Desvendando o mistério da cafeína: entenda como a genética e o estilo de vida determinam se você ficará em alerta ou dormirá após uma xícara.
Você já se perguntou por que algumas pessoas conseguem tomar café antes de dormir e pegar no sono rapidamente, enquanto outras ficam acordadas por horas, olhando para o teto? A diferença na reação à cafeína é um fenômeno comum, que intriga muitos, e a resposta está em uma complexa interação de fatores.
Desde os hábitos diários de consumo até características genéticas que fogem ao nosso controle, diversos elementos contribuem para a forma como nosso corpo processa essa substância estimulante. A experiência da Emily, uma jovem que consome várias xícaras de café e energéticos sem sentir grandes efeitos à noite, ilustra bem essa disparidade.
Cientistas afirmam que essa variabilidade nos efeitos da cafeína depende diretamente de nossos genes, estilo de vida e da forma como nos habituamos à substância. As informações sobre esse tema foram recentemente divulgadas pelo G1.
O que é a cafeína e como ela age no corpo?
A cafeína é, sem dúvida, a substância psicoativa mais consumida globalmente. Mais de dois bilhões de xícaras de café são ingeridas diariamente, sem contar refrigerantes, bebidas energéticas, chocolates e suplementos esportivos que também contêm o composto. Ela é conhecida por nos deixar mais alertas, melhorar a concentração e afastar o cansaço.
No entanto, especialistas explicam que a cafeína não fornece energia extra ao corpo, mas sim mascara o cansaço. Ela atua bloqueando a ação da adenosina, uma substância química que se acumula no cérebro ao longo do dia e é responsável por nos induzir ao sono. Em excesso, seus efeitos negativos podem incluir dores de cabeça, nervosismo e aceleração dos batimentos cardíacos.
Genes e metabolismo: a chave para a diferença
Um dos fatores mais importantes que determinam como a cafeína afeta cada indivíduo é o tempo que ela permanece no organismo. Após ser absorvida pela corrente sanguínea e chegar rapidamente ao cérebro, a cafeína é decomposta, ou metabolizada, por uma enzima no fígado e, em seguida, eliminada pela urina.
Este processo de limpeza pode variar significativamente, levando de seis a 20 horas, dependendo da pessoa, conforme explica Marilyn Cornelis, professora associada de nutrição da Universidade Northwestern, em Chicago. Ela ressalta que é possível não sentir os efeitos da primeira xícara, mas a substância ainda está presente no corpo, e uma segunda dose pode causar ansiedade.
A velocidade com que o fígado processa a cafeína está ligada a um único gene, conhecido como CYP1A2. Curiosamente, a ancestralidade pode influenciar esse gene, com um estudo recente apontando que europeus e sul-americanos tendem, em média, a metabolizar a cafeína mais rapidamente.
Hábitos e estilo de vida: outros fatores em jogo
Seu DNA não é a única explicação para a sensibilidade à cafeína. O tabagismo, por exemplo, acelera o metabolismo da cafeína em até 65%, o que pode justificar por que fumantes consomem mais café e por que ex-fumantes sentem a bebida muito mais forte após parar de fumar. Antibióticos, pílulas anticoncepcionais e outros medicamentos podem ter o efeito oposto, prolongando a permanência da cafeína no corpo.
A gravidez também afeta o metabolismo da cafeína, já que as alterações hormonais suprimem a enzima hepática responsável pela sua quebra. Além disso, a tolerância à cafeína é um fator crucial. Quem bebe café regularmente torna-se menos sensível, pois o corpo se adapta. Uma pausa de algumas semanas pode reverter essas adaptações, fazendo com que o primeiro café após o retorno pareça muito mais potente.
Recomendações dos especialistas para um consumo consciente
Pesquisadores do sono geralmente aconselham evitar a cafeína por pelo menos seis horas antes de dormir. Lindsay Browning, psicóloga e especialista em sono, destaca que a cafeína não só dificulta o adormecer, mas também impacta a qualidade do sono. Ela sugere que, para quem dorme por volta das 22h, o ideal é evitar a cafeína depois das 14h.
O NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido) recomenda que mulheres grávidas limitem a ingestão de cafeína a 200 mg por dia, equivalente a cerca de duas xícaras de café coado, devido à associação do consumo excessivo com baixo peso ao nascer e outras complicações. Para outros adultos, a moderação é a chave, já que a sensibilidade varia amplamente.
Peter Rogers, professor emérito de nutrição da Universidade de Bristol, tranquiliza que a cafeína é relativamente segura. Ele observa que o corpo sinaliza quando o consumo é excessivo, levando a sintomas como agitação e mal-estar. As overdoses são raras e geralmente envolvem produtos com altas concentrações da substância. A boa notícia para os amantes de café é que o consumo moderado está associado a melhores resultados de saúde, incluindo menor risco de diversas doenças e uma vida potencialmente mais longa.
