A escassez extrema deu lugar à prosperidade para agricultores familiares em Flores de Goiás, que agora colhem maracujá e manga em abundância, mudando o destino de uma região antes esquecida.
A frase da agricultora Júlia Pereira de Andrade, "Eu ajoelhei e pedi muito a Deus para que me desse água", resume a dura realidade que, por anos, marcou o Vão do Paranã, no nordeste de Goiás. Conhecida como o "Corredor da Miséria", a região era sinônimo de pobreza e secas constantes, onde a falta de água para necessidades básicas era uma rotina.
Hoje, a história de Júlia e de muitas outras famílias simboliza uma profunda transformação. Graças a um projeto inovador de irrigação, assistência técnica e fomento à fruticultura, essa área está se reerguendo, tornando-se um promissor polo de produção de frutas, conforme informações divulgadas pelo g1.
A iniciativa, que reúne a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a Embrapa e agricultores familiares, injetou R$ 23 milhões em investimentos, beneficiando atualmente 80 produtores. A meta é alcançar 250 famílias e irrigar 500 hectares, demonstrando como a água pode ser um verdadeiro divisor de águas.
A Água: O Divisor de Águas no Vão do Paranã
Para Júlia, a chegada da água foi uma bênção. Ela passou dois anos sem água em sua propriedade em Flores de Goiás, precisando buscar o recurso para banho e uso doméstico. "No momento em que eu consegui perfurar esse poço, que eu vi água dentro da minha chácara, para mim foi o bem maior que Deus me deu", conta a agricultora.
A sorte do Vão do Paranã reside em sua geografia. Cercada pela Chapada dos Veadeiros e pela Serra Geral de Goiás, a região favorece o acúmulo de água subterrânea, facilitando a perfuração de poços artesianos. Esse recurso é vital para a fruticultura irrigada, permitindo a produção contínua, mesmo durante a rigorosa estação seca do Cerrado.
Essa disponibilidade hídrica transformou a paisagem e a economia local. O pesquisador da Embrapa, José Carlos Sousa, destaca que, com a irrigação, "o produtor passa a ter uma fonte de renda ao longo de todo o ano", um avanço inimaginável para quem antes dependia da chuva e de pequenas roças de subsistência.
O Modelo de Produção: Fruticultura Irrigada e Retorno Rápido
Antes do projeto, a família de Júlia vivia da subsistência, e o marido, João, precisava trabalhar fora em fazendas vizinhas. Hoje, eles cultivam maracujá e manga em dois hectares, participando ativamente do projeto de fruticultura irrigada.
O modelo técnico, desenvolvido pela Embrapa, prevê um hectare de maracujá, uma cultura de ciclo curto que começa a produzir em cerca de seis meses, garantindo um retorno financeiro mais rápido. O outro hectare é destinado à manga, que leva aproximadamente quatro anos para entrar em produção, mas pode permanecer produtiva por décadas, funcionando como uma "aposentadoria" para o produtor.
A produtividade tem impressionado. Em algumas propriedades, a colheita de maracujá já alcança 30 toneladas por safra, o dobro da média nacional. Esse sucesso é um testemunho do potencial da irrigação combinada com assistência técnica especializada.
Impacto Social e Econômico: Renda, Permanência e Novas Perspectivas
Os resultados financeiros são notáveis. Júlia relata ter faturado cerca de R$ 15 mil em apenas dois meses com a venda de maracujá e abóbora. Esse dinheiro tem sido fundamental para custear despesas da casa e o financiamento do pomar, além de permitir investimentos em energia solar e eletrodomésticos, elevando a qualidade de vida das famílias.
Além do impacto econômico, o projeto tem sido crucial para combater o êxodo rural. Daniel Rodrigues, de 19 anos, formado em agropecuária, decidiu permanecer na propriedade familiar após a implantação do sistema irrigado. "Agora meu foco é conseguir plantar mais frutíferas para mim quando eu tiver uma idade mais avançada, não trabalhar tanto e ter uma renda ainda melhor", diz ele, vislumbrando um futuro no campo.
Para Seu João, marido de Júlia, a fruticultura irrigada significou abandonar o trabalho temporário em fazendas distantes e dedicar-se à própria terra, fortalecendo os laços familiares e a economia local. A transformação no Vão do Paranã é um exemplo claro de como a tecnologia e o investimento certo podem gerar dignidade e novas oportunidades.
Desafios e o Futuro: Cooperativismo e Expansão Nacional
Apesar dos avanços, os produtores ainda enfrentam desafios, principalmente na comercialização das frutas. Sem compradores fixos, muitos dependem de atravessadores, o que gera oscilações de preço e incertezas na venda da produção.
Para superar essa barreira, agricultores da região estão criando uma cooperativa e aguardam a conclusão de uma agroindústria financiada pelo governo estadual. A expectativa é que, no futuro, maracujá e manga sejam processados localmente, transformados em polpas e comercializados com maior valor agregado, garantindo mais lucratividade aos produtores.
O sucesso do modelo de irrigação em Goiás já despertou interesse em outras regiões do país. O projeto deverá ser replicado em comunidades rurais da Bahia, Mato Grosso e Minas Gerais, expandindo o impacto positivo. Para agricultores como Edgar Rodrigues, que hoje se define como um "pequeno empresário rural", o futuro é promissor. "Eu sonho alto", afirma, "Ainda vou ver essas mangas sendo vendidas para os Estados Unidos e para onde mais for preciso."
