Após quatro anos de hiato, a retomada das ofertas públicas iniciais de ações levanta questões sobre o cenário econômico nacional e as estratégias das companhias.
O mercado de capitais brasileiro, após um período de calmaria, começa a registrar a movimentação de IPOs, as ofertas públicas iniciais de ações, sinalizando uma possível retomada. No entanto, o cenário atual mostra uma preferência notável: as primeiras empresas brasileiras a retornarem à bolsa estão optando por mercados estrangeiros, especificamente os Estados Unidos.
Essa escolha estratégica, que envolve nomes como PicPay e Agibank, reflete uma complexa interação de fatores econômicos e de mercado. Compreender as razões por trás dessa decisão é crucial para analisar as perspectivas futuras do mercado de IPOs no Brasil, conforme informações divulgadas pelo g1.
A análise aprofundada desse movimento revela não apenas as particularidades do ambiente de negócios no país, mas também as expectativas para os próximos meses, especialmente em relação à taxa de juros e o apetite por risco dos investidores.
O panorama dos IPOs brasileiros e a escolha pelo mercado externo
O primeiro IPO brasileiro em quatro anos acontece nesta quinta-feira, 29 de junho, com o banco digital PicPay, marcando um momento significativo para o mercado. Outro IPO anunciado recentemente é o do Agibank, ainda sem data definida. Curiosamente, ambas as empresas brasileiras escolheram listar suas ações nos Estados Unidos, na Nasdaq, em vez da B3, a bolsa brasileira.
Um IPO (Initial Public Offering) é a primeira oferta pública de ações de uma empresa, quando parte do capital é vendida a investidores. O objetivo principal é captar recursos para expandir operações, investir em projetos ou reduzir dívidas.
A preferência pelo mercado americano não é nova, mas ganha destaque agora. Especialistas consultados pelo g1 apontam que esse movimento reflete, em grande parte, as elevadas taxas de juros no Brasil. Atualmente em 15% ao ano, esse é o maior patamar em 20 anos, um fator que inibe o investimento em renda variável.
Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, explicou: “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
Em 2021, ano com mais de 40 IPOs no país, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro. Contudo, desde então, a taxa entrou em trajetória de alta, até alcançar 15% em junho do ano passado. Esse aumento de 5,75 pontos percentuais em relação a 2021 impactou diretamente o mercado.
Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America (BofA) no Brasil, complementa: “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.
Juros mais altos tornam a renda fixa mais atrativa, desviando recursos da bolsa. Com menos capital em renda variável, os volumes negociados caem e a demanda por novas ofertas de ações diminui. Greenlees observa que “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.
Por que os Estados Unidos atraem as companhias brasileiras?
Enquanto o Brasil enfrenta taxas de juros elevadas, os Estados Unidos iniciaram um ciclo de cortes em setembro do ano passado. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%, realizando mais dois cortes desde então. Atualmente, as taxas estão na faixa de 3,50% a 3,75%, tornando o ambiente mais propício para IPOs.
No entanto, Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, destaca que os juros não são o único fator. “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, explica.
No caso do PicPay, por exemplo, outras empresas brasileiras de destaque no setor financeiro e de pagamentos, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, já estão listadas em Wall Street. Isso pode criar um ambiente de familiaridade e maior visibilidade para investidores especializados nesse nicho.
Resende reforça que “Abrir capital no exterior não é uma solução com resposta única para todos os casos. Vemos algumas companhias testando o mercado americano, mas também temos conversas com empresas interessadas em fazer uma emissão de ações na B3”, indicando que a bolsa brasileira ainda tem seu papel.
O que o futuro reserva para o mercado de capitais no Brasil?
Apesar do cenário desafiador, há uma visão mais otimista para a retomada dos IPOs no Brasil nos próximos meses. Especialistas consultados pelo g1 esperam que o Banco Central do Brasil (BC) inicie um ciclo de cortes de juros já no primeiro trimestre.
Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual. Essa queda, mesmo que gradual, pode reacender o interesse dos investidores pela renda variável e pelo mercado de IPOs.
Greenlees, do Itaú BBA, pondera: “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.
Além da trajetória dos juros, outros fatores estão no radar de investidores e empresas brasileiras para o mercado de ações. O cenário geopolítico global e os sinais de compromisso com a trajetória das contas públicas por parte do novo governo eleito no Brasil são elementos cruciais para a confiança do mercado.
Bruno Saraiva, do BofA, expressa um otimismo cauteloso. “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, projeta. Ele acrescenta que uma recuperação mais robusta depende de condições macroeconômicas mais estáveis.
“Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”, conclui Saraiva, apontando para um futuro de maior dinamismo para os IPOs no país.
