A petroleira estatal venezuelana enfrenta desafios estruturais e um novo cenário geopolítico, com empresas americanas de olho nas maiores reservas do planeta e possíveis impactos no Brasil.
A recente ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na prisão de Nicolás Maduro, colocou em xeque o futuro da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), a gigante estatal que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
As declarações do presidente Donald Trump sobre a intenção de “assumir” o setor petrolífero venezuelano geraram grande expectativa no mercado, levantando questões sobre como essa reestruturação pode impactar a empresa, as petrolíferas americanas e o cenário energético global.
Especialistas e analistas acompanham de perto os desdobramentos, que prometem redesenhar o papel da Venezuela no mercado internacional de petróleo, conforme informações divulgadas pelo g1.
O que acontece com a PDVSA?
Apesar da intensa ofensiva militar, a PDVSA continua operando. Segundo informações da Reuters, as atividades de produção e refino seguem normalmente, sem danos significativos às principais instalações, embora o porto de La Guaira tenha sido severamente afetado pelos ataques.
No entanto, o maior desafio da empresa não é operacional de curto prazo, mas sim estrutural. A PDVSA, responsável por cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela, foi enfraquecida ao longo dos anos.
Welber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados e ex-secretário de Comércio Exterior do MDIC, afirma que a estatal foi “desmontada por falta de investimento”. Ele destaca que a empresa exporta hoje apenas um terço do volume registrado há 20 anos.
A PDVSA é descrita como uma empresa “sucateada por má administração”, mas que ainda possui um “enorme potencial” devido às suas vastas reservas. Problemas operacionais, corrupção, perda de quadros técnicos e sanções dos EUA agravaram o cenário.
A produção de petróleo da Venezuela caiu mais de 70% desde o final dos anos 1990, estabilizando-se em torno de 1 milhão de barris por dia, em parte graças a licenças especiais concedidas a algumas empresas estrangeiras, como a americana Chevron.
Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras e professor da FGV, avalia que a PDVSA não perderá relevância, mas deve mudar seu modelo de atuação. Ele sugere que a estatal pode “passar a operar em parceria com empresas internacionais”, o que representaria um fortalecimento.
O que Trump pretende e o papel das empresas americanas?
Donald Trump afirmou que os EUA pretendem “consertar” a indústria petrolífera venezuelana, abrindo o setor para grandes empresas americanas. O objetivo é recuperar a infraestrutura e recolocar o petróleo venezuelano no mercado internacional.
O presidente americano defende uma participação direta do capital privado na reestruturação do setor, com bilhões de dólares em investimentos para gerar lucro para o país. Analistas do UBS BB pontuam que Trump propõe que os EUA “administrem” a Venezuela em um período de transição.
Para Rafael Chaves, a lógica é de mercado, e quando Trump fala em “assumir”, ele se refere à abertura para empresas privadas como Exxon e Chevron, e não a uma estatização.
Welber Barral destaca o grande interesse das empresas americanas no petróleo venezuelano. Durante o governo Biden, houve exceções para a atuação limitada de algumas companhias, mas essas autorizações foram revogadas na nova gestão Trump.
Ainda assim, o interesse em retomar investimentos permanece. O caminho mais provável seria a celebração de acordos com a PDVSA, envolvendo a cessão de blocos ou outros formatos de parceria para viabilizar a produção e exportação de petróleo.
O principal objetivo das empresas americanas é exportar para o sul dos EUA, onde há muitas refinarias. A expectativa de abertura do mercado venezuelano impulsionou as ações das principais petrolíferas americanas, embora a euforia inicial tenha se moderado.
Efeitos no mercado de petróleo e no Brasil?
Especialistas avaliam que os desdobramentos na indústria petrolífera da Venezuela terão um impacto limitado nos preços internacionais do petróleo no curto prazo. A produção atual, em torno de 1 milhão de barris por dia, está bem abaixo do potencial histórico do país.
Para que a oferta aumente de forma relevante, seria necessário um longo processo de investimentos, reconstrução da infraestrutura e mudanças profundas na governança da PDVSA. O mercado global de petróleo já opera com expectativa de excesso de oferta e demanda mais fraca em 2026.
Helder Queiroz, professor da UFRJ e ex-diretor da ANP, afirma que “não há possibilidade de aumento rápido” na produção. Um retorno ao patamar de 3 milhões de barris por dia não ocorreria em menos de cinco anos, mesmo em um cenário otimista.
No entanto, uma eventual recuperação da produção venezuelana tornaria o mercado mais competitivo. Isso pressionaria o Brasil e a Petrobras a acelerar a exploração de suas reservas, segundo Rafael Chaves.
Para Chaves, a Petrobras continua relevante, mas precisa ganhar velocidade para transformar seu potencial energético em crescimento econômico, diante de um cenário global mais dinâmico.
O fator China e o redesenho geopolítico?
A atuação dos EUA na Venezuela também possui uma dimensão estratégica no cenário geopolítico global. Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, aponta que a China é hoje o principal destino do petróleo venezuelano.
O país asiático compra cerca de 430 mil barris por dia e é credora de aproximadamente US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo. Washington busca reduzir a influência de Pequim e de Moscou sobre a Venezuela, o que pode levar outros países da região a reavaliar sua dependência desse financiamento.
Welber Barral, da BMJ, avalia que ainda não há uma estratégia americana claramente definida para o futuro da Venezuela além da derrubada de Maduro. O principal interesse geoestratégico é “afastar a Venezuela de alianças com Rússia, China e Irã”, reduzindo essa proximidade.
A reação inicial dos mercados reflete mais uma leitura sobre o novo cenário político do que mudanças concretas na oferta de petróleo ou na estrutura da indústria venezuelana. Helder Queiroz indica que, por ora, o impacto é mais simbólico do que prático, à espera de definições sobre os próximos passos no tabuleiro geopolítico e energético.
