Pular para o conteúdo

Crise no Campo: Leilões de Propriedades Rurais Disparam no Brasil, com Inadimplência Recorde e Produtores Pressionados por Dívidas e Clima

Produtores brasileiros enfrentam a crescente onda de leilões de propriedades rurais, com dívidas que quadruplicaram em dois anos, ameaçando a estabilidade do agronegócio nacional.

O agronegócio brasileiro enfrenta um período de intensa turbulência financeira, com um aumento sem precedentes nos leilões de propriedades rurais. Milhares de imóveis têm sido retomados por credores, um reflexo direto da crescente inadimplência no campo, que se aproxima de um quinto dos empréstimos em circulação.

Produtores rurais em todo o país veem suas dívidas se acumularem, pressionados por uma combinação de juros elevados, a queda nos preços de importantes commodities agrícolas, como a soja, e os impactos cada vez mais severos de eventos climáticos extremos.

Essa situação delicada levou a um salto nas execuções de garantias, com as dívidas problemáticas no crédito rural mais que quadruplicando em apenas dois anos, conforme informações divulgadas pela Reuters.

A Escalada da Inadimplência no Campo

Os dados do Banco Central são alarmantes, as dívidas com problemas de pagamento no crédito rural dispararam para R$ 171,2 bilhões no início deste ano. Dois anos antes, esse valor era significativamente menor, evidenciando a rápida deterioração da saúde financeira dos produtores.

A parcela de empréstimos em atraso no crédito rural subiu para 19,6%, um salto considerável em comparação com os 5,5% registrados dois anos antes. Esse cenário preocupa as autoridades e os próprios agricultores.

Guilherme Campos, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura do Brasil, afirmou à Reuters que “Este momento de endividamento no campo é um momento extremamente delicado”, sublinhando a gravidade da situação.

Para agravar a situação, os agricultores brasileiros estão se preparando para a possível ocorrência de um “super El Niño”, que pode prejudicar ainda mais a produtividade das safras e reduzir a renda. Além disso, a alta nos preços dos fertilizantes, durante a guerra no Irã, levou muitos a reduzir os planos de novos plantios.

O Rio Grande do Sul, por exemplo, é um dos estados mais afetados pela inadimplência. As enchentes catastróficas de 2024, associadas ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas, tiveram um impacto devastador, segundo estudo publicado em janeiro na revista “NPJ Natural Hazards”, da editora Nature.

Leilões de Propriedades Rurais: Números Preocupantes

Os credores têm intensificado a execução de garantias, resultando em um aumento expressivo no número de propriedades levadas a leilão. Dados do site Leilão Imóvel, compilados para a Reuters, mostram que o volume desses leilões de propriedades rurais chegou a 14.219 imóveis em 2025.

Esse número representa um aumento de 30% em relação ao ano anterior. Os processos extrajudiciais, que são mais rápidos, quase dobraram, atingindo 2.398 propriedades rurais retomadas e leiloadas no ano passado.

André Figueiredo, cofundador do Leilão Imóvel, explicou à Reuters que, embora a plataforma tenha passado a acompanhar cerca de 7% mais leiloeiras em 2025, o que afeta a comparabilidade total dos dados, as maiores leiloeiras compartilham informações desde 2019, indicando uma “tendência clara de piora nas condições financeiras dos produtores”.

Figueiredo destacou que “O volume de imóveis rurais aumentou bastante”, e que as regiões com maior produção de soja e outros grãos foram as mais impactadas por essa onda de leilões de propriedades rurais. Paralelamente, os pedidos de recuperação judicial do setor agrícola cresceram 56% em 2025, após mais que dobrarem em 2024, segundo dados da Serasa Experian.

Fatores que Pressionam o Produtor Rural

Marcelo Pimenta, responsável pelo setor de agronegócio da Serasa Experian, informou à Reuters que os produtores enfrentam dificuldades para se recuperar de uma série de choques recentes. Ele citou o clima adverso, a queda nos preços das exportações agrícolas, especialmente da soja, e a taxa básica de juros, que subiu de 2% para 15% em cinco anos, como fatores cruciais que dificultam o pagamento das dívidas.

A perspectiva futura não é animadora, conforme Pimenta. “A perspectiva para frente não é boa”, disse ele, acrescentando que “Os juros ficaram muito altos e não sabe onde vão ficar os preços das commodities. A chance de choques por problemas climáticos é muito alta.”

Um agricultor do Rio Grande do Sul, que preferiu não ser identificado, compartilhou sua experiência dramática. Ele relatou dificuldades para lidar com juros “impagáveis” após perdas causadas por eventos climáticos extremos. Segundo ele, um credor já tomou posse de mais da metade da fazenda da família.

“A mudança climática, ela é expressiva, ela é evidente. Nós não estamos conseguindo produzir uma hora por muita chuva e outra hora por muito sol. Então eu te digo assim: o fator clima é o fator que nos colocou nessa posição”, desabafou o produtor, ressaltando o impacto direto do clima na sua subsistência e na sua capacidade de manter a propriedade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *