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“Mais simbólico que efetivo”: por que Brasil foi à OMC contra Trump | G1

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"title": "<b>Brasil aciona OMC contra tarifas dos EUA</b>: Por que a medida é mais simbólica que efetiva e qual a estratégia por trás da decisão em meio à fragilidade do órgão",
"subtitle": "A iniciativa brasileira na Organização Mundial do Comércio, apesar do enfraquecimento do sistema de disputas, visa reafirmar princípios e construir base jurídica para futuras negociações e acordos comerciais.",
"content_html": "<h2>A iniciativa brasileira na Organização Mundial do Comércio, apesar do enfraquecimento do sistema de disputas, visa reafirmar princípios e construir base jurídica para futuras negociações e acordos comerciais.</h2><p>O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, em uma ação que, para especialistas, tem mais valor simbólico do que impacto imediato. A medida busca questionar duas tarifas americanas: uma de 25% sobre parte dos produtos após investigação de supostas práticas comerciais desleais e outra de 12,5% aplicada a parceiros comerciais, relacionada ao comércio de produtos que utilizam trabalho forçado.</p><p>A decisão de recorrer ao sistema internacional de comércio ocorre em um momento delicado. O principal sistema de julgamento da OMC, o Órgão de Apelação, está praticamente paralisado desde 2019, após os EUA bloquearem a nomeação de novos integrantes. Isso levanta a questão sobre a eficácia de uma disputa que pode levar anos para ser resolvida.</p><p>No entanto, o objetivo do governo brasileiro vai além de uma resposta rápida. A estratégia é <b>preservar as regras do comércio internacional</b>, registrar formalmente a contestação, fortalecer a posição diplomática do país e construir uma base jurídica sólida para futuras negociações, conforme informações divulgadas pelo g1.</p><h3>Por que recorrer a uma OMC enfraquecida?</h3><p>Criada em 1995, a Organização Mundial do Comércio estabelece as regras para o comércio internacional e oferece um mecanismo para que países contestem medidas que consideram incompatíveis com os acordos firmados entre seus membros. Contudo, a paralisia do Órgão de Apelação desde 2019, devido ao bloqueio americano na nomeação de novos membros, representa um grande desafio.</p><p>Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM, descreve esse cenário como <b>"o maior golpe já sofrido pela OMC em seus quase 30 anos de existência"</b>, afirmando que a ida do Brasil é "mais simbólica que efetiva". Para ele, a situação aproxima a organização de um fórum meramente consultivo, em um momento em que potências como os EUA se afastam do multilateralismo.</p><p>O enfraquecimento da OMC também reflete uma mudança de postura das maiores economias globais. O cientista político e professor da UFPI, Elton Gomes, observa que <b>"quando EUA e China deixam de colocá-la no centro das suas disputas, qualquer instituição perderia força"</b>. As tarifas americanas, segundo ele, se transformaram em uma ferramenta de "pressão geopolítica" para obter vantagens estratégicas.</p><h3>O que o Brasil ganha com o processo?</h3><p>Para Roberto Uebel, o principal benefício da ação brasileira é a <b>reafirmação de princípios</b>. Ao acionar a OMC, o Brasil defende o multilateralismo, um pilar de sua política externa, e sinaliza que considera as tarifas americanas injustificadas e incompatíveis com as normas internacionais.</p><p>Elton Gomes destaca a importância da construção de um registro jurídico. Ele explica que <b>"o Brasil não quer apenas receber normas. Ele procura contribuir para que elas sejam construídas. Cada disputa gera uma jurisprudência e um conjunto de documentos que podem balizar decisões futuras"</b>. Para o Brasil, atuar em instituições internacionais sempre foi uma forma de ampliar sua influência diante do peso militar das grandes potências.</p><p>Mesmo que uma solução definitiva possa levar meses ou anos, e uma eventual decisão favorável ao Brasil possa enfrentar dificuldades na fase de recursos devido à paralisia do Órgão de Apelação, o processo de consultas entre os países já é um passo importante. Ele permite que Brasil e EUA tentem um acordo antes que o caso avance para um painel de especialistas.</p><h3>Histórico: Brasil e a OMC em outras disputas</h3><p>A estratégia atual do Brasil na OMC não é inédita. O país já utilizou a organização em outros conflitos comerciais. Um exemplo notável foi a disputa contra os EUA sobre os subsídios ao algodão, iniciada em 2002. O Brasil alegou que os repasses americanos distorciam o mercado internacional, prejudicando seus agricultores.</p><p>Em 2004, a OMC deu ganho de causa ao Brasil. Após anos de discussões, o país foi autorizado a aplicar sanções comerciais em 2009. A retaliação foi evitada por um acordo provisório em 2010 e, em 2014, o contencioso foi encerrado com o pagamento de <b>US$ 300 milhões pelos EUA ao Instituto Brasileiro do Algodão (IBA)</b>, além de mudanças nos programas americanos de apoio ao setor.</p><p>Outro caso relevante foi a contestação brasileira em 2002 aos subsídios da União Europeia aos produtores de açúcar. Em 2005, o Órgano de Apelação confirmou que parte das medidas era incompatível com as regras, levando o bloco europeu a reformular sua política e reduzir subsídios, abrindo espaço para exportadores como o Brasil.</p><p>Esses exemplos demonstram que as disputas na OMC raramente resultam em sanções imediatas. Na prática, as decisões servem como um <b>instrumento de pressão</b> para que os países ajustem suas políticas ou negociem acordos bilaterais, fortalecendo a posição negociadora, como afirma Elton Gomes.</p><h3>Reciprocidade e o novo cenário do comércio global</h3><p>Além da ação na OMC, o governo brasileiro também considera a Lei da Reciprocidade Econômica. Este mecanismo permite ao país responder a medidas prejudiciais de parceiros comerciais. No entanto, especialistas aconselham cautela ao usar essa ferramenta.</p><p>Carla Beni, economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), enfatiza que a negociação deve ser a prioridade. Ela adverte que uma resposta baseada apenas em novas tarifas poderia gerar efeitos negativos para setores brasileiros. <b>"O objetivo não deve ser entrar em uma guerra tarifária. Existem mecanismos mais inteligentes, com medidas específicas para determinados setores"</b>, afirma, sugerindo respostas direcionadas para evitar impactos maiores.</p><p>O conflito entre Brasil e EUA se insere em um contexto de transformação do comércio internacional. Medidas unilaterais e a adoção de tarifas por grandes economias pressionam um sistema que, por décadas, buscou regras comuns e a redução de barreiras. Paula Sauer, professora da FIA Business School, observa que <b>"a globalização não acabou, mas estamos entrando em uma nova fase"</b>.</p><p>Segundo Sauer, crises recentes, como a pandemia e conflitos internacionais, evidenciaram os riscos de cadeias produtivas concentradas. Ela destaca uma transição da lógica do menor custo para a <b>lógica do menor risco</b>. Nesse cenário, o Brasil atua em diversas frentes, defendendo o multilateralismo, participando de negociações comerciais e buscando diversificar parceiros para reduzir vulnerabilidades em um ambiente de maior disputa entre potências.</p>"
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