de pagamento.

Rodrigo Soares, presidente do Sebrae, afirma que “o sistema é uma forma de pagamento que não tem volta e se tornou a preferida dos pequenos negócios pela rapidez no recebimento e pela contribuição para a manutenção do fluxo de caixa dessas empresas”.

A expansão do PIX mudou a estrutura do mercado de pagamentos. Nas compras tradicionais com cartão, participam bandeiras, credenciadoras, bancos e outros intermediários, gerando custos. No PIX, a transferência ocorre diretamente entre as instituições financeiras, criando uma alternativa competitiva para pagamentos à vista.

Por que o PIX incomoda os Estados Unidos?

Na investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), as práticas brasileiras seriam "injustificáveis e discriminatórias", prejudicando empresas americanas do setor. O argumento central é que o Banco Central brasileiro criou condições favoráveis ao PIX em detrimento de empresas privadas estrangeiras.

Nos documentos divulgados, o sistema é chamado de "PICS" e descrito como um serviço estatal de pagamentos eletrônicos que receberia tratamento diferenciado. A avaliação americana se baseia principalmente em três pontos.

Primeiro, o BC atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, definindo as regras e administrando a infraestrutura. Segundo, o sistema teria vantagens por não buscar lucro com a cobrança de taxas sobre as transações. Terceiro, empresas americanas poderiam ser prejudicadas ao competir com uma infraestrutura pública de pagamentos.

Representantes do governo Trump, ao apresentar as medidas contra o Brasil, afirmaram que a intenção não é acabar com o sistema. Eles declararam: "Não estamos pedindo ao Brasil para se livrar do PICS ou de qualquer coisa que importe para o Brasil. Isso não é problema. O que não queremos é uma situação em que empresas americanas sejam forçadas a anunciar o PICS, ou sejam limitadas pelo PICS, e que elas e o PICS recebam tratamento especial simplesmente por serem de propriedade brasileira ou por serem um sistema de pagamento eletrônico".

Concorrência desleal ou inovação disruptiva?

Para especialistas ouvidos pelo g1, o PIX de fato provocou uma transformação profunda no mercado de pagamentos, mas isso não significa uma prática desleal. A principal crítica americana, relacionada ao fato de o BC exercer o papel regulador e operador, foi, na verdade, um fator crucial para o sucesso do sistema.

Ao criar padrões tecnológicos, estabelecer regras comuns e exigir a participação das instituições financeiras, o BC conseguiu que praticamente todos os bancos e fintechs ofertassem o serviço desde o lançamento. Especialistas são incisivos: a existência de uma infraestrutura pública não implica concorrência desleal.

Ralf Germer, CEO da PagBrasil, defende que "o PIX não foi criado para concorrer ou substituir outros meios de pagamento, como o cartão de crédito. Desde o lançamento do sistema, as demais formas de pagamento, especialmente os cartões, continuaram crescendo". Ele acrescenta que empresas do setor tiveram tempo para se adaptar e criar soluções competitivas.

Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor da ESPM, aponta que a pressão dos EUA está relacionada principalmente à mudança no modelo de negócios de empresas que tradicionalmente lucravam com tarifas. "O PIX é gratuito para pessoas físicas e tem custo baixo para empresas, representando forte concorrência para grandes operadoras de cartão de crédito americanas, como Visa e Mastercard", afirma.

PIX Internacional: a disputa além dos cartões?

Embora a discussão sobre cartões seja o argumento oficial dos EUA, um ponto mencionado por especialistas é o avanço do PIX Internacional, um projeto do BC para permitir pagamentos transfronteiriços. A expectativa é que sistemas de pagamento instantâneo de diferentes países possam ser conectados, inclusive entre membros do Brics.

Nesse sentido, a possibilidade de uso do PIX Internacional como meio de pagamento entre países do Brics pode ter incomodado os EUA por ameaçar a paridade do dólar nas negociações, comprometendo a hegemonia da moeda no sistema financeiro global.

"Esse pode ser o ponto que mais incomoda o governo americano: a criação de uma moeda única do Brics e o possível uso do sistema PIX para reduzir a influência do dólar nas negociações entre esses países", destaca um dos especialistas.

Apesar das críticas, os EUA também contam com sistemas de pagamentos instantâneos, como o FedNow, criado pelo Federal Reserve, e o Zelle, desenvolvido por grandes bancos americanos. A diferença, segundo especialistas, está na escala de uso, já que nos EUA a participação das instituições foi voluntária e não alcançou o mesmo nível de integração visto no Brasil.

O crescimento do PIX é considerado uma das maiores transformações recentes do sistema financeiro brasileiro. Lançado em novembro de 2020, o sistema alcançou escala nacional em poucos anos, com cerca de 170 milhões de usuários pessoas físicas e mais de 24 milhões de pessoas jurídicas.

Em 2025, o sistema bateu recorde ao movimentar cerca de R$ 35,4 trilhões, distribuídos em quase 80 bilhões de transações. Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo e fundador do RegLab, afirma que o sistema passou a ser observado por outros países justamente pela combinação de escala e eficiência, tornando-se "um modelo, uma vitrine".

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