Ofensiva do governo norte-americano coloca empresas brasileiras no centro de apurações por práticas anticompetitivas, com foco na inflação dos alimentos e segurança nacional.
Uma **megainvestigação** lançada pelo governo dos Estados Unidos tem como alvo a indústria da carne no país, com destaque para a **JBS Foods USA**, controlada por capital brasileiro, e a National Food, da MBRF. As apurações focam em supostas **práticas anticompetitivas** e “influência estrangeira” na cadeia de abastecimento.
O anúncio da investigação, que segue uma postagem presidencial de novembro de 2025, coincide com a visita do presidente Lula a Washington para um encontro com Donald Trump. Apesar de não ter sido tema oficial da agenda, o assunto reverberou nos bastidores da diplomacia.
A iniciativa de Washington visa responder à pressão doméstica sobre o preço dos alimentos e a inflação, apontando para um enredo de política antitruste e nacionalismo econômico, conforme informações divulgadas pela BBC.
O Alvo da Megainvestigação na Indústria da Carne
No centro das apurações estão as chamadas Quatro Grandes (Big Four) do setor, responsáveis por cerca de 85% da atividade nos Estados Unidos. Duas dessas gigantes são brasileiras ou controladas por capital do Brasil.
A **JBS Foods USA**, maior processadora de carne do mundo, lidera o setor em solo americano por meio de sua marca. A National Food, por sua vez, é controlada pela brasileira MBRF, que surgiu da fusão entre BRF e Marfrig. As outras duas são as norte-americanas Cargill e Tyson Foods.
O empresário **Joesley Batista**, do Conselho de Administração da J&F, holding que abriga a **JBS Foods USA**, teria atuado como um dos articuladores do encontro entre Lula e Trump, segundo a agência Reuters. A Pilgrim’s Pride, subsidiária da **JBS Foods USA**, foi uma das maiores doadoras da campanha de Trump em 2024, com um aporte de US$ 5 milhões, o equivalente a R$ 24,6 milhões.
Batista esteve em Washington no mesmo dia da reunião presidencial, de acordo com informações do jornal “O Globo”. A investigação havia sido antecipada por **Trump** em novembro de 2025, em sua rede social Truth Social, sem citar nomes das companhias.
A Voz do Governo Trump e a Influência Estrangeira
Representantes do governo norte-americano fizeram declarações contundentes sobre o peso brasileiro no setor, citando nominalmente as Quatro Grandes. Esse tom contrastou com o clima ameno e otimista do encontro entre **Trump** e Lula.
Peter Navarro, conselheiro especial para Comércio e Manufatura do governo dos Estados Unidos, afirmou que “metade das Quatro [Grandes] são brasileiras”. Ele relembrou que, em ocasiões anteriores, o “lobby da carne, representado por brasileiros, silenciosamente ameaçou a Casa Branca” de desviar a carne vendida nos supermercados americanos para a China caso tarifas fossem impostas.
Navarro concluiu que a preocupação não é apenas com “abuso de preços e cartel”, mas também com a “influência de estrangeiros em nossa cadeia de abastecimento”. Economista com formação em Harvard, ele é considerado o principal inspirador das políticas protecionistas do presidente norte-americano.
Para Priscila Caneparo, doutora em Direito das Relações Econômicas Internacionais pela PUC-SP e professora da Unicuritiba, a **investigação da JBS** e da National Beef indica que a relação Brasil-Estados Unidos “mergulhou em um enredo pautado em [política] antitruste, inflação alimentar e nacionalismo econômico”.
Contexto Político: Inflação e Eleições de Meio de Mandato
As apurações anunciadas por Washington não são meramente técnicas, conforme sustenta Priscila Caneparo. O governo dos Estados Unidos tenta responder a uma **pressão doméstica**, que é o preço dos alimentos, que gera inflação e foi uma bandeira de campanha de **Trump**.
O governo norte-americano também anunciou que vai recompensar financeiramente quem fornecer informações sobre práticas ilícitas cometidas pela indústria da carne. Isso demonstra uma “politização e uma tentativa de securitização muito tênue dessa discussão, tentando trazê-la para o campo da segurança nacional”, define Natali Hoff, doutora em Ciência Política pela UFPR e professora da PUCPR.
Às voltas com queda nos índices de aprovação e em meio a uma decisiva campanha para as eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro de 2026, **Trump** tenta enfrentar uma das questões mais candentes para o eleitorado: o custo de vida. O preço da carne é um componente importante da inflação no país.
Para Natali, a investigação sobre empresas estrangeiras permite ao governo **Trump** “terceirizar” a culpa pelo aumento do preço da carne. Ele estaria “muito enfraquecido, principalmente depois da Guerra do Irã, e com isso, consegue tentar emplacar algum tipo de discurso diante do eleitorado, sejam consumidores ou pecuaristas”.
Reações e Implicações da Megainvestigação
Em nota, a MBRF afirmou que atua em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência e mantém políticas robustas de governança e compliance. A empresa destacou que, nos Estados Unidos, as operações da National Beef são baseadas em sociedade de longa data com cerca de 700 produtores locais, que juntos detêm aproximadamente 18% do capital.
A BBC News Brasil tentou contato com a **JBS** e a J&F para tratar da investigação anunciada pelos Estados Unidos, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil e os Departamentos de Agricultura e Justiça dos Estados Unidos também foram questionados, sem retorno até a finalização do texto.
A situação, segundo especialistas, gera uma “contaminação da agenda bilateral” por meio de acusações de concentração de mercado e segurança alimentar, ao mesmo tempo em que fortalece o discurso protecionista do governo **Trump**.
