Pular para o conteúdo

Rosana Paulino: De Filha de Faxineira a Artista Plástica Global, Ela Redefine a Arte Afro-Brasileira e Brilha na Bienal de Veneza com Mensagens Poderosas

A paulistana, que foi por muito tempo ‘a única negra da sala’, hoje é uma referência mundial, usando sua arte para questionar o racismo e a posição da mulher negra.

A trajetória de Rosana Paulino é um testemunho de resiliência e talento. Nascida na Zona Norte de São Paulo, filha de uma faxineira e um pintor de paredes, ela transformou as limitações da infância em um motor para uma carreira artística brilhante, alcançando reconhecimento global.

Sua obra, profundamente enraizada na experiência da mulher negra e na história do Brasil, não apenas conquistou museus prestigiados como o MoMA e a Tate Modern, mas também a posicionou como uma voz essencial no cenário da arte contemporânea internacional.

Atualmente, Paulino representa o Brasil na 61ª Bienal Internacional de Veneza, consolidando seu papel como uma das mais importantes artistas plásticas do país, conforme informação divulgada pelo G1.

Reconhecimento Global e a Bienal de Veneza

Os últimos anos têm sido marcados por uma série de conquistas notáveis para Rosana Paulino. A artista plástica realizou exposições individuais em importantes cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, onde instalou um painel de nove metros na High Line.

Suas obras foram adquiridas por instituições de renome mundial, como a Tate Modern, em Londres, e o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. Além disso, ela foi agraciada com prêmios significativos, incluindo o Munch Award, que a destacou como uma ‘voz de liderança do feminismo negro’ em 2024.

Paulino também recebeu o Jane Lombard de Arte e Justiça Social, em reconhecimento ao seu livro ‘História Natural’ de 2016, que explora as complexas relações entre ciência e violência racial. Esses feitos solidificam sua posição como uma das mais influentes artistas plásticas contemporâneas.

Em 2024, ao lado de Adriana Varejão, Rosana Paulino comanda o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, em uma edição histórica. Pela primeira vez, a curadoria é de uma mulher negra, Diane Lima, e a representação brasileira é composta exclusivamente por mulheres, sendo duas delas negras.

A mostra, intitulada ‘Comigo Ninguém Pode’, deriva de uma obra de Paulino da série ‘Senhora das Plantas’, que retrata mulheres em metamorfose com plantas de poder. O título evoca proteção, resiliência e estratégias de sobrevivência em contextos desafiadores, segundo a própria artista.

Igor Simões, cocurador de sua exposição individual no Malba, em 2024, destaca a relevância de sua presença. ‘A curiosidade estrangeira veio antes de o Brasil entender o quão gigante é a sua produção. Tê-la no pavilhão faz crer que o país esteja interessado em olhar para si mesmo, e para a matéria da qual é feito’, afirma Simões, ressaltando o reconhecimento que a artista plástica alcançou.

A Essência da Obra: Ancestralidade e Crítica Social

Através de desenhos, pinturas, bordados, gravuras, colagens, esculturas e instalações, Rosana Paulino desenvolve uma obra potente que reflete sobre a condição da mulher negra, a ancestralidade e as profundas marcas do colonialismo e da escravidão na sociedade brasileira.

Ela se dedica a desconstruir imagens e teorias racistas de pseudociências que historicamente propagaram a inferioridade do negro para justificar a escravidão. ‘O racismo científico foi pouco estudado, mas é fundamental para entender a desumanização e a desvalorização desse corpo, a ponto de ser totalmente descartável’, afirma Paulino.

A artista plástica enfatiza a urgência dessa compreensão, ligando o passado ao presente. ‘Sem isso, a gente não entende como a polícia mata do jeito que mata. A gente não entende como 117 pessoas foram mortas no Rio de Janeiro naquele massacre, nos complexos do Alemão e da Penha’, exemplifica.

Em sua série ‘Aracnes’, Paulino costura retratos de mulheres negras com fios que remetem a teias de aranhas, criando uma metáfora visual poderosa sobre interconexões e resistências. Sua arte é um convite à reflexão sobre a memória e a identidade.

Raízes da Criatividade: Infância e Formação

A infância de Rosana Paulino, na Freguesia do Ó, em São Paulo, foi um período fértil para sua imaginação. Filha de um pintor de paredes e uma faxineira que bordava para complementar a renda, ela cresceu em um ambiente onde a criatividade era estimulada pela necessidade.

‘Nunca passamos fome, mas não tínhamos luxos’, lembra Paulino, que passou a infância brincando na rua e fazendo experimentos com a natureza. Desde cedo, ela sonhava em estudar biologia, chegando a assinar a revista Ciência Hoje na adolescência.

