A assimetria econômica do pacto entre União Europeia e Mercosul coloca o Brasil como principal ator, fornecedor vital e dependente de tecnologia europeia.
O Acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, finalizado após mais de 25 anos de negociações, promete aproximar cadeias produtivas estratégicas de dois continentes. Contudo, essa aproximação revela uma relação econômica marcadamente assimétrica, onde o Brasil ocupa uma posição central e de grande destaque dentro do tratado.
Este pacto histórico prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, que abrangem mais de 90% do comércio total entre os blocos. Além disso, estabelece regras comuns para áreas como bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios, moldando um novo cenário comercial.
A relevância do Brasil neste contexto é inegável, concentrando a maior parte dos fluxos comerciais. Conforme informações divulgadas pelo g1, o país sul-americano é o principal responsável por grande parte das trocas, evidenciando sua importância estratégica para ambos os lados.
O Brasil como polo exportador e a dependência europeia
Para a União Europeia, o Brasil desempenha um papel crucial como fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) de 2025 revelam que 73% dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu tiveram como destino cinco países.
A Holanda, com US$ 11,7 bilhões (23,6%), se destaca como hub logístico da UE, com o porto de Roterdã sendo a principal porta de entrada. Espanha (US$ 8,8 bilhões, 17,7%), Alemanha (US$ 6,5 bilhões, 13,1%), Itália (US$ 5,3 bilhões, 10,8%) e Bélgica (US$ 4 bilhões, 8,1%) completam os principais destinos.
A pauta exportadora brasileira para a UE é concentrada em produtos primários e insumos industriais, essenciais para as cadeias produtivas e o abastecimento energético e alimentar do continente. Entre os principais itens estão óleo bruto de petróleo (US$ 9,8 bilhões), café não torrado (US$ 7,1 bilhões), farelo de soja para alimentação animal (US$ 4 bilhões), minérios de cobre (US$ 3 bilhões), celulose (US$ 2,1 bilhões) e minério de ferro (US$ 1,1 bilhão).
Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que o tratado é visto como parte da estratégia europeia para fortalecer sua economia. Há um esforço visível de países como Espanha e Alemanha para viabilizar o acordo, buscando a diversificação de mercados diante das tensões geopolíticas envolvendo China e Rússia.
A balança de importação e a necessidade tecnológica do Brasil
No outro lado da moeda, o Brasil apresenta uma dependência de bens de maior valor tecnológico vindos da Europa. Dados do MDIC mostram que as compras brasileiras junto ao bloco europeu em 2025 somaram US$ 50,3 bilhões, com a Alemanha (US$ 14,4 bilhões, 28,6%), França (US$ 7,2 bilhões, 14,3%) e Itália (US$ 7,1 bilhões, 14%) respondendo por cerca de 57% do total.
A composição das importações brasileiras evidencia essa dependência em produtos de alta tecnologia, cruciais para o funcionamento de serviços públicos e a atividade industrial. Destacam-se medicamentos e produtos farmacêuticos (US$ 8,1 bilhões), autopeças (US$ 2,5 bilhões), motores e máquinas não elétricas (US$ 2,4 bilhões), aeronaves (US$ 1,2 bilhão), equipamentos de medição, verificação e controle (US$ 1,4 bilhão) e compostos químicos (US$ 1,41 bilhão).
José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, explica que a retirada das tarifas tende a reduzir os custos de produção no Brasil. Ele exemplifica que um insumo que hoje paga 35% ou 40% sobre o valor, chegando a R$ 140 mil, poderia custar cerca de R$ 100 mil com a eliminação dessas tarifas, barateando a importação de insumos da UE.
O papel dos demais países do Mercosul na negociação
Embora negociado em bloco, o Acordo UE-Mercosul reflete uma estrutura assimétrica onde o Brasil concentra a maior parte do peso econômico. Argentina, Uruguai e Paraguai participam em escala menor, o que se reflete tanto nos fluxos comerciais quanto na capacidade de influência política.
A Argentina, apesar de ser o segundo principal parceiro sul-americano, tem exportações para a UE (US$ 8,5 bilhões em 2024) quase cinco vezes menores que as brasileiras. Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, aponta que o distanciamento político entre os presidentes Lula e Milei contribuiu para o esvaziamento do papel argentino nas negociações, com o Brasil assumindo o protagonismo diplomático.
O Uruguai, em contraste, mostra um crescimento gradual e maior previsibilidade institucional, com exportações da UE para o país avançando de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em pouco mais de duas décadas. No entanto, o país enfrenta limitações técnicas para atender às exigências ambientais europeias, segundo Bressan, devido a um arcabouço regulatório mais frágil em comparação ao Brasil.
No caso paraguaio, as restrições técnicas se somam a um peso econômico reduzido na relação com o bloco europeu. Em 2024, as exportações da UE para o Paraguai somaram US$ 994 milhões, enquanto as importações ficaram em US$ 416 milhões, com estagnação desde 2018. Apesar disso, o Paraguai ganhou importância ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026, conduzindo a etapa final de ratificação do acordo.
Desafios e o futuro do Acordo UE-Mercosul
A assimetria no Acordo UE-Mercosul é um fator determinante para sua dinâmica e futuro. Enquanto o Brasil se posiciona como um fornecedor indispensável de matérias-primas e energia, sua dependência de tecnologia europeia sublinha a complexidade dessa parceria.
Os desafios para os demais membros do Mercosul incluem a necessidade de fortalecer suas estruturas regulatórias e comerciais para se alinhar às expectativas europeias. A coordenação política entre os países do bloco sul-americano também se mostra fundamental para maximizar os benefícios do acordo e garantir uma participação mais equitativa no cenário global.
A ratificação final do acordo, com o Paraguai na presidência temporária do Mercosul, será um passo crucial para consolidar essa parceria. O Acordo UE-Mercosul representa uma oportunidade significativa para o desenvolvimento econômico, mas exige uma compreensão aprofundada das interdependências e assimetrias que o caracterizam.
