Colômbia brilha no cenário econômico de 2025, mas enfrenta dilemas fiscais e investimentos
A Colômbia emergiu como um dos destaques econômicos de 2025, superando as previsões e registrando um crescimento significativo. O país vizinho do Brasil conquistou a atenção global com seu desempenho, que colocou sua economia entre as mais fortes do mundo.
Este cenário, no entanto, é permeado por análises detalhadas que buscam entender os motores desse avanço e os obstáculos que ainda precisam ser superados. A trajetória do governo de Gustavo Petro também é um ponto central na discussão sobre o futuro econômico colombiano.
Os dados e análises que se seguem são baseados em informações divulgadas pela BBC, oferecidas pelo G1, que detalham o panorama atual e as perspectivas para a economia colombiana.
O surpreendente crescimento da economia colombiana em 2025
A economia da Colômbia superou as previsões mais otimistas em 2025, um feito notável que a colocou em evidência. O Produto Interno Bruto (PIB) colombiano cresceu 3,6% no terceiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior, marcando sua maior expansão desde o fim da pandemia.
Esse número ficou bem acima das projeções da maioria dos economistas, que esperavam um crescimento de, no máximo, 3,2%, segundo analistas ouvidos pela agência Bloomberg. A revista britânica The Economist, por sua vez, classificou a economia da Colômbia como a de melhor desempenho na América Latina e a quarta melhor do mundo em 2025.
A lista da The Economist inclui 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o “clube dos países ricos”. Para contextualizar, o PIB do Brasil cresceu 1,8% no terceiro trimestre, em relação a igual período de 2024, metade do avanço colombiano.
José Antonio Ocampo, ex-ministro da Agricultura e da Fazenda da Colômbia e professor da Universidade Columbia (EUA), explicou que “a economia vai crescer mais do que o esperado, mesmo pelos mais otimistas, devido ao aumento do consumo público, mas também do consumo privado.” Juan Carlos Mora, presidente do Bancolombia, complementou: “A economia está muito melhor do que as pessoas pensam. Os empréstimos inadimplentes melhoraram substancialmente. As pessoas estão pagando mais, tanto as empresas quanto as pessoas físicas. O consumo está crescendo.”
Motores do crescimento e pontos positivos
A retomada do crescimento após a pandemia se acelerou no último ano, impulsionada por diversos fatores. Nicolás Barone, analista da Deloitte para a Região Andina, destacou que “se olharmos os números de crescimento, tudo parece estar indo bem, já que a Colômbia cresce muito perto de seu potencial, de 3%.”
O consumo privado registrou uma reação positiva, após um desempenho mais fraco nos anos anteriores, conforme Ocampo. O emprego também apresentou números favoráveis, com a taxa de desemprego atingindo 8,2%, o menor nível histórico. Barone considera este um “número mais do que bom para a Colômbia.”
Embora a informalidade ainda seja elevada, Ocampo ressaltou que “quando se observa o crescimento do emprego neste ano, vê-se que três quartos dessa expansão foram de empregos formais.” O setor agropecuário teve um bom desempenho, sendo um dos maiores empregadores do país, e a alta dos preços do café contribuiu para o cenário positivo.
Nos últimos meses, houve também uma valorização do peso colombiano frente ao dólar. A desvalorização da moeda americana, ligada a dúvidas sobre o aumento da dívida pública dos EUA e a redução das taxas de juros pelo Fed, elevou o valor relativo de várias moedas latino-americanas, incluindo o peso colombiano. Esse fenômeno, embora desafie o setor exportador, pode dinamizar setores importadores.
Os desafios e sinais de alerta para a economia colombiana
Apesar do cenário positivo, a Colômbia enfrenta desafios significativos. Marc Hoffstetter, da Universidade dos Andes, alertou que “quando se detalha um pouco o que está por trás desse crescimento da atividade, surgem sinais de alerta, porque um dos fatores que o impulsionam é um gasto público insustentável.”
Ele também apontou que “os números do investimento estrangeiro estão totalmente deprimidos há vários anos, o que levanta sérias dúvidas sobre se podemos manter esse ritmo de crescimento.” Hoffstetter e outros economistas sugerem que o aumento do consumo privado pode estar ligado ao elevado volume de emprego público, um quadro que pode ser afetado por um futuro ajuste das contas públicas.
As estimativas mais recentes indicam que as contas públicas da Colômbia devem fechar 2025 com um déficit em torno de 6,2% do PIB, um patamar que preocupa especialistas e autoridades. Em comparação, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado brasileiro estima que o Brasil encerre este ano com um déficit de 0,6% do PIB.
O governo de Gustavo Petro tentou corrigir o déficit com uma proposta de aumento de impostos, mas foi rejeitada pelo Congresso. Ocampo advertiu que “o déficit fiscal gerado pelo aumento do gasto público é o problema mais grave e, de fato, não foi enfrentado pelo governo.” O Banco da República, banco central da Colômbia, alertou que o elevado déficit pode contribuir para a alta dos preços e comprometer a redução da dívida pública.
Outros pontos negativos incluem a retração da atividade e a queda dos investimentos nos setores de mineração e petróleo, este último afetado pela queda dos preços internacionais e pelo aumento de impostos promovido por Petro. A inflação, cuja redução perdeu fôlego, também permanece como um desafio pendente.
O papel do governo Gustavo Petro e perspectivas futuras
As previsões de um possível colapso da economia da Colômbia com a chegada de Gustavo Petro ao poder, o primeiro presidente de esquerda da história recente do país, não se confirmaram. Nos últimos dois anos, a economia seguiu uma trajetória “moderadamente positiva”, segundo a consultoria Deloitte.
Petro lançou projetos de grande alcance, como a reforma trabalhista, aprovada em junho de 2025, que prevê melhorias salariais para trabalhadores formais. Críticos, contudo, afirmam que a medida pode prejudicar a economia ao elevar o custo do trabalho para os empregadores e não beneficia os trabalhadores informais.
Apesar disso, o ministro do Trabalho, Antonio Sanguino, defendeu que “trata-se de uma reforma que não só protege o trabalhador, como também contribui para a consolidação do aparato produtivo do país.” No entanto, Petro não conseguiu que o Congresso aprovasse várias de suas reformas tributárias, que visavam ampliar a arrecadação.
Economistas não atribuem o bom momento econômico unicamente ao presidente Petro. Barone afirmou que “as bases foram lançadas muito antes, e a economia colombiana já vinha apresentando bom desempenho antes da pandemia.” Ele observou que a chegada de Petro “gerou temor no empresariado e, nos últimos dois anos, o investimento diminuiu de forma considerável.”
O futuro da Colômbia será moldado pelas eleições de maio de 2026. O próximo presidente terá a complexa tarefa de reduzir o déficit fiscal e equilibrar as contas. Ocampo acredita que os ajustes podem ser “graduais”, sem a necessidade de “medidas drásticas” por enquanto, conforme Barone.
Se conseguir corrigir o déficit fiscal e manter a confiança dos mercados, a Colômbia poderá seguir sua trajetória de crescimento, que nos últimos anos permitiu reduzir a informalidade e a desigualdade. Ocampo concluiu que o país se beneficiou do fato de que “na Colômbia, as instituições funcionam. Há uma separação de Poderes e, nesse sentido, estamos nos tornando mais parecidos com o Peru.” Barone finalizou com uma “perspectiva para a Colômbia em 2026 é de otimismo cauteloso.”
