A capital paraibana, antes conhecida pela tranquilidade e preços baixos, vive um boom populacional e imobiliário que redefine seu cotidiano e desafia sua infraestrutura.
João Pessoa, capital da Paraíba, tem se destacado como um dos destinos mais procurados por quem busca ‘desacelerar’ e ‘investir’ em qualidade de vida, especialmente jovens profissionais. No entanto, essa crescente popularidade tem um preço, com a disparada do custo de vida e dos imóveis na cidade.
A chegada de novos moradores, impulsionada pela busca por um ritmo de vida mais calmo e oportunidades de investimento, tem gerado transformações profundas na rotina da capital paraibana. De ruas tranquilas a um trânsito mais intenso, e de preços acessíveis a um mercado imobiliário em constante valorização, a cidade está em plena efervescência.
Essas mudanças são percebidas tanto por quem retorna à cidade quanto por moradores de longa data, que acompanham a evolução de João Pessoa e seus desafios, conforme reportagem da BBC News Brasil.
A Nova Realidade de Preços e o Cotidiano Acelerado na Capital
A publicitária Rebeca Cirino, de 39 anos, e seu marido, o advogado Ezequiel Ribeiro, de 35, escolheram João Pessoa há quatro anos, vindo de São Paulo, em busca de uma rotina para ‘desacelerar’ e oferecer melhor qualidade de vida à filha. Contudo, o casal percebeu um aumento significativo no custo de vida, especialmente nos últimos dois anos.
Rebeca destaca a mudança nos preços de itens básicos. ‘Em 2022, o coco era R$ 2. Agora já você já encontra por R$ 6 e até R$7’, exemplifica. Ezequiel reforça que o aumento se estende a despesas como mercado e restaurantes, impactando diretamente o dia a dia da família.
A busca por um novo imóvel também revelou a escalada dos valores. O preço médio do metro quadrado em João Pessoa praticamente dobrou em poucos anos, passando de R$ 4,5 mil em 2019 para R$ 8 mil em 2026, de acordo com o índice FipeZap. ‘Os preços eram bem mais acessíveis quando chegamos. Hoje, subiram muito, tanto para compra quanto para aluguel’, afirma Ezequiel.
Além dos custos, a rotina de deslocamento também mudou. Rebeca observa que ‘um trajeto de carro de cinco minutos pode levar meia hora no horário de pico’, um reflexo do aumento no tráfego, especialmente em bairros como o Bessa, na zona Norte, onde o casal reside.
Boom Imobiliário e Crescimento Populacional Impulsionam Transformações
O avanço populacional é um dos principais fatores para as transformações em João Pessoa. Dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a capital paraibana foi a quinta capital que mais ganhou habitantes no país, com uma taxa de crescimento de 1,19% ao ano.
Esse crescimento representou um acréscimo de 110 mil novos moradores em 12 anos, elevando a população para 833.932 habitantes. O ambientalista Marco Túlio Gusmão, morador há mais de quatro décadas, confirma que o crescimento urbano trouxe uma nova dinâmica, com a valorização imobiliária como um dos principais vetores.
João Pessoa registrou a segunda maior valorização entre todas as capitais do país, com alta de 15,15%, superada apenas por Salvador. Foi a maior alta anual da história da cidade desde o início do monitoramento pelo Índice FipeZAP. ‘Esse aumento acaba impactando o custo de vida de forma geral, refletindo em serviços, lazer e consumo cotidiano’, explica Marco Túlio.
O aumento da população e o crescimento urbano acelerado, concentrado em áreas litorâneas, também alimentam discussões sobre gentrificação, onde a valorização expulsa moradores de baixa renda. A frota de veículos também cresceu, de 474 mil em 2024 para mais de 501 mil em 2026, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), intensificando o trânsito.
Planejamento Urbano em Xeque: Interesses e Desigualdades
O crescimento recente de João Pessoa, segundo especialistas, é guiado por decisões de planejamento urbano ligadas à valorização fundiária e imobiliária. O geógrafo Alexandre Sabino do Nascimento, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), afirma que ‘não podemos dizer que a cidade está sem planejamento. O que temos é um planejamento que atende a determinados interesses’.
