Laudo da PF detalha como o BRB fez bilionárias aquisições do Banco Master, com pagamentos antecipados e manobras que burlaram controles e expuseram a instituição a riscos.
A Polícia Federal (PF) identificou um padrão de **gestão fraudulenta** na relação entre o Banco BRB e o Banco Master, revelando pagamentos antecipados, compras fracionadas e graves falhas nos controles internos. Um laudo pericial aponta que o BRB efetuava pagamentos por carteiras de crédito antes mesmo da conclusão de análises técnicas obrigatórias, que deveriam atestar a qualidade desses ativos.
Apesar de alertas internos sobre problemas de documentação, liquidez e inconsistências, a diretoria do banco público continuou aprovando novas operações. As conclusões da PF sugerem que os mecanismos de controle foram repetidamente contornados ou finalizados apenas após os desembolsos de recursos.
Essa série de práticas levantou sérias questões sobre a governança e a prudência nas operações do BRB, que totalizaram R$ 47,78 bilhões com o Banco Master. A investigação detalha como a instituição, mesmo ciente dos riscos, prosseguiu com negócios que comprometiam sua segurança financeira, conforme informação divulgada pelo g1.
Alertas Ignorados e Riscos Acentuados no Banco Master
Desde o início da ampliação da compra de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB, já existiam diversos sinais de alerta sobre a situação da instituição. As primeiras advertências, embora não indicassem insolvência iminente, apontavam para a necessidade de examinar o crescimento acelerado, a estrutura financeira e o modelo de negócios do Master com atenção.
Em outubro de 2023, a Fitch Ratings, agência especializada em avaliação de capacidade de pagamento, melhorou a nota do Banco Master, mas destacou a **volatilidade dos resultados**, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos de baixa liquidez. Apesar disso, as compras de carteiras pelo BRB começaram a ganhar escala em julho de 2024, com uma autorização inicial da diretoria para gastar até R$ 750 milhões.
Nesse mesmo período, a área técnica do BRB registrou que os ativos do Master haviam crescido 83,5% em apenas 12 meses, chegando a R$ 50,9 bilhões. O Índice de Basileia do Master, que mede a capacidade de absorver riscos e perdas, foi classificado como “muito baixo”. Além disso, o caixa correspondia a menos de 10% dos depósitos, e o Master dependia fortemente de plataformas de investimento para captar dinheiro.
Outro relatório, produzido pela RISKBank/Eleven em novembro de 2024, indicou que o volume de crédito do Master equivalia a 7,4 vezes seu patrimônio líquido, alertando para o caixa reduzido e a estratégia comercial agressiva. Segundo a perícia da PF, essas informações estavam disponíveis, mas não houve uma avaliação ampla e independente dos riscos de concentrar tantos negócios no Banco Master.
Pagamentos Antes da Análise: A Lógica Invertida do BRB
Um dos pontos mais críticos apontados pela Polícia Federal foi a inversão da lógica nas operações: o BRB liberava dinheiro para comprar carteiras de crédito antes mesmo que suas áreas técnicas concluíssem as análises. O procedimento padrão exigiria que as equipes de risco, preços e documentação verificassem o conteúdo das carteiras e avaliassem a segurança e a vantagem da compra antes do pagamento.
Essas análises prévias são essenciais para verificar a existência e documentação dos créditos, o risco de calote, a adequação do preço, a exigência de garantias e até mesmo a recomendação para não realizar a compra. Contudo, em parte das operações com o Banco Master, o BRB desembolsava os recursos primeiro, finalizando as avaliações que deveriam embasar a decisão de compra apenas depois.
A PF examinou 84 compras de carteiras de crédito para pessoas físicas, totalizando R$ 17,58 bilhões. Em 22 dessas operações, que somaram R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma das avaliações técnicas obrigatórias só foi concluída após o pagamento. Isso significa que mais de uma em cada quatro compras foi paga antes do término de todas as análises, representando 43,41% do valor desembolsado.
As avaliações atrasadas envolviam pontos cruciais como a existência dos créditos, a qualidade das carteiras, o risco de inadimplência, a adequação do preço e a necessidade de garantias. Para os peritos, uma análise concluída depois do pagamento perde sua função principal, pois não é mais possível impedir o negócio ou renegociar suas condições. O laudo afirma que “a assinatura posterior não supre a ausência de controle tempestivo: transforma instrumento de prevenção e suporte à decisão em manifestação predominantemente ex post”.
