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Dívida dos EUA Dispara para Mais de R$ 200 Trilhões: Por Que Trump Não Consegue Frear a Alta e Como Isso Afeta Você?

    A dívida dos Estados Unidos atingiu a impressionante marca de mais de R$ 200 trilhões, um desafio fiscal que se arrasta por décadas e que o presidente Donald Trump, mesmo com promessas de mudança, não conseguiu conter.

    Este cenário levanta sérias questões sobre a sustentabilidade das finanças americanas e as possíveis consequências para a população, que pode enfrentar medidas impopulares no futuro.

    Entender as razões por trás dessa escalada e o papel das políticas atuais é crucial para compreender o impacto global da situação, conforme informações divulgadas pelo G1.

    Contradições na Gestão Fiscal de Trump: Menos Impostos, Mais Gastos

    Donald Trump assumiu a Presidência em janeiro de 2025 com a promessa de reverter a trajetória da dívida dos EUA, mas a realidade tem sido outra. Seu governo ampliou os gastos e, ao mesmo tempo, reduziu impostos, um combo que naturalmente contribui para o aumento do endividamento.

    O custo para financiar essa dívida também disparou, com os rendimentos de alguns títulos do governo americano alcançando os níveis mais altos em quase duas décadas. Especialistas alertam que, sem mudanças, o governo pode ser forçado a tomar decisões politicamente delicadas, como aumentar impostos ou cortar benefícios sociais, incluindo a Previdência Social.

    Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, um grupo de estudos de Washington, é categórica ao afirmar que não há nenhum cenário em que se possa analisar o histórico do presidente Trump, tanto neste mandato quanto no anterior, e declará-lo um sucesso fiscal.

    Ela ressalta que, embora Trump não seja o único responsável pela situação atual, ele ocupa um papel central na definição da agenda governamental. “A maneira como chegamos a este ponto não foi culpa dele, mas o fato de estarmos nesta situação e de os parlamentares não terem feito nada para melhorá-la é culpa de todos eles, com o presidente claramente ocupando um papel central e definindo a agenda”, disse MacGuineas.

    A promessa de reduzir o tamanho do governo foi um pilar da campanha de Trump. No primeiro ano de seu segundo mandato, houve demissões de milhares de funcionários federais e a eliminação de programas considerados “desperdício”.

    O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, chegou a afirmar que Trump foi o “primeiro presidente a combater seriamente o desperdício, a fraude e os abusos generalizados em todo o governo federal”.

    No entanto, o déficit anual, a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, teve uma queda marginal em 2025, mas a dívida total dos EUA continuou sua trajetória de alta.

    Os cortes de impostos também exerceram uma pressão significativa sobre as contas públicas. Segundo o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, as reduções fiscais aprovadas no primeiro mandato de Trump adicionaram US$ 8,4 trilhões (R$ 43,3 trilhões) à dívida.

    Já no segundo mandato, uma nova lei tributária e de imigração acrescentou outros US$ 4,7 trilhões (R$ 24,2 trilhões), de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso. Essa é uma contradição conhecida em muitos países: reduzir impostos pode estimular a economia, mas se a arrecadação não for compensada por cortes de gastos, a dívida tende a crescer.

    A Dívida Não Começou com Trump: Uma Herança de Décadas

    A trajetória de crescimento da dívida americana é um problema que transcende administrações e partidos. Presidentes republicanos, como Ronald Reagan e George W. Bush, contribuíram para déficits maiores com cortes de impostos e guerras.

    Já os democratas, como Barack Obama e Joe Biden, implementaram grandes pacotes de estímulo em resposta à crise financeira de 2008 e à pandemia de Covid-19, respectivamente.

    Uma exceção foi o governo de Bill Clinton, que em seu segundo mandato registrou modestos superávits anuais. Isso ocorreu em um período de forte crescimento econômico e reformas nos programas de assistência social, resultado de um acordo com um Congresso controlado pelos republicanos.

    Dessa forma, é complexo atribuir a dívida dos EUA a um único presidente ou partido. Republicanos e democratas, em diferentes momentos, aumentaram os gastos ou reduziram as receitas do governo, contribuindo para o cenário atual.

    O Desafio Demográfico: Envelhecimento da População Pressiona Contas

    Além das decisões políticas, há uma pressão estrutural sobre as contas públicas que independe de quem ocupa a Casa Branca: o envelhecimento da população.

    A geração conhecida como baby boom, nascida após a Segunda Guerra Mundial, está se aposentando em massa. Isso significa um aumento nos gastos com benefícios sociais, enquanto a arrecadação de impostos sobre os salários não é suficiente para cobrir os pagamentos futuros.

