Uma expedição da SOS Mata Atlântica detectou 25 agrotóxicos no Rio Tietê, com substâncias perigosas em todos os trechos, da nascente à foz, gerando um alerta para a saúde pública e o meio ambiente.
Para iniciar o conteúdo, a revelação é contundente: o Rio Tietê, símbolo de São Paulo, enfrenta uma grave crise de contaminação. Um estudo recente trouxe à tona dados preocupantes sobre a presença de substâncias tóxicas em suas águas.
Essa descoberta levanta questionamentos urgentes sobre a segurança hídrica e os impactos na vida aquática e humana, especialmente porque a água do rio é utilizada em sistemas de abastecimento público.
Conforme informações divulgadas pelo G1, com base em pesquisa da Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com universidades e o Instituto Itaúsa, nada menos que 25 tipos de agrotóxicos foram encontrados no rio.
A Contaminação Abrangente do Tietê
As análises, conduzidas pelo Laboratório de Ecotoxicologia do CENA/USP, identificaram herbicidas, fungicidas e inseticidas. Essas substâncias são amplamente empregadas em culturas predominantes na bacia do Tietê, como cana-de-açúcar, soja e citros.
Após a aplicação nas lavouras, apenas uma parte dos agrotóxicos atinge as pragas. O restante pode ser facilmente carregado pela chuva ou infiltrar-se no solo, chegando a rios, córregos e outras fontes de água, incluindo o Tietê.
A pesquisa revelou que os herbicidas tebutiurom e clomazona foram detectados em 100% dos 14 pontos de coleta ao longo do rio. Outros como diurom (92,86%), ciproconazol (85,71%) e atrazina (85,71%) também apresentaram alta frequência.
Mesmo na região da nascente, em Salesópolis, considerada mais preservada, a presença de herbicidas e inseticidas foi confirmada. As maiores concentrações dessas substâncias foram registradas entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita, área com intensa atividade agrícola.
Atrazina: O Herbicida Proibido e Potencialmente Cancerígeno
Um dos achados mais alarmantes é a atrazina, um herbicida utilizado no Brasil para controlar plantas daninhas. Contudo, essa substância é proibida na União Europeia desde 2004 devido aos riscos que oferece ao meio ambiente e à saúde humana.
Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a atrazina como uma substância com potencial para causar câncer, elevando ainda mais a preocupação com sua detecção no Rio Tietê.
Em alguns trechos específicos do rio, a concentração de atrazina superou o limite estabelecido pela Resolução Conama nº 357/2005, que define os padrões de qualidade da água em rios brasileiros, indicando um grave descumprimento.
Impactos Ambientais e Riscos para a Saúde Humana
O estudo alerta que os fungicidas e inseticidas encontrados no rio podem causar sérios danos a peixes e outros organismos aquáticos. Entre os impactos, estão alterações no funcionamento do organismo, mudanças de comportamento e desequilíbrios na cadeia alimentar.
A situação é ainda mais crítica quando diferentes agrotóxicos estão presentes simultaneamente. A combinação dessas substâncias, conforme o relatório, pode potencializar seus efeitos nocivos, criando um cenário de risco complexo para a biodiversidade aquática.
O relatório da SOS Mata Atlântica expressa preocupação adicional, pois a água de trechos como o Médio e Baixo Tietê é utilizada para abastecimento público. Os sistemas convencionais de tratamento de água nem sempre são eficazes na remoção de todos esses contaminantes orgânicos, incluindo os agrotóxicos.
A Expedição Revela Outros Contaminantes
A expedição, que percorreu mais de 1.100 quilômetros do Rio Tietê entre os dias 9 e 14 de junho de 2025, da nascente em Salesópolis até a foz no rio Paraná, em Itapura, utilizou barcos para coletar amostras no ponto médio entre as margens.
Além dos agrotóxicos, as análises revelaram a presença de microplásticos em todos os pontos de coleta. Foram identificadas também 16 substâncias, que incluem medicamentos e até drogas ilícitas, como a cocaína, indicando uma poluição multifacetada no rio.
