Preços nas bombas apertam o orçamento das famílias americanas, geram insatisfação e se tornam um fator decisivo para eleitores republicanos e democratas nas urnas
A disparada da gasolina nos EUA está apertando o orçamento de milhões de famílias e se transformando em um tema central na política do país. Com as eleições legislativas de novembro se aproximando, o custo do combustível se torna um termômetro direto da insatisfação popular com a economia.
O presidente Donald Trump, por sua vez, minimiza o impacto, classificando a alta como um “preço muito baixo a pagar” pelas ações militares no exterior. No entanto, a realidade nas bombas contrasta com essa avaliação, gerando preocupação em diversos setores do eleitorado.
A crescente pressão financeira devido à alta da gasolina tem potencial para influenciar diretamente o resultado das urnas, conforme informações divulgadas pelo g1, mostrando um cenário de descontentamento que atravessa diferentes grupos sociais.
O Impacto Direto nas Famílias Americanas
O aumento constante no preço da gasolina não é apenas um número nas notícias, mas uma realidade que pesa no cotidiano de muitos americanos. Para famílias, significa menos dinheiro para outras despesas essenciais, enquanto pequenos negócios enfrentam custos operacionais mais elevados.
A insatisfação se agrava especialmente em um período do ano em que, historicamente, os motoristas americanos esperam algum alívio nos preços. A percepção de que a situação piora em vez de melhorar adiciona frustração à rotina.
No dia 18 de setembro, o preço médio nacional da gasolina atingiu US$ 4,48 por galão, o que equivale a cerca de US$ 1,18 por litro (aproximadamente R$ 6,07). Esse valor representa um aumento significativo de US$ 0,17 em uma semana, US$ 0,40 em um mês e US$ 1,27 em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a associação automotiva AAA.
A Visão de Trump e a Realidade nas Bombas
Em um evento de campanha na Carolina do Norte, o presidente Trump tentou minimizar a situação. “Está um pouco mais alto. É um preço muito baixo a pagar pelo que fizemos”, afirmou ele, referindo-se à guerra com o Irã, que descreveu como necessária para impedir o país de obter armas nucleares.
Apesar da retórica de Trump, estrategistas dos dois principais partidos americanos concordam que poucos indicadores econômicos terão tanta influência sobre os eleitores este ano quanto o preço da gasolina. Isso porque o combustível torna visível uma pressão econômica que, de outra forma, poderia parecer abstrata.
“Os preços da gasolina importam porque são um dos poucos indicadores econômicos que os eleitores vivenciam e enxergam em tempo real”, disse o veterano estrategista republicano Chris Wilson. Ele complementa que “o preço está literalmente diante deles várias vezes por semana. Por isso, eu não minimizaria a frustração que estamos observando, sobretudo entre os eleitores das classes trabalhadora e média.”
Eleitores Divididos e o Peso da Economia
As entrevistas com eleitores revelam um cenário de frustração e decepção, com diferentes reações ao impacto do aumento da gasolina. Dan Lloyd, carpinteiro de 63 anos e eleitor de Trump em Mesa, Arizona, lamentou a decisão do presidente de entrar no conflito.
“Ele prejudicou a si mesmo ao entrar nisso”, afirmou Lloyd sobre Trump. Mesmo insatisfeito, ele pretende votar no Partido Republicano nas eleições legislativas, pois “sente que todo o sistema está à beira do colapso” e que o Partido Democrata “perdeu o rumo”.
Em Edinburg, Texas, Kristin Jimenez, de 52 anos, proprietária de uma pequena empresa, mostrou-se menos preocupada, argumentando que “já pagamos o mesmo preço sob presidentes republicanos e já pagamos esse preço sob presidentes democratas”. Ela também votará em um republicano, considerando o partido “o menor de dois males”.
Já Garth Johnson, de 35 anos, de Michigan, que votou em Trump, ainda não sabe o que fará em novembro. Sua empresa de limpeza pesada sente a pressão financeira, com o diesel custando US$ 6,79 por galão. “Gosto de muitas das coisas que ele fez”, disse Johnson, “mas sou um cara pequeno e preciso viver a minha vida.”
Outros eleitores demonstram maior disposição para punir os republicanos nas urnas. Na Virgínia, o engenheiro Alan Johnson, de 60 anos, criticou a falta de empatia de Trump. “Com os preços da gasolina como estão e continuando a subir, precisamos fazer alguma coisa. Tomara que os democratas consigam chegar ao poder e mudar o rumo das coisas”, afirmou ele, que já votou em candidatos democratas.
Em Raleigh, Carolina do Norte, a professora Brittney Bivins, de 45 anos, vê a alta dos combustíveis como um sinal de que Trump e o Partido Republicano não estão conectados com os problemas das pessoas comuns. “Ele pode pagar pela gasolina, mas a maioria de nós não pode. Então, parece que ele não está nem sequer conectado com o próprio povo”, afirmou Bivins, que se define como independente e apoiará democratas.
Em Lansing, Michigan, Rina Risper, após gastar US$ 50 para abastecer, acredita que as tarifas comerciais de Trump agravarão ainda mais o custo de vida. “Não estamos em Miami. Estamos em Lansing, Michigan. Isso realmente vai afetar a nossa população”, alertou.
Pesquisas Confirmam Insatisfação Generalizada
A percepção de que o orçamento está mais apertado é corroborada por pesquisas nacionais. Um levantamento da Fox News, divulgado na quarta-feira, mostrou que o número de eleitores que se sentem financeiramente para trás é mais de três vezes maior do que aqueles que afirmam estar avançando.
Em um cenário onde a economia e o custo de vida são as principais preocupações do eleitorado, os democratas têm uma vantagem de 15 pontos percentuais sobre os republicanos quando questionados sobre qual partido administraria melhor a inflação e os preços. A gasolina subindo nos EUA é um fator crucial nessa percepção.
A pesquisa revela que 61% dos eleitores consideram o preço da gasolina um problema importante para suas famílias, um aumento significativo em relação aos 48% registrados dois anos antes. Além disso, 63% dos eleitores afirmam que o governo piorou a economia, percentual que era de 52% em setembro de 2025.
Essa avaliação negativa inclui um quarto dos próprios republicanos. No sul rural do Texas, onde o Partido Republicano teve avanços nas últimas eleições, um entregador da Amazon expressou sua frustração. “Trump gosta de afirmar que somos a melhor economia do mundo”, disse ele, “mas, nas cidades mais rurais, você não vê nenhuma dessas vitórias, não vê nenhuma das melhoras de que ele está falando. Você só vê as dificuldades da vida cotidiana.”