    É um problema semelhante ao enfrentado por outros países com populações envelhecidas, onde mais pessoas passam a receber benefícios governamentais e proporcionalmente menos trabalhadores contribuem para financiá-los.

    Gerações anteriores de republicanos defendiam mudanças nesses programas. No entanto, Trump levou o partido a se afastar dessa posição, criando novos programas de proteção social, como contas de investimento apoiadas pelo governo para recém-nascidos.

    A Aposta de Trump: Crescer para Pagar a Conta da Dívida dos EUA

    A estratégia de Trump baseia-se em uma ideia antiga entre os conservadores americanos: impostos menores e menos intervenção governamental poderiam estimular investimentos e impulsionar o crescimento econômico.

    Com uma economia maior, a expectativa é que a arrecadação aumentaria, permitindo reduzir o peso da dívida dos EUA sem precisar de aumentos de impostos ou cortes drásticos nos programas sociais.

    Trump resumiu essa aposta em agosto, afirmando que o crescimento vai resolver isso com muita facilidade. No fim do mesmo mês, no Salão Oval, ele chegou a declarar que suas políticas poderiam elevar a produção econômica dos EUA em 20% ao ano.

    Contudo, esse ritmo de crescimento foi alcançado apenas uma vez desde 1947, no terceiro trimestre de 2020, quando a economia se recuperou após o fim das restrições da Covid-19, o que mostra o otimismo de Trump.

    O otimismo do presidente contrasta com o alerta de Kevin Warsh, chefe do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Segundo Warsh, o volume recorde de investimentos em inteligência artificial e grandes empresas de tecnologia indica uma disputa por capital, o que pode pressionar as taxas de juros para cima e, consequentemente, aumentar o custo de financiamento do governo.

    Promessas de Corte de Gastos Longe da Realidade

    Durante a campanha, Trump prometeu que os cortes de impostos seriam acompanhados por grandes reduções nos gastos públicos. Para isso, ele encarregou Elon Musk de comandar o agora extinto Departamento de Eficiência Governamental.

    Musk prometeu economizar US$ 2 trilhões (R$ 10,3 trilhões) no orçamento. A agência, no entanto, relatou uma economia de apenas US$ 110 bilhões (R$ 566,5 bilhões).

    Segundo o Escritório de Responsabilidade Governamental, esse cálculo se baseava em alegações exageradas ou que não puderam ser verificadas. A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário sobre as conclusões.

    Para Maya MacGuineas, o cerne do problema não está em reduzir impostos, mas em fazê-lo sem cortar gastos na mesma proporção. “Não é que não se possa reduzir impostos. É possível, mas é preciso associar isso a cortes nos gastos, e isso não tem acontecido”, explicou.

    Quem Paga a Conta da Dívida dos EUA?

    Por enquanto, a dívida de US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) pode parecer um problema distante para o cidadão comum. No entanto, seus efeitos já são sentidos no dia a dia americano.

    Juros mais altos encarecem financiamentos imobiliários, enquanto a inflação reduz o poder de compra quando os preços sobem mais rapidamente que os salários. A pressão sobre a dívida dos EUA também tende a ganhar peso político, especialmente antes das eleições legislativas de novembro, que definirão o controle do Congresso na segunda metade do mandato de Trump.

    O mecanismo é conhecido também no Brasil: quando o governo gasta mais do que arrecada por um período prolongado, a conta não desaparece. Em algum momento, é preciso aumentar receitas, cortar despesas ou conviver com uma dívida maior e mais cara.

    No caso americano, essa escolha se tornou especialmente difícil, pois envolve programas que atendem milhões de pessoas e decisões acumuladas por governos de diferentes partidos.

    Autoridades atuais e ex-integrantes do governo afirmam que a Casa Branca não recebe o devido reconhecimento pelos avanços econômicos e pelas medidas para reduzir os preços ao consumidor, que, segundo eles, poderão melhorar a situação fiscal.

    William Emmons, ex-vice-presidente de sistemas do Federal Reserve de St. Louis, tem uma visão diferente. Para ele, Trump herdou um cenário fiscal ruim, mas suas políticas o agravaram. “Ele herdou um cenário desfavorável. Não é surpresa para ninguém que o ambiente orçamentário fosse desafiador, tanto em 2016, quando ele assumiu o cargo, quanto hoje”, disse Emmons. Ele conclui que “ele piorou uma situação que já era ruim”.

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