Sua mãe, que havia completado apenas a terceira série, possuía uma intuição notável para a educação e incentivava as filhas a criar com as mãos. ‘Uma coisa que poderia ser um empecilho, que era falta de dinheiro para comprar brinquedo, ela acabou transformando em um motor para criatividade’, diz Paulino sobre a influência materna.

Aos 15 anos, incentivada pela mãe, a jovem se matriculou em um curso de desenho no Liceu de Artes e Ofícios. Ao chegar ao vestibular, com o coração dividido, foi aprovada em biologia na Unicamp e em artes visuais na USP.

Embora nunca tenha cursado biologia, a artista plástica conseguiu entrelaçar os dois campos, trazendo a natureza para sua obra. Ela alcançou o doutorado na Escola de Comunicações e Artes Visuais da USP e se especializou em gravura no London Print Studio, em Londres, com uma bolsa da Capes.

A temporada na Inglaterra foi fundamental para acompanhar os debates artísticos fora do país, em uma época anterior à popularização da internet. Paulino relembra uma experiência marcante no início da graduação na USP, quando um professor disse: ‘Esqueçam tudo que vocês aprenderam. Agora vocês serão artistas eruditos’.

Em resposta, ela pensou: ‘Tá, agora eu faço o quê? Tiro minha pele e largo lá na porta?’. Essa vivência reforçou sua convicção de que a arte é vivência, necessidade e ancestralidade, e não apenas um tema a ser abordado academicamente.

Mentoria e Legado: Abrindo Caminhos na Arte Afro-Brasileira

Após desbravar os espaços muitas vezes elitizados da arte contemporânea, Rosana Paulino dedicou-se a abrir portas para uma nova geração de artistas negros e negras. Muitos a chamam carinhosamente de ‘dinda’, reconhecendo seu papel de mentora e educadora.

Artistas como Dalton Paula e o curador Igor Simões, ambos retratados na série ‘Raiz’ do Canal Curta!, são alguns dos nomes amadrinhados por ela. Simões destaca o papel de Paulino como ‘abre-alas para inserir vozes negras no cubo branco da arte brasileira’, citando um ciclo de debates que os aproximou.

‘Rosana nunca se contentou com a possibilidade de ser a única negra da sala. Ainda mais uma sala repleta de pensamentos, ideologias e imaginários brancos. Ela fez de sua trajetória uma porta aberta para que outras pessoas pudessem chegar’, afirma Simões, que hoje comanda uma mostra de artistas afro-brasileiros em Nova York.

A artista plástica optou por não ter filhos para dedicar-se à carreira, mas encontrou na mentoria uma forma de expandir seu legado. ‘Eles que me escolhem como madrinha, não sou eu que adoto’, diverte-se, descrevendo como orienta os jovens talentos.

Ela oferece um guia prático, indicando leituras, contatos e caminhos para o desenvolvimento artístico. ‘Uns dizem que sou a mãe de santo das artes’, conta, revelando sua conexão com a espiritualidade, sendo filha de Ogum com Iansã.

Apesar do reconhecimento internacional e das ‘cantadas’ de universidades americanas para que se mudasse, Paulino mantém seus pés fincados na Zona Norte paulistana, onde nasceu. Seu ateliê, em Pirituba, é um reflexo de seu compromisso com a comunidade.

‘Não acredito em fazer dinheiro e sair do país, ou em fazer dinheiro e sumir da minha região’, declara a artista plástica. Ela planeja transformar um espaço em frente ao seu ateliê em um centro de pesquisas, com uma biblioteca especializada em arte, diáspora e questões afro-brasileiras.

Essa iniciativa visa preencher as lacunas de uma formação artística que ainda se centra na Europa e nos Estados Unidos. ‘Tenho que ter uma ação comunitária além da produção de arte, senão minha vida não teria sentido’, afirma.

No quintal de sua nova casa, com vista para a mata e o Pico do Jaraguá, Paulino ainda sonha com uma horta. ‘O meu temperamento sempre foi assim, muito inquieto. Essa coisa de ficar parada, reclamando, chorando, não funciona comigo’, conclui.

‘Não que transformar o status quo seja fácil. Não é. Mas temos que arregaçar as mangas e ir em frente. Gosto de mudança. Gosto de ver o país se olhando, se reconhecendo e avançando’, finaliza a inspiradora artista plástica, Rosana Paulino.

Este conteúdo foi útil?

Clique nas estrela para avaliar!

Média de avaliação 0 / 5. Vote count: 0

Ainda não há votos! Seja o primeiro a avaliar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *