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Guerra no Irã: Países do Golfo Aceleram Planos Bilionários para Driblar o Estreito de Ormuz e Blindar o Fluxo de Petróleo

A escalada da guerra no Irã está forçando as principais nações produtoras de petróleo do Golfo Pérsico a repensar drasticamente suas estratégias de exportação. O objetivo central é reduzir a perigosa dependência do Estreito de Ormuz, a principal rota marítima para o transporte de petróleo da região.

Países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Iraque estão acelerando ambiciosos projetos de oleodutos, terminais e áreas de armazenamento. Essas iniciativas visam garantir que o petróleo possa ser transportado sem a necessidade de passar por esse estreito estratégico.

Os investimentos, que somam bilhões de dólares e levarão anos para serem concluídos, são vistos como essenciais por governos e empresas. A percepção é que, mesmo com um eventual cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, a dependência de uma única rota de exportação representa um risco inaceitável, conforme informações divulgadas pelo jornal “The New York Times” e repercutidas pelo g1.

Exportações pelo Estreito Despencam Drasticamente

Antes do início dos ataques militares de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o Estreito de Ormuz era a passagem diária para cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto. Essa passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é vital para levar o petróleo da região aos mercados globais.

No entanto, a guerra alterou drasticamente esse fluxo. Bloqueios impostos por ambos os lados, a presença de minas marítimas, ataques com mísseis e um aumento vertiginoso nos custos de seguro para navios praticamente paralisaram a rota. Na semana passada, as exportações de petróleo bruto pelo estreito caíram para aproximadamente 3,7 milhões de barris por dia, segundo a Kpler, empresa que monitora o transporte marítimo.

Apesar da queda, parte do petróleo ainda deixa o Golfo por outras vias. Alguns navios adotam medidas para dificultar seu rastreamento, enquanto outra parcela é transportada por rotas alternativas já existentes, principalmente oleodutos que não dependem do Estreito de Ormuz. Muitos navios que ainda o atravessam enfrentam riscos severos, incluindo ataques de drones iranianos e a necessidade de desligar seus sistemas de localização. Pelo menos 17 trabalhadores marítimos morreram na região.

Emirados Árabes Unidos Ampliam Rota Alternativa

Na cidade portuária de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, que se volta para o Golfo de Omã, equipes trabalham 24 horas por dia na construção de um segundo oleoduto. Essa estrutura paralela a uma já existente transporta petróleo dos campos terrestres de Abu Dhabi até a costa, permitindo o embarque sem passar pelo Estreito de Ormuz.

O novo projeto ambiciona duplicar a capacidade dessa rota alternativa para 3,6 milhões de barris por dia. Com isso, quase todo o petróleo produzido em terra em Abu Dhabi poderá chegar aos navios de transporte internacional sem precisar atravessar o estreito.

A estatal de energia dos Emirados, Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), também anunciou um investimento de US$ 8,2 bilhões (R$ 42,5 bilhões) na expansão de seus negócios de gás natural. A empresa estuda a construção de uma instalação para exportar gás natural liquefeito na costa leste, evitando igualmente o Estreito de Ormuz, conforme Peter van Driel, diretor financeiro da ADNOC.

Arábia Saudita Fortalece Oleoduto até o Mar Vermelho

Na Arábia Saudita, a estatal Saudi Aramco está acelerando um projeto de expansão multibilionário do Oleoduto Leste-Oeste. Essa estrutura, construída na década de 1980 durante a guerra entre Irã e Iraque, percorre 1.201 quilômetros até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, oferecendo uma alternativa crucial ao transporte marítimo pelo Golfo.

O presidente da Aramco, Yasir O. Al-Rumayyan, descreveu o oleoduto como a “linha de vida” econômica do país. Desde que a guerra no Irã e os ataques militares paralisaram, na prática, o Estreito de Ormuz, o oleoduto conseguiu redirecionar cerca de 7 milhões de barris de petróleo por dia.

As autoridades sauditas agora trabalham para adicionar mais 1 milhão a 2 milhões de barris por dia à capacidade da estrutura. O país também avalia a construção de um segundo oleoduto, menor e paralelo ao atual, para transportar derivados de petróleo, como combustíveis. “Em relação à exportação do nosso petróleo bruto, estamos trabalhando ativamente para aumentar nossas opções neste momento”, afirmou Amin Nasser, presidente-executivo da Saudi Aramco.

Outros Países do Golfo Buscam Alternativas e Enfrentam Novos Riscos

A incerteza em torno do Estreito de Ormuz impulsionou outros produtores do Golfo a acelerar projetos semelhantes. O Kuwait negocia com a Arábia Saudita e outros países árabes a construção de um oleoduto que ligaria seus campos de petróleo a portos no Mar Vermelho ou em Omã.

O Iraque e a Jordânia retomaram planos antigos para construir um oleoduto com capacidade de até 1 milhão de barris por dia até o porto de Aqaba, no Mar Vermelho, segundo a televisão estatal jordaniana. O Iraque também acelera a reconstrução de um oleoduto danificado para transportar petróleo dos campos de Kirkuk até a costa mediterrânea da Síria.

No entanto, essas novas rotas também criam novos desafios. Ao redirecionar parte do transporte para o Mar Vermelho, a Arábia Saudita, por exemplo, aumenta sua dependência de uma região onde o grupo rebelde houthi, do Iêmen, tem atacado embarcações. Recentemente, seis pessoas morreram em um ataque houthi a um navio no Mar Vermelho.

Petróleo Armazenado Longe do Golfo como Estratégia de Segurança

Além dos novos oleodutos, os países produtores estão adotando outra estratégia crucial: aumentar seus estoques de petróleo em outros países. Nações do Golfo estão ampliando a capacidade de armazenamento em locais distantes da região, como Coreia do Sul, Japão e Índia.

Essa estratégia funciona como uma espécie de seguro. Se o Estreito de Ormuz for fechado, parte do petróleo já estará armazenada do outro lado da passagem, podendo ser vendida aos compradores sem depender imediatamente de uma nova travessia. “Todo mundo está tentando aumentar sua capacidade de armazenamento”, disse Nasser, da Aramco. “A segurança energética está se tornando uma prioridade agora.”

Apesar dos investimentos massivos, analistas apontam que os países do Golfo não conseguirão abandonar completamente o Estreito de Ormuz. “Eles definitivamente precisam do Estreito de Ormuz porque ele oferece muitas vantagens e a infraestrutura já está instalada”, explicou Carole Nakhle, presidente-executiva da consultoria Crystol Energy. Para ela, contudo, a crise atual demonstrou que depender exclusivamente dessa passagem foi um erro. “Foi tolice colocar toda a confiança em Ormuz”, concluiu.

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