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Guerra Tarifária: A Entrada da China na Ação do Brasil na OMC Fortalece o País Contra os EUA e Reconfigura o Cenário Comercial Global?

Analistas apontam que o apoio chinês na disputa do Brasil contra as tarifas dos EUA na OMC é um reforço importante, mas com efeitos práticos limitados e interesses próprios.

O Brasil recebeu um significativo reforço em sua batalha contra o aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos. A China, uma das principais potências comerciais do mundo, solicitou participação nas consultas da Organização Mundial do Comércio, a OMC, sobre a ação brasileira contra as medidas tarifárias americanas.

Este movimento estratégico da China é visto por especialistas como um apoio crucial para o Brasil. Ele adiciona um peso geopolítico considerável à queixa brasileira, que questiona tarifas adicionais de 25% e 12,5% sobre produtos nacionais.

Apesar do impulso diplomático, analistas alertam que o sistema multilateral de solução de controvérsias da OMC está fragilizado. Eles preveem que, mesmo com uma decisão favorável ao Brasil, os efeitos práticos podem ser limitados, conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.

Um Aliado Estratégico na OMC

Para o Brasil, a entrada da China na ação do Brasil na OMC representa um ganho substancial. Ana Garcia, professora de Relações Internacionais e coordenadora do Centro de Estudos Avançados da UFRRJ, enfatiza que o país conquista não apenas um aliado, mas “o” aliado.

“A China é hoje a principal potência mundial em termos de comércio, investimentos e também em termos geopolíticos”, afirma Garcia. Ela destaca que a China possui muito mais espaço de barganha e poder de contestação contra os EUA do que o Brasil, com meios de retaliação mais robustos.

Pablo Ibañez, integrante do Brics Policy Center e professor da UFRRJ, complementa que o pedido chinês pode ser interpretado como um apoio direto ao argumento brasileiro. “Isso reforça o peso político do caso brasileiro e fortalece o argumento central contra a Seção 301 dos EUA, que tem vários elementos considerados muito frágeis do ponto de vista da defesa da tarifa em si”, explica.

O Brasil apresentou um pedido de consultas aos EUA na OMC no final do mês passado. O Ministério das Relações Exteriores classificou as tarifas americanas como “injustificadas e incompatíveis” com as obrigações internacionais. As medidas questionadas incluem uma tarifa adicional de 25% e outra de 12,5% sobre produtos brasileiros.

Interesses Chineses e a Queda de Braço Global

A participação da China na ação não é motivada por altruísmo, conforme analisa Ibañez. “A China, ao fazer esse movimento, não está simplesmente sendo ‘boazinha’ e defendendo um país prejudicado. Ela também possui interesses próprios”, aponta o professor.

Um dos principais interesses chineses é combater os Estados Unidos em foros internacionais. A disputa se insere em uma “queda de braço entre gigantes”, onde um país (EUA) tem reduzido a importância dos mecanismos multilaterais, e outro (China) busca se apresentar como porta-voz do multilateralismo.

Ibañez ressalta que esse apoio não implica um alinhamento direto do Brasil à China. O Brasil mantém relações com ambos os centros de poder, buscando um equilíbrio diplomático e comercial. A relação comercial com a China é “extremamente forte”, construída ao longo de décadas.

No entanto, o professor alerta para os efeitos problemáticos de atritos com os EUA. Ele lembra que os Estados Unidos têm demonstrado uma doutrina clara de ampliar sua influência na América Latina, como evidenciado pelo governo Donald Trump ao exaltar a Doutrina Monroe em um vídeo recente do Departamento de Estado.

OMC Fragilizada e Limites Práticos

Ambos os analistas concordam que a ação brasileira na OMC ocorre em um momento de fragilidade da organização. “Considero fundamental destacar que os mecanismos multilaterais de resolução de contenciosos estão muito enfraquecidos”, afirma Ibañez.

Ele observa que o governo Trump tem atuado como um “xerife internacional” sem seguir plenamente as regras do sistema, o que limita a eficácia de decisões da OMC. “Mesmo que o Brasil obtenha uma decisão favorável na OMC, dificilmente isso resultará, por si só, em uma reviravolta prática”, prevê Ibañez.

Ana Garcia também destaca a fragilidade institucional da OMC, que, como outras organizações multilaterais, perdeu força à medida que grandes Estados passaram a privilegiar ações bilaterais. “Esse é claramente o caso dos EUA”, pontua Garcia, lembrando que a OMC já enfrentava dificuldades antes das tarifas de Trump.

A aposta do governo brasileiro, no entanto, continua sendo no multilateralismo. Ao acionar os EUA no sistema de arbitragem da OMC, o Brasil sinaliza sua preferência por mecanismos multilaterais, uma marca histórica de sua política externa.

Comércio Bilateral e Redirecionamento de Mercados

Apesar da aproximação na OMC, os analistas não esperam um aumento significativo no comércio bilateral entre Brasil e China. Ana Garcia explica que já existe um volume muito elevado de comércio entre os dois países, com a China sendo o principal parceiro comercial do Brasil e um fornecedor fundamental para sua segurança alimentar.

“Os produtos afetados pelas tarifas americanas não são, em sua maioria, produtos cuja demanda seria naturalmente absorvida pelo mercado chinês”, esclarece Garcia. Ela sugere que esses produtos tendem a ser redirecionados gradualmente para outros mercados, como Europa, outros países asiáticos ou por meio de uma maior integração na América Latina.

É nesses outros mercados que existe mais espaço para manufaturados brasileiros, de acordo com a especialista. A ação na OMC, portanto, tem um componente político e diplomático mais forte do que um potencial impacto direto no fluxo comercial entre Brasil e China, na busca por combater a guerra tarifária.

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