A imagem tradicional de uma freira católica é desafiada pela Irmã Susan Francois, uma religiosa que não usa hábito e é ativa no TikTok. Ela, junto a outras 87 freiras da Congregação das Irmãs de São José da Paz, pratica um tipo incomum de ativismo, o ativismo acionário, que as coloca frente a frente com algumas das maiores empresas do mundo.
Essas freiras ativistas utilizam suas ações em grandes corporações para exigir medidas relacionadas a questões cruciais como mudanças climáticas, direitos territoriais de povos indígenas e justiça racial. Agora, o foco se volta para as gigantes da Big Tech e o uso da inteligência artificial, cobrando ética e respeito aos direitos humanos.
A metodologia das irmãs consiste em usar sua posição como acionistas para apresentar propostas e pressionar os conselhos de administração a considerarem o bem comum, conforme informações divulgadas pela BBC ao g1.
O Ativismo Acionário das Freiras em Ação
A Irmã Susan Francois, como tesoureira da congregação, é uma das vozes ativas nesse movimento. Ela afirma: “Como tesoureira da congregação, sou a responsável por representar nossos interesses […] quando cobramos que essas empresas atuem em favor do bem comum”. Essa abordagem permite que as freiras estejam presentes nos centros de decisão, influenciando a conduta corporativa.
O ativismo acionário envolve apresentar propostas formais para votação nas assembleias gerais anuais das empresas, um mecanismo conhecido como shareholder resolution. Mesmo com uma pequena participação acionária, a estratégia tem se mostrado eficaz para colocar temas importantes em discussão.
A congregação, que reúne freiras nos Estados Unidos e no Reino Unido, acredita que essa é uma forma de seguir o caminho de Jesus, protegendo a criação de Deus e defendendo a dignidade humana em um mundo cada vez mais complexo e tecnológico.
Confronto com a Palantir e a Questão da IA
Um caso recente e notório envolveu a gigante de tecnologia Palantir, uma empresa de análise de dados com laços com o governo dos EUA. As freiras levantaram preocupações de que o software de inteligência artificial da Palantir estaria sendo usado pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) para rastrear e identificar imigrantes, resultando em detenções e deportações.
Elas solicitaram que a Palantir realizasse uma Avaliação de Impacto sobre Direitos Humanos (HRIA) para analisar o uso de seus produtos e mitigar possíveis impactos negativos. Embora a proposta tenha recebido apenas 13% dos votos totais, a Irmã Francois considerou o resultado uma vitória.
Ela destaca que “Do [total] de votos de acionistas que não fazem parte do grupo controlador, 56% votaram a favor da proposta das irmãs”, indicando um apoio significativo entre os acionistas independentes. A Palantir, em comunicado anterior, refutou as alegações, afirmando que a iniciativa das freiras se baseava em “equívocos e informações incorretas” sobre seu trabalho.
A iniciativa das freiras ganhou ainda mais relevância com a divulgação da encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão 14, que alertou sobre a necessidade de a inteligência artificial ser “desarmada” para não “dominar a humanidade”. O pontífice defendeu que a IA deve servir ao “bem comum” e preservar a “dignidade humana”, princípios que as freiras já defendem em seu ativismo.
Impacto e Resultados Além da Votação
A Irmã Francois explica que o sucesso não é medido apenas pela aprovação de propostas. Para as irmãs, “o sucesso está em colocar essas questões em pauta e fazer com que elas cheguem ao conselho de administração para serem debatidas”. A simples discussão pública sobre a conduta de grandes empresas pode ser um catalisador para mudanças.
Um exemplo anterior de sucesso foi o confronto com o Citigroup, um dos maiores bancos do mundo, devido ao financiamento de projetos de combustíveis fósseis na Amazônia. Preocupadas com o impacto nas comunidades indígenas, as freiras pediram um relatório sobre o tema, e o Citigroup atendeu ao pedido em abril de 2024.
Mesmo propostas antigas, como a de 1976 à Colgate-Palmolive sobre o sexismo na publicidade, que foi rejeitada na época, mostram o impacto a longo prazo. A Irmã Francois reflete: “O sexismo desapareceu da publicidade? Não. A situação é diferente da que existia nos anos 1970? Sim”, demonstrando que a persistência na pauta gera transformações graduais.
Valores e a Defesa da Criação de Deus
Questionada sobre a aparente ironia de lucrar com as mesmas empresas que criticam, a Irmã Francois esclarece que os rendimentos dos investimentos são destinados aos cuidados de saúde das religiosas mais idosas e que a congregação possui apenas uma pequena participação. Além disso, há empresas nas quais jamais investiriam, como fabricantes de armas e grandes produtoras de combustíveis fósseos.
A Irmã Francois enfatiza a importância de dialogar com as grandes corporações e estar presente nos espaços de decisão. “Se nos afastarmos dos centros de poder (…), deixaremos de ter voz sobre a forma como [as decisões são] tomadas”, argumenta.
A congregação, fundada em 1884, baseia seu trabalho nos ensinamentos sociais da Igreja Católica. Diante da polarização atual, quando questionadas se seu trabalho é político, a Irmã Francois responde com clareza: “Não estamos defendendo partidos políticos. Estamos defendendo o valor da criação de Deus e o direito de todas as pessoas aos direitos humanos. Se isso é política, tudo bem.”
