A empresa estatal projeta um cenário financeiro desafiador para os próximos anos, com despesas crescentes e receitas em declínio, buscando reverter prejuízos históricos com um ambicioso plano de reestruturação.
Os Correios, uma das mais tradicionais estatais brasileiras, enfrentam um período de grande instabilidade financeira. As projeções para 2026 indicam um cenário alarmante, com a expectativa de um aumento significativo nas despesas e uma drástica redução nas receitas, pressionando ainda mais as contas da empresa.
Para tentar mitigar essa situação crítica, a estatal recebeu recentemente um empréstimo bilionário, uma medida emergencial que visa injetar capital e proporcionar fôlego para as operações, enquanto um plano de reestruturação ambicioso é colocado em prática.
Apesar dos esforços, o caminho para a recuperação é longo e complexo. A expectativa é de que a empresa só consiga operar no azul a partir de 2027, conforme informações divulgadas pelo g1, que detalhou o orçamento enviado ao governo.
O Cenário Preocupante de 2026
A previsão orçamentária dos Correios para 2026, que integra o decreto com as estimativas das estatais federais assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aponta para um futuro financeiro delicado. O documento prevê um aumento de 21% nas despesas correntes e uma redução de 26% nas receitas, números que acendem um alerta sobre a sustentabilidade da companhia.
Para 2026, os Correios estimam receitas correntes de R$ 17,7 bilhões, que englobam serviços como encomendas, mensagens e correspondências internacionais. Este valor representa R$ 6,3 bilhões a menos do que o previsto para 2025, quando a expectativa era de R$ 24 bilhões.
Na contramão, as despesas correntes, que incluem gastos com prestação de serviços, salários e publicidade, devem saltar em R$ 5 bilhões, atingindo a marca de R$ 29 bilhões. Em 2025, a estimativa era de R$ 24 bilhões, evidenciando uma escalada nos custos operacionais.
O Empréstimo Bilionário e a Garantia da União
Para enfrentar a crise, os Correios receberam R$ 10 bilhões de um total de R$ 12 bilhões contratados junto a um consórcio de bancos privados. O contrato, com validade até 2040, foi assinado no sábado, 27 de janeiro, e publicado no Diário Oficial da União na terça-feira seguinte.
O consórcio é formado por grandes instituições financeiras como Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Importante destacar que o empréstimo conta com a garantia da União, o que significa que o governo federal se compromete a cobrir a dívida caso a estatal não consiga honrar os pagamentos.
Segundo o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, o contrato prevê uma carência de três anos, com os pagamentos mensais começando apenas em dezembro de 2029. A taxa de juros foi fixada em 115% do CDI, um patamar abaixo do teto de 120% estabelecido pelo Tesouro Nacional. Rondon não descartou a possibilidade de novos empréstimos, no valor de até R$ 8 bilhões, para complementar a capitalização da empresa.
Plano de Reestruturação: Medidas Drásticas para a Sobrevivência
Diante do cenário de 12 trimestres consecutivos de prejuízos, o plano de reestruturação dos Correios busca reverter a situação. O presidente Emmanoel Rondon afirmou que o modelo econômico-financeiro da empresa “deixou de ser viável”, e sem ajustes, o prejuízo pode chegar a R$ 23 bilhões em 2026.
As medidas incluem um corte de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, a venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais e o fechamento de cerca de mil agências deficitárias, de um total de aproximadamente 5 mil unidades. Além disso, a empresa planeja um programa de demissão voluntária (PDV) para reduzir em até 15 mil o número de funcionários em dois anos, o que representaria um corte de 18% na folha de pagamentos.
A reformulação do plano de saúde também está prevista, com uma economia estimada em R$ 500 milhões por ano. A expectativa é que essas ações permitam aos Correios equilibrar as contas em 2026 e voltar a registrar lucro a partir de 2027.
Desafios e Novas Estratégias para o Futuro
A queda na receita dos Correios é parcialmente atribuída ao programa Remessa Conforme, do Ministério da Fazenda, que instituiu imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Essa medida, conhecida como “taxa das blusinhas”, também permitiu que empresas privadas de logística passassem a distribuir encomendas internacionais no Brasil, reduzindo a exclusividade dos Correios.
Conforme levantamento da empresa, a participação dos Correios no mercado de encomendas caiu drasticamente de 51% em 2019 para 22% em 2025. Para reverter essa tendência, a estatal pretende adotar novas estratégias para ampliar receitas, com a meta de alcançar R$ 21 bilhões em 2027.
Um investimento de R$ 4,4 bilhões está planejado entre 2027 e 2030, com recursos de um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, presidido por Dilma Rousseff. Estes recursos serão destinados à automação de centros de tratamento, renovação da frota, modernização da infraestrutura de tecnologia da informação e redesenho logístico, essenciais para a competitividade futura dos Correios.
