O Desenrola 2.0 oferece alívio, mas especialistas e histórias reais revelam que o crédito fácil e a ausência de educação financeira são barreiras para a liberdade das dívidas.
O governo federal lançou recentemente o programa Desenrola 2.0, uma iniciativa que promete aliviar débitos e ajudar a limpar o nome de milhões de brasileiros endividados. Com descontos que variam de 30% a 90%, conforme o tipo de dívida, o programa tem como público-alvo trabalhadores com renda mensal de até R$ 8.105.
Embora o Desenrola seja visto como uma esperança para muitos consumidores, especialistas e relatos de quem já enfrentou o endividamento apontam que a medida, por si só, pode não ser suficiente para resolver o problema de forma duradoura. Limpar o nome é apenas o primeiro passo, e a jornada para a saúde financeira exige mais.
A percepção é que o programa não aborda questões estruturais que levam ao alto endividamento no país, como o crédito fácil e a falta de educação financeira, conforme informações divulgadas pelo g1.
Além da Renegociação: Por Que o Desenrola Pode Ser “Enxugar Gelo”
Especialistas ouvidos pelo g1 concordam que, apesar do potencial para reduzir a inadimplência e reinserir consumidores no sistema de crédito, os efeitos do Desenrola tendem a ser mais imediatos do que estruturais. A planejadora financeira Myrian Lund explica que o problema da dívida não reside apenas nas taxas de juros, mas no excesso de crédito disponível para a população.
Para Lund, o programa deveria ser associado a ações de educação financeira para gerar resultados mais permanentes na redução da inadimplência. Ela afirma que, para uma minoria, pode até ser positivo, mas do ponto de vista estrutural, é como “enxugar gelo”, sem resolver a causa raiz.
Mônica Cardoso, também planejadora financeira, reforça que as renegociações exigem cautela. É crucial que uma dívida resolvida agora não se transforme em outra no futuro. Ela alerta que uma reserva não sanará o problema, sendo necessário cuidado para não se endividar novamente em um ou dois anos.
A História de Delano Zonta: Ganhar na Loteria e Continuar Devendo
A experiência do empresário Delano Zonta ilustra bem a complexidade do endividamento. Mesmo com boa renda, ele sempre gastava tudo, misturando contas pessoais e da empresa, e usando o cartão de crédito de forma desenfreada. Chegou a sacar dinheiro do negócio para comprar um carro e acumulou mais de R$ 230 mil em dívidas.
Em um sábado, com apenas R$ 42 na conta, Zonta ganhou R$ 35 mil na Mega-Sena. O primeiro sentimento foi de alívio, mas a realidade bateu rápido. Ele pegou o dinheiro às 11h, pagou um pouco de cada dívida e, às 14h30, já não tinha mais nenhum real, ainda devendo mais de R$ 216 mil.
Aquele dia, que ele descreve como um dos piores da sua vida, foi o ponto de virada. Delano decidiu mudar, começou a estudar o sistema bancário, organizou o orçamento e contou com o apoio fundamental da esposa. Ele destaca a solidão do endividado e a importância de não lidar com o problema sozinho. Quase quatro anos depois, quitou tudo e hoje vive de educação financeira.
Crédito Fácil: Um “Canto de Sereia” Que Piora a Situação
O coordenador do curso de ciências contábeis da Unicid, Wagner Pagliato, aponta que casos de endividamento crônico frequentemente estão ligados à falta de alinhamento nas decisões de consumo e à pressão social por um padrão de vida irreal. O endividamento, segundo ele, transcende o financeiro, afetando a saúde emocional, gerando estresse, ansiedade e culpa.
Eventos inesperados, como o roubo do celular de Fernanda, podem desorganizar rapidamente as finanças. Ela teve mais de R$ 40 mil em compras no cartão e um empréstimo de R$ 150 mil feito em seu nome. Uma dívida de R$ 30 mil no cartão se transformou em R$ 112 mil devido aos juros. Fernanda avalia o Desenrola 2.0 para tentar resolver a situação.
A secretária Tatiana* também vivenciou a armadilha do crédito fácil. Após um relacionamento conturbado, ela comprometeu seu benefício do INSS e assumiu dívidas para ajudar o então parceiro. Mesmo com dívidas no cartão, continuou tendo acesso facilitado ao crédito, com o banco até aumentando seu limite. Ela descreve o crédito fácil como “o canto da sereia”, que a levou a uma dívida de quase R$ 100 mil.
O Caminho para Sair das Dívidas: Diagnóstico e Mudança de Hábitos
Para sair do endividamento, o primeiro passo, segundo especialistas, é fazer um “diagnóstico financeiro” detalhado, levantando todas as dívidas e a renda disponível. Pagliato, da Unicid, aconselha classificar os débitos pela taxa de juros, priorizando os mais caros.
É fundamental, também, mudar padrões de consumo e hábitos que levaram ao endividamento. Mônica Cardoso, que já deveu mais de R$ 50 mil, enfatiza a dificuldade de mudar hábitos de anos, mas a necessidade de fazer sacrifícios e aprender a dizer “não” para se reerguer.
O apoio de um profissional qualificado é crucial para negociar com os bancos. Myrian Lund ressalta que a negociação é um processo com etapas, e pode ser preciso juntar mais dinheiro antes de uma proposta ser aceita. Ela conclui que o devedor precisa “fazer o dever de casa”, com uma “economia de guerra” para liquidar a dívida de uma vez.
