Uma decisão recente da Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as abrangentes tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump, adicionando um novo capítulo de incerteza às já complexas relações comerciais entre EUA e China. O veredito, que aparentemente fortalece a posição de Pequim, provocou uma reação furiosa de Trump, que ameaçou com novas taxas globais.
Analistas do cenário político e econômico preveem que, apesar da vantagem aparente, a China agirá com extrema cautela. A expectativa é que Pequim evite qualquer movimento que possa desestabilizar a frágil trégua comercial, especialmente antes da aguardada viagem de Trump à capital chinesa.
A decisão da Suprema Corte não apenas balança as relações bilaterais, mas também levanta questões sobre o futuro da política comercial americana e suas implicações para outros parceiros globais, conforme informações divulgadas pelo g1.
Impacto da Decisão e a Reação de Trump
A determinação da Suprema Corte, que reverteu as tarifas abrangentes de Trump, introduziu um elemento de turbulência em um cenário já delicado entre as duas maiores economias do mundo. Ambos os países tentam evitar uma guerra comercial total que poderia desestabilizar a economia global, enquanto disputam posições de força nas negociações.
Apesar de a decisão judicial fortalecer a posição da China, especialistas indicam que Pequim será prudente ao explorar essa vantagem. Há um entendimento claro de que Trump possui outros mecanismos para impor taxas, e os dois lados buscam manter uma trégua comercial e estabilizar as relações antes da visita programada de Trump a Pequim, entre 31 de março e 2 de abril.
Sun Yun, diretora do programa da China no Stimson Center, um centro de estudos de Washington, afirmou que a decisão dará à China um “impulso moral em suas negociações com a equipe de Trump antes da cúpula, mas eles estão preparados para o cenário de que nada realmente mude na prática”.
Em resposta à derrota judicial, Trump expressou fúria e ameaçou impor uma tarifa global temporária de 10%, que posteriormente seria elevada para 15%. Ele defendeu suas políticas tarifárias, apontando a China como o maior desafio à predominância econômica, tecnológica e militar dos EUA.
“A China tinha centenas de bilhões de dólares em superávits com os Estados Unidos. Eles reconstruíram a China. Eles reconstruíram o Exército. Nós construímos o Exército da China ao permitir que isso acontecesse”, disse Trump a repórteres, ressaltando que, apesar de um “ótimo relacionamento com o presidente Xi”, o líder chinês “agora respeita nosso país”.
A Cautela Chinesa e a Visita de Xi a Trump
É pouco provável que o presidente chinês Xi Jinping “ostente ou brandisse” de forma contundente a decisão da Suprema Corte durante seu encontro com Trump. A expectativa é que Xi opte por tentar fortalecer sua relação com o presidente americano, buscando consolidar a frágil trégua comercial.
Ali Wyne, assessor sênior de pesquisa e advocacy focado na política dos EUA para a China no International Crisis Group, sugere que, quanto mais Xi conseguir fortalecer essa relação, “mais provável será que a frágil trégua comercial entre Estados Unidos e China se consolide de fato e que Trump esteja disposto a concessões na área de segurança que deem à China maior liberdade de manobra na Ásia”.
O porta-voz da Embaixada da China, Liu Pengyu, ao ser questionado sobre as implicações da decisão judicial, reiterou que guerras tarifárias e comerciais não servem aos interesses de nenhum dos países. Ele pediu que Pequim e Washington trabalhem juntos para “proporcionar maior previsibilidade e estabilidade à cooperação econômica e comercial China-EUA e à economia global”.
A decisão da Corte também introduz uma nova camada de incerteza para outros parceiros comerciais dos EUA, tanto na Ásia quanto em outras regiões. Isso é particularmente relevante para aqueles que firmaram acordos para amenizar a turbulência inicial provocada pelas tarifas de Trump.
Dan Kritenbrink, sócio do The Asia Group e ex-secretário assistente de Estado para Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico no governo Biden, prevê que a maioria dos parceiros asiáticos agirá com cautela, mantendo os acordos existentes enquanto analisam as implicações nas próximas semanas. Ele destacou o impacto potencial sobre o Japão antes da visita planejada da primeira-ministra Sanae Takaichi a Washington em março.
As Opções de Trump e o ‘Plano B’ Americano
Trump já demonstrou, em seu primeiro mandato, disposição para utilizar outras bases legais para impor tarifas à China. Pouco depois de retornar à Casa Branca no ano passado, ele invocou uma lei de poderes emergenciais para impor tarifas de 20% sobre produtos chineses, alegando que Pequim não conseguiu conter o fluxo de substâncias químicas usadas na produção de fentanil.
Posteriormente, a mesma autoridade emergencial foi usada para impor tarifas recíprocas de 34% sobre a China, levando a retaliações de Pequim e a taxas que temporariamente ultrapassaram 100%, antes de ambos os lados recuarem. Após várias rodadas de negociações e uma cúpula em outubro, os países concordaram com uma trégua de um ano e uma tarifa-base de 10%, com Trump reduzindo a tarifa do fentanil e Pequim retomando a cooperação para restringir a exportação de opioides.
Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute, suspeita que o governo Trump possa apresentar rapidamente um “Plano B”. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) já conduz uma investigação sobre o cumprimento, por parte da China, de um acordo comercial anterior. Caso a China seja considerada em descumprimento de suas obrigações, o governo dos EUA pode impor novas tarifas com base na legislação comercial.
O deputado Ro Khanna, principal democrata no Comitê Especial da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês, instou o governo a formular uma nova estratégia mais rigorosa que “responsabilize a China por suas práticas comerciais desleais e aproveite o poder coletivo de nossos aliados e parceiros”.
Gabriel Wildau, diretor-gerente focado em análise de risco político na China na consultoria Teneo, afirmou que Trump já demonstrou disposição para usar outras bases legais para impor tarifas à China. Pequim, por sua vez, provavelmente parte do princípio de que as tarifas podem ser mantidas ou recriadas “com apenas dificuldade moderada”, mas mantém a esperança de convencer Trump a reduzi-las em troca de garantias de compras ou outras concessões.
