A instabilidade das tarifas dos EUA empurrou o Brasil para uma diversificação recorde de parceiros comerciais, mas a elevada concentração de exportações para a China levanta sérias preocupações estratégicas.
As recentes políticas de tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos, especialmente sob a gestão de Donald Trump, têm redefinido o cenário do comércio exterior do Brasil. A instabilidade gerada por essa postura americana fez com que a participação das exportações brasileiras para os EUA atingisse o menor patamar em dois séculos, forçando uma reavaliação estratégica.
Em resposta a esse cenário desafiador, o Brasil intensificou a busca por novos parceiros comerciais, conseguindo uma notável diversificação. Contudo, essa mudança trouxe consigo uma preocupação crescente: a ampliação da dependência da China, que hoje absorve quase um terço das exportações brasileiras.
Essa complexa dinâmica, que envolve tanto a perda de um parceiro histórico quanto a ascensão de um novo gigante, levanta questões sobre a sustentabilidade e os riscos futuros para a economia nacional, conforme informações divulgadas pelo G1.
O impacto do vai e vem das tarifas dos EUA no comércio exterior do Brasil
A imposição de tarifas de importação pelos Estados Unidos teve um impacto significativo em diversos setores da economia brasileira. Empresas que historicamente estruturaram suas cadeias produtivas pensando no mercado americano, como os setores de metais, madeira e diversas manufaturas, foram particularmente afetadas.
Welber Barral, especialista em comércio internacional, exemplifica essa situação. Ele destaca que, no setor de café solúvel, 50% da exportação brasileira tinha os Estados Unidos como destino. O mesmo ocorreu com o aço, alumínio e cobre, onde a participação americana era muito grande.
Para o setor de calçados, mesmo que os EUA não fossem o maior destino para o segmento como um todo, muitas empresas dependiam fortemente desse mercado. A dificuldade em diversificar rapidamente esses destinos gerou grandes desafios para os produtores brasileiros.
As barreiras comerciais não prejudicaram apenas os exportadores. Grandes empresas americanas, como Coca-Cola e Tesla, enfrentaram dificuldades para substituir produtos como café, suco de laranja e metais raros que costumavam comprar do Brasil com tarifas mais baixas. No fim, o consumidor americano também arca com esses custos mais elevados.
Acelerando a diversificação de parceiros comerciais e a busca por novos mercados
A confiança abalada nas relações comerciais com os Estados Unidos acelerou um movimento de afastamento que, segundo Carlos Frederico Coelho, professor de comércio internacional da PUC Rio, já vinha ocorrendo nos últimos 20 anos. Ele afirma que o “tarifaço não inaugurou esse movimento, mas ele certamente o acelera”.
Os anúncios intempestivos de tarifas por parte dos EUA impulsionaram o Brasil e o Mercosul a buscar novas e intensificar parcerias existentes. Desde 2025, o país avançou significativamente em cinco frentes: acordos comerciais foram fechados com a União Europeia, o EFTA (Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia) e Singapura.
Além disso, foram abertas negociações com o Japão e reativadas tratativas diplomáticas para acordos com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, Vietnã e Indonésia. Esse esforço resultou em um aumento notável: a cobertura das exportações brasileiras por acordos comerciais subiu de 12% para 31% até 2024.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) confirmou essa diversificação em 2025, com recordes de exportações para 42 países. A Alemanha, por exemplo, consolidou-se como a quarta maior parceira e tem planos de dobrar as trocas com o Brasil nos próximos cinco anos.
Welber Barral, ex-secretário brasileiro de Comércio Exterior, ressalta que um efeito indireto e provavelmente não desejado pelas políticas americanas foi o aumento desses acordos por parte do Brasil e de outros países. Essa estratégia visa justamente reduzir a dependência do mercado americano, um movimento que também é observado em nações como Indonésia e até na União Europeia, que avançou em acordo com a Índia.
O risco da crescente dependência da China no comércio exterior do Brasil
Apesar da bem-sucedida diversificação de parceiros comerciais, um novo desafio emerge: a crescente dependência da China. A queda de 6,6% nas importações brasileiras pelos Estados Unidos foi compensada por um aumento equivalente para a China e a Argentina, o primeiro e o terceiro principais parceiros comerciais do Brasil, respectivamente.
Atualmente, Pequim absorve quase um terço das exportações brasileiras, o que gera grande preocupação entre os especialistas. Carlos Frederico Coelho adverte que, ao analisar a pauta de exportação para a China, quase 90% está concentrado em apenas quatro produtos: carnes, minério, soja e petróleo.
“Isso deveria nos assustar, porque se a China desacelerar, o Brasil vai sofrer imensamente”, afirma Coelho. Ele enfatiza que não é desejável que o Brasil, por ser um país tão distante, tenha 30% de suas exportações destinadas a um único país, dada a concentração de poucos produtos.
Welber Barral concorda com os riscos dessa nova dependência. No entanto, ele pondera que as trocas comerciais com os países asiáticos em geral também estão em alta, citando Índia, Indonésia e Vietnã. Barral acredita que “outros países asiáticos também podem se tornar grandes importadores no futuro, principalmente de commodities agrícolas”, o que poderia mitigar parte do risco concentrado na China.