Morango importado do Egito: entenda como a fruta estrangeira, com custo quase 50% menor, está desestruturando a produção local no Espírito Santo e impactando a economia.
Produtores de morango no Espírito Santo estão enfrentando uma crise sem precedentes, desencadeada pela crescente importação de morangos vindos do Egito. A fruta estrangeira, que chega ao Brasil com um custo significativamente mais baixo, tem gerado uma concorrência desleal no mercado nacional.
Essa situação tem obrigado os agricultores capixabas a reduzir drasticamente os preços de seus produtos, comprometendo sua renda e, em muitos casos, levando à desistência do plantio. A preocupação é grande em uma região que é uma das maiores produtoras de morango do país, conforme informações divulgadas pelo G1.
O cenário é alarmante, com o morango importado do Egito ameaçando a sustentabilidade da agricultura familiar e a economia local, especialmente na Região Serrana do estado.
Concorrência Desleal e Custos Elevados
A disparidade de preços é o cerne do problema. Enquanto o custo médio de produção do morango na Região Serrana do Espírito Santo varia entre R$ 15 e R$ 16 por quilo, o produto africano entra no Brasil custando cerca de R$ 8 por quilo. Essa diferença inviabiliza a competição para os agricultores locais.
Vanderlei Marquez, secretário de Agropecuária de Santa Maria de Jetibá, questionou a sustentabilidade do negócio: “Como é que o produtor vai sobreviver tendo custo de R$ 16 e vendendo morango a R$ 10 ou R$ 11, para tentar equilibrar a concorrência?”. A pergunta reflete a angústia de muitos.
Regilvan Barbosa, produtor em Santa Maria de Jetibá com 14 mil pés de morango em estufa, sente o impacto diretamente. Ele relata que a situação piorou, pois os custos de produção locais aumentaram cerca de 15% nos últimos 12 meses, tornando a chegada do morango importado do Egito ainda mais desafiadora.
O Espírito Santo é o quarto maior produtor de morango do Brasil, com uma produção anual de aproximadamente 10.000 toneladas. A Região Serrana, incluindo municípios como Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante e Afonso Cláudio, forma o importante Polo de Morango do estado.
Pedido de Elevação da Tarifa de Importação
Diante da gravidade da situação, a Secretaria de Estado da Agricultura do Espírito Santo já agiu. Produtores capixabas foram forçados a reduzir seus preços para tentar competir com o morango importado do Egito, que é majoritariamente utilizado pela indústria na forma ultracongelada para sucos e polpas.
O governo estadual considera a alíquota de importação, atualmente em torno de 4%, muito baixa. Para mitigar os impactos negativos, um ofício foi enviado ao Ministério da Agricultura e Pecuária. O objetivo é que a Câmara de Comércio Exterior analise e discuta a elevação dessa tarifa.
Enio Bergoli, secretário estadual de Agricultura, enfatizou a necessidade de equilíbrio: “O morango do Egito chega ao país por cerca de R$ 7 ou R$ 8 o quilo para a indústria. Esse valor fica abaixo do custo de produção da maioria das propriedades que cultivam morango no Espírito Santo e no Brasil. Então, o que queremos é equilíbrio. O morango de fora pode vir, mas precisa haver uma relação justa entre o custo de produção aqui e o custo da importação”.
Cooperativas e Desânimo no Plantio Futuro
As cooperativas que comercializam morango congelado para a indústria também sentem o peso da concorrência. Em Santa Maria de Jetibá, uma cooperativa precisou cortar o valor pago aos agricultores para se manter competitiva no mercado.
Geovane Schulz, diretor comercial, explicou que o morango egípcio possui características valorizadas pela indústria. O clima do Egito, com noites muito frias e dias quentes, contribui para uma maior qualidade de sabor, tornando-o atrativo.
No passado, produtores recebiam cerca de R$ 7,50 por quilo. Atualmente, o valor caiu para uma faixa de R$ 2,50 a R$ 5. Essa queda drástica desestimula novos plantios. Schulz observa que “Hoje, o produtor está bem desanimado. A gente vende também mudas e percebeu muitas desistências de plantio para 2026”.
Alternativas e Desafios para os Produtores
Diante do cenário desafiador, pesquisadores do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) sugerem que os agricultores busquem diversificar suas lavouras. O objetivo é plantar outras frutas para reduzir os riscos econômicos atrelados à monocultura do morango.
Contudo, essa transição não é simples nem rápida. Andrea Costa, pesquisadora do Incaper, alerta que “Aprender a trabalhar com outra cultura leva tempo, assim como implantar uma nova lavoura. Para quem depende apenas do morango, isso pode trazer problemas muito sérios para a renda da família”.
A busca por soluções e um equilíbrio justo no mercado é fundamental para garantir a sobrevivência dos produtores de morango no Espírito Santo, frente à pressão do morango importado do Egito e a necessidade de proteger a agricultura familiar local.
