Estudo global revela aumento chocante de misoginia entre a Geração Z, impulsionado por redes sociais e a ‘machosfera’, demandando ações urgentes no Brasil.
A internet se tornou um campo fértil para a disseminação de conteúdos que incitam a violência e a aversão às mulheres, alcançando níveis preocupantes. Recentemente, a viralização da “trend” “Caso ela diga não” no TikTok, que instiga a violência em resposta à rejeição feminina, acendeu um alerta para a profundidade do problema.
Essa onda de misoginia online, que se manifesta em diversas plataformas, está diretamente ligada a uma mudança de comportamento e visão entre os mais jovens. Pesquisas globais e casos chocantes no Brasil revelam como essa exposição digital molda atitudes e crenças, impactando diretamente a sociedade.
O cenário é de crescente preocupação, com especialistas apontando as redes sociais como um motor crucial para a reversão de atitudes em relação às mulheres, conforme informações divulgadas pelo g1.
A Ascensão da Misoginia Online e a ‘Trend’ do Ódio
A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para investigar a divulgação da “trend” “Caso ela diga não”, que incita a violência contra mulheres nas redes sociais. Vídeos que viralizaram no TikTok mostravam jovens ensinando como reagir a uma rejeição, como a recusa de um pedido de namoro, por exemplo, com socos e chutes em manequins que representariam mulheres.
A PF solicitou a remoção desses conteúdos à plataforma, e o TikTok confirmou que os vídeos violavam suas regras e foram prontamente retirados após serem identificados. A repercussão dessa trend veio à tona dias após um caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, que gerou revolta nacional.
Nesse episódio, uma adolescente de 17 anos denunciou ter sido vítima de uma “emboscada planejada” em Copacabana. Imagens exibidas pela TV Globo mostraram os cinco jovens acusados comemorando e debochando da vítima, um deles usando uma camisa com a frase em inglês “regret nothing” (não me arrependo de nada), frequentemente associada a grupos da chamada “machosfera”.
Geração Z: Mais Conservadora e Influenciada pelas Redes
Um estudo global realizado pela empresa de pesquisas Ipsos e pelo King’s College de Londres revelou um dado alarmante: homens da Geração Z, nascidos entre 1996 e 2012, são mais propensos a acreditar que esposas devem “obedecer” seus maridos do que as gerações anteriores. A pesquisa envolveu 23 mil pessoas em 29 países.
Os resultados indicam que até 31% dos homens adolescentes e na casa dos 20 anos de idade concordam com a afirmação de que “a esposa deve sempre obedecer seu marido”. Em contraste, apenas 13% dos homens mais velhos, com 60 anos ou mais, compartilham dessa visão, evidenciando uma preocupante regressão nas atitudes e na percepção da igualdade.
A professora Heejung Chung, diretora do Instituto Global para a Liderança das Mulheres do King’s College de Londres, afirmou em entrevista à BBC News que as redes sociais desempenham um “enorme papel” nessa mudança de opinião. Segundo ela, influenciadores e políticos “exploram as reclamações das pessoas” e “tentam recapturar parte do sentimento de serem enfraquecidos pela geração mais jovem”.
Chung explica que esses discursos sugerem que os homens precisam reafirmar sua dominância e seu papel de protetores e provedores. Ela observa que “as pessoas estão imitando o que veem nas redes sociais sem realmente compreender o que aquilo significa”, o que agrava a disseminação de ideologias misóginas.
O Impacto Profundo da ‘Machosfera’ e a Percepção Distorcida da Igualdade
Penny East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett, uma organização de defesa dos direitos das mulheres com sede no Reino Unido, concorda que os “níveis chocantes de misoginia, online e offline”, a que os meninos são expostos contribuem para essas atitudes. “É quase surpreendente que os meninos possam não assumir esse comportamento misógino, considerando o conteúdo oferecido a eles diariamente em termos do que eles consomem na internet”, afirmou ela.
O fenômeno da “machosfera”, comunidades online que propagam narrativas que culpabilizam mulheres por relações afetivas frustradas e defendem hierarquias de gênero, tem ganhado visibilidade. Esses grupos, em alguns casos, chegam a incentivar comportamentos violentos, moldando a percepção de jovens sobre o papel masculino e feminino na sociedade, e sobre as relações interpessoais.
A pesquisa também indicou que, embora em menor proporção que os homens, o número de mulheres mais jovens que acreditam na subserviência da esposa ao marido é maior do que o de homens da geração baby boomer. Penny East atribui isso às redes sociais, que também promovem a “ideia tradicional de feminilidade”, com conteúdos esteticamente agradáveis que mostram a “esposa tradicional” ou abordam a subserviência, questionando se o homem, como provedor, manda na casa.
Globalmente, 44% das pessoas concordam que “fomos longe demais ao promover a igualdade das mulheres e passamos a discriminar os homens”. Contudo, o organismo de defesa dos direitos das mulheres das Nações Unidas, a UN Women, ressalta que as mulheres detêm globalmente apenas 64% dos direitos legais dos homens, o que as expõe à discriminação, violência e exclusão em todas as fases da vida. Penny East lamenta que “parece simplesmente que tudo está indo na direção errada” e que essa percepção ignora a realidade das mulheres que “ainda sofrem abusos nas suas próprias casas, continuam sendo importunadas sexualmente nas ruas e ainda ganham menos, em comparação com os homens”.
Respostas Legislativas: Projetos de Lei Contra a Misoginia
Diante desse cenário preocupante de misoginia e violência contra mulheres nas redes sociais, o Congresso Nacional tem debatido propostas para fortalecer o enfrentamento a esses conteúdos. Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) é autora de um projeto de lei que visa criminalizar a misoginia e a disseminação de conteúdos associados à chamada cultura “red pill” na internet.
Essa iniciativa busca responsabilizar publicações digitais que promovam ódio, violência, humilhação ou inferiorização das mulheres, especialmente em redes sociais, fóruns e comunidades online que difundem ideologias misóginas. O objetivo é criar instrumentos legais para coibir a propagação desse tipo de material e proteger as vítimas.
No Senado, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) analisa um projeto da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) que propõe incluir a misoginia na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), tipificando a prática como crime de discriminação. A proposta define misoginia como atos que manifestem ódio ou aversão às mulheres com base na ideia de supremacia masculina.
Se aprovado, o texto ampliaria o alcance da legislação, que atualmente pune discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, para abranger também crimes praticados em razão da misoginia, reforçando a proteção legal às mulheres e combatendo atitudes que perpetuam a desigualdade de gênero.