Manobras para Burlar Controles: Compras Fracionadas
A Polícia Federal também revelou que o BRB dividiu as compras de carteiras do Banco Master em operações menores. Essa estratégia visava manter cada negócio dentro do limite de valor que a diretoria do banco podia autorizar, sem a necessidade de consultar o Conselho de Administração.
A Diretoria Colegiada tinha autonomia para decidir sobre operações de até R$ 750 milhões. Acima desse valor, a aquisição deveria ser submetida ao conselho, órgão responsável por decisões de maior impacto. O laudo da PF mostra que a diretoria autorizou 25 operações que, juntas, somaram R$ 17,5 bilhões, sendo que 21 delas foram fixadas exatamente no limite de R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, por exemplo, o BRB autorizou quatro compras de R$ 750 milhões, totalizando R$ 3 bilhões, com algumas dessas decisões tomadas em apenas dois dias de intervalo. Para os peritos, a repetição do mesmo valor, o curto espaço de tempo e o envolvimento exclusivo do Banco Master indicam que os negócios faziam parte de uma estratégia única.
Consideradas separadamente, as operações estavam dentro do limite da diretoria. No entanto, em conjunto, deveriam ter sido submetidas ao Conselho de Administração. O laudo aponta que “a segmentação manteve cada ato dentro da alçada formal da Diretoria, mas suprimiu do CONSAD [Conselho de Administração] a apreciação integrada de uma estratégia contínua, concentrada e equivalente a 23,3 alçadas individuais da DICOL [Diretoria Colegiada]”.
Documentação Suspeita e Concentração Excessiva de Riscos
Em fevereiro de 2025, um grupo de trabalho do BRB foi criado para verificar as carteiras de crédito compradas do Banco Master. O primeiro relatório, concluído em abril do ano passado, apontou problemas que dificultavam a confirmação da existência dos empréstimos, a documentação adequada e a possibilidade de cobrança.
Entre os achados estavam dados fictícios, controles manuais em planilhas, falta de acesso a documentos formais dos empréstimos e contratos gerados e assinados pelo próprio Master, sem a assinatura dos clientes, na amostra analisada. Divergências financeiras chegavam a R$ 1,39 bilhão em valores brutos.
Mesmo após esse relatório, a diretoria do BRB autorizou mais R$ 2 bilhões em compras de carteiras ao longo de abril. Em inspeção no Master, técnicos do BRB identificaram R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas por clientes, mas não repassadas ao banco público. O documento final, de maio, mostrou pendências ainda maiores, com R$ 265,9 milhões em repasses devidos e mais de 1 milhão de parcelas vencidas, somando R$ 316,5 milhões.
Apesar de todas essas descobertas e da piora da situação financeira do BRB, que estava com menos dinheiro disponível do que o limite seguro, os negócios não foram interrompidos. O BRB pagou mais R$ 5,23 bilhões ao Master após os relatórios internos apontarem problemas, e outros R$ 7,42 bilhões depois do primeiro alerta formal sobre a liquidez do banco.
Com as novas compras, o BRB se tornou excessivamente dependente do Master. Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo banco público estavam concentradas no Master, totalizando R$ 19,78 bilhões dos R$ 21,91 bilhões mantidos nessas operações. Isso significa que, de cada R$ 10 investidos nessas carteiras, cerca de R$ 9 estavam ligados ao Banco Master.
Padrão de ‘Gestão Fraudulenta’ Caracterizado pela PF
A Polícia Federal concluiu que os episódios descritos no laudo não representam falhas isoladas. Ao analisar as operações entre o BRB e o Banco Master em conjunto, os peritos identificaram uma sequência de práticas repetidas que configuram um padrão de **gestão fraudulenta**.
A perícia abrangeu R$ 47,78 bilhões em operações, sendo R$ 31,74 bilhões referentes à venda de carteiras de crédito do Master ao BRB. As práticas incluem pagamentos feitos antes da conclusão das análises técnicas, pareceres finalizados após o dinheiro já ter sido liberado, compras divididas para contornar limites da diretoria, falta de avaliação ampla dos riscos e continuidade dos pagamentos mesmo após alertas financeiros.
Para os peritos, as compras prosseguiram enquanto etapas essenciais de análise de riscos, autorização e controle de dinheiro eram contornadas ou concluídas tardiamente. A repetição dessas ações levou à conclusão de que havia elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar “gestão fraudulenta”, e não apenas “gestão temerária”.
A PF esclarece que essa conclusão não se baseia apenas no risco ou no possível prejuízo das operações, mas nos mecanismos usados repetidamente para reduzir a eficácia dos controles internos do BRB. O laudo finaliza afirmando que “a utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória […] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”.