Ele aponta uma ‘simbiose entre a abertura de grandes vias e a criação de oportunidades para o investimento imobiliário’. Mudanças no Plano Diretor teriam reduzido a participação popular, distanciando as decisões do cotidiano dos moradores. ‘Quem vive aqui está acompanhando o planejamento urbano da cidade?’, questiona o pesquisador.
Esse modelo de crescimento impacta diretamente o acesso à moradia. Nascimento cita um déficit habitacional de cerca de 50 mil domicílios na capital, com muitas famílias comprometendo mais de 30% da renda com aluguel. Ele argumenta que ‘estão criando uma cidade para o mercado imobiliário’, enquanto milhares de lotes vazios em áreas com infraestrutura poderiam ser usados para habitação social.
As incorporadoras ampliam a compra de terrenos para formar ‘bancos de terra’, reduzindo a oferta e elevando os preços, o que ‘encarece a cidade como um todo’. A Prefeitura, por sua vez, afirma investir em mobilidade e infraestrutura para acompanhar a expansão, citando obras como o Complexo Viário Beira Rio, mas não respondeu sobre as alegações de que o planejamento estaria alinhado aos interesses imobiliários.
O Novo Perfil dos Moradores e a Valorização da Orla
A valorização imobiliária em João Pessoa concentra-se, sobretudo, nos bairros da orla. O corretor Caio César de Queiroz Ferreira, que atua no mercado de imóveis de luxo há 15 anos, explica que o movimento é impulsionado pela localização, novos empreendimentos e o perfil dos novos moradores.
João Pessoa, que antes atraía muitos aposentados em busca de qualidade de vida, agora recebe profissionais mais jovens e economicamente ativos, muitos com trabalho remoto. ‘Existe uma presença forte de aposentados, mas o que chama mais atenção ultimamente é a vinda de um público mais jovem e economicamente ativo, que enxerga João Pessoa não só como destino de descanso, mas como lugar para viver e investir‘, diz Ferreira.
Esse público, somado ao aumento dos custos da construção civil, eleva o padrão e o preço dos empreendimentos. Em março, enquanto a média do metro quadrado na cidade era de R$ 8 mil, em Cabo Branco, um dos bairros mais valorizados, o valor atingiu R$ 12,3 mil, uma alta de 10,4% em 12 meses.
Bairros como Cabo Branco, Tambaú e Altiplano se destacam como polos de alto padrão, enquanto Jardim Oceania, no Bessa, ganha espaço com produtos mais novos. Rebeca sentiu essa pressão ao tentar comprar um imóvel, encontrando proprietários que recusavam ofertas ou mantinham imóveis fechados à espera de maior valorização. Os aluguéis em algumas áreas da orla já acumulam altas entre 20% e 30% nos últimos anos, tornando o mercado mais competitivo.
Desafios da Infraestrutura: Saneamento e Meio Ambiente
O avanço urbano de João Pessoa também expõe fragilidades na infraestrutura básica, especialmente no saneamento. Dados do Instituto Trata Brasil indicam que 72,36% do esgoto da cidade é coletado e encaminhado para estações de tratamento, enquanto o restante tem destino incerto, podendo poluir rios e praias.
Joácio Morais Júnior, coordenador do laboratório de pesquisa em Sistemas Ambientais Urbanos da UFPB e presidente do Instituto ARBOR, explica que o ritmo de expansão da cidade, com a verticalização na orla e a expansão para outras zonas, não foi acompanhado pela rede de esgotamento. ‘O crescimento urbano acelerado, especialmente com a verticalização na orla e a expansão para outras zonas, gera uma pressão sem precedentes, pois a infraestrutura de coleta não acompanhou esse avanço’, afirma Júnior.
O lançamento irregular de esgoto pode levar ao transbordamento de tubulações, afetando rios e praias, e comprometendo ecossistemas como recifes de coral e manguezais. ‘Há risco real de danos irreversíveis. Esses sistemas têm um ponto de não retorno’, alerta o pesquisador, destacando o impacto na pesca e no turismo.
Há divergência nos dados oficiais sobre a cobertura de saneamento entre levantamentos nacionais e relatórios da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), que não respondeu à reportagem. Especialistas defendem mais transparência, fiscalização de ligações clandestinas, ampliação da rede de coleta e um planejamento urbano que proteja áreas ambientais sensíveis, para que o crescimento ocorra de forma sustentável e planejada.
