Com aval da União, Correios recebem R$ 10 bilhões em empréstimo para impulsionar recuperação e garantir pagamentos, enquanto buscam mais R$ 8 bilhões.
A estatal brasileira Correios acaba de receber um significativo aporte financeiro de R$ 10 bilhões em empréstimos. Este valor, liberado nesta terça-feira, é crucial para a empresa que busca reverter uma sequência de prejuízos e estabilizar suas finanças.
A operação bilionária conta com a garantia da União, um movimento que assegura a confiança dos bancos credores e demonstra o compromisso do governo federal com a recuperação da companhia.
Este plano visa não apenas sanar dívidas imediatas, como o pagamento de salários, mas também implementar profundas mudanças operacionais e estratégicas, conforme informação divulgada pelo g1.
Detalhes do Empréstimo e o Papel da União
O contrato de empréstimo, cuja assinatura foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) no último sábado, dia 27, envolve um consórcio de grandes instituições financeiras. Participam do acordo o Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A validade do acordo se estende até 2040, com a União atuando como avalista, o que foi autorizado pelo Tesouro Nacional em 18 de dezembro. Isso significa que o governo federal assume a responsabilidade de honrar as parcelas caso os Correios não consigam realizar os pagamentos.
Conforme detalhado pelo presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Bradesco irão aportar R$ 3 bilhões cada. Itaú e Santander contribuirão com R$ 1,5 bilhão cada um, totalizando os R$ 10 bilhões já repassados.
O contrato prevê um período de carência de 3 anos, com os pagamentos mensais iniciando apenas em dezembro de 2029. A taxa de juros foi estabelecida em 115% do CDI, um percentual abaixo do limite de 120% do CDI definido pelo Tesouro Nacional.
Os Correios ainda esperam receber os R$ 2 bilhões restantes do empréstimo em janeiro, completando um total de R$ 12 bilhões. Com a primeira parcela de R$ 10 bilhões, a empresa já realizou o pagamento do salário de dezembro de seus funcionários, estimado em R$ 300 milhões.
Emmanoel Rondon também não descartou a possibilidade de a empresa buscar mais R$ 8 bilhões em empréstimos. A captação desses recursos adicionais, que pode vir do Tesouro Nacional ou de novos empréstimos, está em análise para definir a melhor forma.
A ideia inicial da estatal era obter um empréstimo de R$ 20 bilhões, mas essa proposta não foi autorizada pelo Tesouro Nacional devido à alta taxa de juros inicialmente apresentada.
"O plano de reestruturação foi concebido com uma necessidade declarada de captação de recursos da ordem de R$ 20 bilhões. Então, a gente fez uma primeira rodada com bancos, recebemos oferta dos R$ 20 bilhões, mas a uma taxa que a gente entendeu que estava mais elevada", afirmou Rondon.
O Ambiocioso Plano de Reestruturação dos Correios
O plano de reestruturação dos Correios é abrangente e visa reverter 12 trimestres consecutivos de prejuízos. A meta é recuperar as contas da empresa até 2026, projetando lucros a partir de 2027.
Entre as principais medidas, está o corte de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, por meio de um programa de demissão voluntária (PDV). A expectativa é reduzir em 15 mil o número total de funcionários em até dois anos, o que representaria um corte de 18% na folha de pagamentos.
O PDV é um pacote de incentivos para que funcionários peçam demissão, permitindo à empresa reduzir custos e reestruturar seu quadro sem demissões em massa.
Além disso, a empresa pretende vender R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais e fechar mil agências deficitárias, das cerca de 5 mil unidades existentes. Há também uma reformulação do plano de saúde para gerar uma economia de R$ 500 milhões anuais.
Emmanoel Rondon enfatizou que o modelo econômico-financeiro dos Correios deixou de ser "viável", e a "rota precisa ser ajustada rapidamente" para evitar um possível prejuízo de R$ 23 bilhões para o ano de 2026.
Desafios Financeiros e Estratégias para Aumentar Receitas
Os Correios têm enfrentado um cenário financeiro desafiador. Em setembro, a empresa registrou um prejuízo de R$ 4,3 bilhões no primeiro semestre de 2025, um aumento significativo em comparação com os R$ 1,3 bilhão no mesmo período de 2024.
A receita da empresa também diminuiu. Em 2024, os Correios fecharam o ano com uma receita total de R$ 18,9 bilhões, inferior aos R$ 19,2 bilhões de 2023 e R$ 19,8 bilhões de 2022. Até setembro deste ano, a receita já havia caído quase R$ 2 bilhões em comparação com o mesmo período de 2024.
Essa queda nas receitas foi impactada pela implementação do programa "Remessa Conforme" do Ministério da Fazenda em 2023, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, antes isentas.
Com o "Remessa Conforme", empresas de transporte passaram a poder fazer o frete de mercadorias internacionais pelo Brasil, retirando a obrigatoriedade da distribuição junto aos Correios, como era feito anteriormente.
Um levantamento apresentado durante a coletiva revelou que os Correios perderam espaço no mercado de encomendas, saindo de 51% em 2019 para 22% atualmente. "O monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais que geravam rentabilidade passou a não ser suficiente para financiar as comunicações físicas que estão ligadas a universalização do serviço postal em locais remotos ou locais que são originalmente deficitários", explicou Rondon.
Investimentos Futuros e o Mercado de Encomendas
Para reverter a situação, a empresa também busca novas estratégias para alavancar suas receitas, com a expectativa de atingir R$ 21 bilhões em 2027.
A companhia pretende investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, por meio de um empréstimo junto ao Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, atualmente presidido por Dilma Rousseff.
Esses recursos serão destinados obrigatoriamente à automação de centros de tratamento, renovação e descarbonização da frota, modernização da infraestrutura de TI e redesenho da malha logística.
Com essas ações, os Correios esperam não apenas estabilizar suas finanças, mas também modernizar suas operações e recuperar a competitividade em um mercado de encomendas cada vez mais concorrido. O empréstimo de R$ 10 bilhões é o primeiro passo para essa jornada de transformação.
