Juros altos, crédito restrito e endividamento familiar pressionam redes tradicionais, impulsionando a ‘seleção empresarial’ e o avanço das plataformas digitais.
O cenário do varejo brasileiro vive um momento de dicotomia. Enquanto algumas das maiores redes tradicionais enfrentam sérias dificuldades financeiras, chegando a pedidos de recuperação judicial, outras empresas do setor continuam a prosperar e expandir sua atuação.
Este contraste levanta a questão: há uma crise sistêmica no varejo nacional ou estamos presenciando uma profunda transformação no modelo de negócios?
A resposta, conforme informações divulgadas pelo g1, aponta para uma complexa readequação, onde fatores econômicos e a evolução do comportamento do consumidor redesenham o panorama do comércio no país.
O Impacto dos Juros Altos e do Crédito Restrito no Varejo Tradicional
O atual cenário de juros elevados, crédito restrito, endividamento das famílias e consumo enfraquecido tem pressionado fortemente as redes de varejo tradicional. Os recentes pedidos de recuperação judicial da Casas Bahia e da Marabraz são exemplos claros dessa dificuldade.
Essas dificuldades atingem principalmente empresas que atendem consumidores de renda média e baixa. Para elas, pagar dívidas e gerar caixa se tornaram desafios monumentais, marcando novos capítulos na crise do varejo brasileiro.
Não se trata de casos isolados. O mesmo fenômeno impactou outros grandes nomes como o Grupo Toky, que inclui Tok&Stok e Mobly, além de Ricardo Eletro, Americanas, Casa & Video, Le Biscuit, MMartan, Artex, Saraiva e Livraria Cultura, que também passaram por reestruturações financeiras.
De acordo com Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, seria um erro falar em uma crise generalizada do varejo. Ela vê uma “seleção empresarial”, onde algumas companhias possuem estruturas mais sólidas para atravessar o momento.
A especialista explica que “o problema está concentrado principalmente nas companhias que combinaram endividamento elevado, margens de lucro mais estreitas, necessidade intensa de capital de giro e modelos operacionais custosos”.
A Ascensão Imparável das Plataformas Digitais e o Varejo Essencial
Em contraste com as dificuldades do varejo tradicional, há um avanço notável das grandes plataformas digitais. Empresas como Mercado Livre, Amazon e Shopee continuam a ganhar participação de mercado, demonstrando resiliência e crescimento.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, destaca a eficiência logística e tecnológica dessas plataformas como um diferencial. Elas oferecem maior variedade de produtos e, muitas vezes, permitem um menor valor médio gasto em cada compra, atraindo mais consumidores.
Nossig acrescenta que esse movimento também reflete a capacidade dessas plataformas, e de segmentos ligados a bens básicos, de operar com margens saudáveis e em expansão, pois o consumidor continua comprando itens essenciais.
Reestruturação Profunda e o Futuro Integrado do Comércio
Parte da readequação do varejo já está em andamento. Como o g1 já mostrou, várias grandes varejistas começaram a rever seus modelos de crescimento, fechando lojas ou desacelerando a expansão física para reduzir custos operacionais.
Ainda assim, o mercado não espera uma recuperação rápida dos resultados ou das ações das grandes varejistas tradicionais, principalmente enquanto os juros permanecerem elevados. Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, descreve o setor como “bastante instável”.
Olívia Flôres de Brás alerta que a queda dos juros não funcionará como um “botão de reset”. O consumidor precisa recuperar renda disponível, a inadimplência ceder, e o crédito chegar à ponta em condições melhores, o que leva tempo.
Existe uma defasagem: a redução da taxa Selic não se reflete instantaneamente no carnê, no financiamento ou no capital de giro. Para companhias já fragilizadas, alguns meses podem representar uma eternidade financeira.
Esse cenário pode fazer com que empresas mais fragilizadas se tornem alvos de fusões, aquisições ou parcerias estratégicas. Ao mesmo tempo, o e-commerce tende a ganhar ainda mais espaço e consolidar sua participação no mercado.
Para Rebecca Nossig, “o futuro do médio prazo do setor pertencerá às operações verdadeiramente integradas, em que a loja física deixa de ser apenas uma grande vitrine e passa a funcionar de forma inteligente como um centro de distribuição rápido e ponto de apoio para o comércio eletrônico”.
Como a Crise do Varejo Afeta os Investimentos e o Perfil dos Vencedores
A crise do varejo também tem um impacto significativo para quem investiu nas empresas do setor. Como mostrou o g1, as ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) protagonizaram uma das maiores quedas da bolsa brasileira nos últimos anos, saindo de mais de R$ 400 em 2020 para centavos.
Diante desse panorama, os especialistas esperam uma redução da presença do varejo nas carteiras de investimentos, já que os sinais de desaceleração da economia tendem a aumentar a incerteza sobre o setor.
Contudo, Olívia Flôres de Brás aponta que “empresas com caixa robusto, baixa alavancagem, geração consistente de fluxo de caixa, marcas fortes e capacidade de ganhar participação podem até sair fortalecidas desse processo”.
Rebecca Nossig, da Nomad, afirma que o mercado tende a ser mais rigoroso na seleção das empresas em que investir. “Essa abordagem permite que empresas com fundamentos mais sólidos continuem ocupando posições relevantes nas carteiras”, explica, destacando o varejo alimentar e as redes de farmácias.
Os próximos vencedores, segundo Brás, serão definidos menos pela velocidade de abertura de lojas e mais pela capacidade de gerar caixa, girar estoques, controlar o endividamento, integrar canais de venda e fidelizar consumidores sem depender continuamente de incentivos para sustentar essa relação.
