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Ataques Políticos aos Bancos Centrais: Como o Fed e 4 Outras Instituições Lidam com a Pressão e Suas Consequências Econômicas

A luta pela autonomia: por que a ingerência política em bancos centrais, como o Fed, pode desestabilizar economias globais

A independência dos bancos centrais, que se refere à sua capacidade de definir as taxas de juros sem interferência política direta, é amplamente considerada um pilar fundamental para a saúde econômica de qualquer nação. Essa autonomia permite que as instituições monetárias atuem de forma técnica, focando na estabilidade de preços e no combate à inflação.

No entanto, essa autonomia está constantemente sob ameaça. Tentativas de pressão política, como a recente ofensiva do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, acendem alertas sobre os riscos de subverter essa independência.

Décadas de estudos acadêmicos demonstram que, quando os bancos centrais se curvam às preferências políticas, os resultados econômicos tendem a ser negativos, com inflação mais alta e crescimento mais lento. Em contraste, instituições independentes têm um histórico muito mais bem-sucedido na manutenção da estabilidade de preços, como exemplificado em cinco casos notáveis de bancos centrais, incluindo o Fed e outros 4 bancos centrais, conforme informações divulgadas pelo g1.

Estados Unidos: A história de presidentes e o Fed

Apesar de nenhum dirigente do Fed ter sido formalmente demitido por não ceder às exigências presidenciais sobre juros, a história americana é rica em exemplos de tentativas de influência. Presidentes buscaram moldar as decisões do banco central de diversas maneiras, nem sempre sem sucesso.

Um caso notório envolveu o ex-presidente Richard Nixon, que pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter os custos de empréstimos baixos para favorecer sua reeleição em 1972. Essa ação é vista como o início de um período inflacionário severo.

A inflação só foi controlada pelas medidas impopulares de Paul Volcker, sucessor de Burns, que elevou os juros para dois dígitos, levando o país a uma recessão. Contudo, essa decisão restabeleceu a credibilidade do Fed como uma instituição independente e controlou a inflação por quase quatro décadas.

Outro episódio marcante ocorreu em 1965, quando Lyndon Johnson confrontou fisicamente William McChesney Martin Jr., então presidente do Fed, exigindo o fim da alta de juros. Martin resistiu, mas anos depois afrouxou a política monetária em troca de uma promessa de aumento de impostos, um acordo que ele próprio avaliou ter contribuído para a aceleração inflacionária.

Turquia: O “inimigo dos juros” e a inflação descontrolada

Na Turquia, o presidente Tayyip Erdogan, que se autodeclara um “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023. As demissões ocorreram por eles elevarem os custos de empréstimos ou resistirem aos cortes que Erdogan exigia, acreditando que reduziriam a inflação.

O resultado foi o oposto do esperado: a inflação disparou, a lira turca sofreu um colapso e a população enfrentou dificuldades crescentes para arcar com necessidades básicas. Em seu pico, a inflação atingiu 85% no final de 2022.

Em 2023, Erdogan mudou de estratégia, nomeando Hafize Gaye Erkan, que rapidamente elevou a taxa básica de juros de 8,5% para 45%. Seu sucessor, Fatih Karahan, continuou o aperto monetário antes de iniciar um alívio recente. A inflação recuou, mas ainda permanece em dois dígitos.

Argentina: Crises recorrentes e a ingerência estatal

A Argentina vivenciou uma trajetória de crises econômicas recorrentes após a nacionalização de seu banco central pelo ex-presidente Juan Perón em 1946. Desde então, o governo passou a imprimir dinheiro para financiar seus gastos, resultando em sucessivas ondas de inflação elevada e, por vezes, hiperinflação.

A interferência política continuou. Dos 14 presidentes do Banco Central argentino desde 2000, muitos foram afastados devido a divergências com o governo. Um exemplo é Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a usar bilhões de dólares em reservas cambiais para pagar dívidas, conforme o plano da então presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Venezuela e Zimbábue: A hiperinflação como resultado

Na Venezuela, embora a Constituição garanta certa independência ao banco central e proíba o financiamento direto de déficits governamentais, o líder Nicolás Maduro aprovou leis que colocaram a instituição sob controle total do Executivo.

Após a queda dos preços globais do petróleo em 2014, o banco central venezuelano começou a emitir moeda para cobrir déficits, desencadeando uma hiperinflação. Em 2018, essa inflação atingiu um pico estimado por alguns cálculos em mais de 1.000.000%.

De forma similar, o banco central do Zimbábue também emitiu moeda para financiar os gastos do governo do então presidente Robert Mugabe. Essas despesas incluíam, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), gastos eleitorais e a compra de equipamentos subsidiados para agricultores.

A hiperinflação no Zimbábue atingiu níveis extremos, levando o então presidente do banco central, Gideon Gono, a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares em janeiro de 2009, um símbolo da devastação econômica causada pela perda da autonomia monetária.

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