Ouro como porto seguro em tempos de turbulência? Especialistas explicam os riscos e as oportunidades de investir no metal precioso
Em um cenário global de crescentes incertezas financeiras e geopolíticas, o investimento em ouro tem ganhado destaque como uma possível estratégia de proteção de patrimônio. A busca por ativos considerados seguros se intensifica quando a economia global enfrenta desafios, e o metal precioso é tradicionalmente visto como um refúgio.
Desde as tensões comerciais até conflitos internacionais, diversos fatores impulsionam a demanda pelo ouro, levando a recordes de preços. No entanto, especialistas alertam que, apesar do apelo, investir em ouro não garante ausência de riscos e exige uma visão de longo prazo.
Afinal, o que faz do ouro um ativo tão cobiçado em momentos de instabilidade e quais são as considerações para quem busca nele uma saída? Conforme informações divulgadas pelo g1, a resposta envolve uma complexa interação de economia, política e comportamento do mercado.
Por que o ouro brilha em momentos de crise?
O ouro e outros metais preciosos são frequentemente classificados como ativos seguros por investidores em períodos de incerteza. A escalada das tensões entre os Estados Unidos e a Otan em relação à Groenlândia, as ameaças de tarifas comerciais do presidente americano Donald Trump contra o Canadá, e os conflitos na Ucrânia e na Faixa de Gaza são exemplos de eventos que aumentam a preocupação mundial e impulsionam a procura pelo metal.
Além das questões geopolíticas, a política monetária também influencia. A expectativa de que o Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, reduza novamente as taxas de juros este ano torna o ouro mais atraente. Taxas mais baixas significam menores retornos para investimentos como títulos do governo, levando os investidores a buscar alternativas.
Ahmad Assiri, estrategista de pesquisa da corretora australiana Pepperstone, explica que “a relação é inversa porque o custo de oportunidade de manter o dinheiro em um título do governo, na verdade, não vale mais a pena. Por isso, as pessoas vão para o ouro”. Esta dinâmica, somada a fatores como a inflação mais alta que o habitual e a fraca cotação do dólar americano, cria um ambiente favorável para o metal.
A disparada dos preços e o histórico do metal
O ouro teve um ano de destaque em 2025, registrando o maior aumento anual de preço desde 1979. A prata também acompanhou essa tendência, atingindo US$ 100 a onça pela primeira vez, com um aumento de quase 150% no ano anterior. Essa disparada reflete a migração de muitos investidores para os metais preciosos.
Susannah Streeter, estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, observa que o ouro “parece não conhecer fronteiras” em meio às incertezas políticas. Ela destaca que a corrida para o “porto seguro dourado” continua, com o preço do metal precioso subindo cada vez mais, impulsionada pelas tensões comerciais e pelo receio de que as ações relacionadas à inteligência artificial estejam supervalorizadas.
Historicamente, o ouro sempre teve uma importância simbólica e religiosa, desde a máscara mortuária de Tutancâmon até os Tronos de Ouro do Templo Padmanabhaswamy. Sua relativa escassez é um dos maiores apelos, com apenas cerca de 216.265 toneladas mineradas até hoje, o suficiente para encher três a quatro piscinas olímpicas, segundo o Conselho Mundial do Ouro.
Investir em ouro: físico, financeiro e os riscos
Nem todos que buscam investir em ouro compram o metal em sua forma física. Muitos optam por produtos financeiros, como fundos de investimento negociados em bolsa (ETFs), que são atrelados ao ouro. Nicholas Frappell, chefe global de mercados institucionais da ABC Refinery, afirma que “é uma ótima opção de diversificação, em um mundo com muitas incertezas”, pois o ouro não está atrelado à dívida de outra pessoa, como um título ou ação.
No entanto, Philip Fliers, historiador da economia da Universidade de Belfast, alerta que “o ouro é um investimento ‘seguro’, mas isso não significa que ele não apresente riscos”. Ele lembra que, em janeiro de 2020, os preços do ouro dispararam no início da pandemia, mas em março do mesmo ano, começaram a cair, mostrando a volatilidade do ativo.
Grandes operadores financeiros, como os bancos centrais, exercem forte influência nos preços. Fliers suspeita que grande parte do recente aumento dos preços do ouro seja causada pelos bancos centrais dos governos, que aumentam seus estoques para ampliar suas reservas e fugir de investimentos em ações em tempos de incerteza. Nikos Kavalis, diretor-gerente da consultoria Metals Focus, aponta que “existe um claro afastamento do dólar americano, o que beneficia imensamente o ouro”.
Apesar do cenário favorável, Nicholas Frappell adverte que notícias positivas para o mundo, mas não necessariamente para o ouro, podem resultar na queda das cotações. Fliers conclui que “ainda é uma estratégia arriscada especular no aumento do preço do ouro, pois, assim que os mercados se acalmarem e os governos recobrarem o juízo, as pessoas irão deixar novamente o ouro”. Ele sugere que “o investimento em ouro é algo que se faz a longo prazo”.
Além do investimento: cultura e tradição
É importante notar que nem todos compram ouro puramente por razões de investimento. Em muitas culturas, o metal é adquirido durante festivais ou oferecido como presente em celebrações, como casamentos. Na Índia, o festival anual Diwali é considerado uma ocasião auspiciosa para comprar metais preciosos que trarão sorte e riqueza.
As famílias indianas, por exemplo, possuem US$ 3,8 trilhões em ouro, o que equivale a 88,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo o banco de investimentos Morgan Stanley. A China, vizinha da Índia, é o maior mercado consumidor de ouro do mundo, onde muitos acreditam que comprar o metal traz boa fortuna.
Nikos Kavalis menciona que se observa um “pico sazonal da demanda perto do Ano Novo Chinês”, como está acontecendo no momento, referindo-se ao Ano do Cavalo. Essa demanda cultural e tradicional contribui para a sustentação do mercado de ouro, adicionando uma camada extra de complexidade à sua avaliação como investimento.
