Um cenário preocupante emerge no mercado de combustíveis brasileiro, onde postos e distribuidoras têm visto suas margens de lucro com o diesel crescerem em até 70%. Esse aumento significativo, conforme aponta um levantamento, impacta diretamente o bolso do consumidor e a economia nacional como um todo, em um momento de escalada nos preços internacionais do petróleo.
A elevação dessas margens não é um fenômeno recente, mas se intensificou, gerando questionamentos sobre a transparência e a regulação do setor. A situação é agravada por conflitos geopolíticos que afetam a oferta global de petróleo, intensificando a pressão sobre os preços dos derivados no Brasil.
Este artigo explora as causas e consequências desse aumento nas margens de lucro, detalhando como a volatilidade do mercado, a política de preços da Petrobras e as privatizações contribuíram para o quadro atual, conforme informação divulgada pelo g1.
Lucros Exponenciais: O Aumento das Margens em Detalhes
Na comparação com 2021, o aumento das margens de lucro é ainda mais expressivo, revelando uma tendência de crescimento acentuado. Para o diesel S-500, a alta foi de impressionantes 238,8% no período. Já o diesel S-10 registrou um aumento de 111,8% em suas margens de lucro. A gasolina comum também não ficou de fora, com sua margem de lucro subindo 90,7%.
Segundo o economista do Ibeps, Eric Gil Dantas, dois fatores principais explicam essa elevação das margens ao longo do tempo. O primeiro foi o período de alta de preços entre 2021 e 2022, quando os derivados de petróleo atingiram os maiores valores reais da história do país.
Naquele período, a Petrobras adotava o Preço de Paridade de Importação, o PPI, uma política que simulava o preço de importação e trouxe grande volatilidade ao mercado, com fortes reajustes, tanto para cima quanto para baixo. Essa tendência de alta, junto com a volatilidade dos preços e a perda de referência para os consumidores, permitiu que as margens crescessem sem serem percebidas, explica o economista.
Dantas acrescenta que esse movimento não cessou com o período de maior volatilidade, as margens continuaram subindo ao longo de 2023, mesmo com poucos reajustes. O segundo fator, de acordo com o economista, foi a privatização da BR Distribuidora e da Liquigás, que eram as únicas estatais em setores altamente concentrados.
Com isso, perdeu-se a possibilidade de manter margens mais próximas do aceitável, completa Dantas. A BR e a Liquigás tinham grande poder para determinar essas margens e, após serem privatizadas, isso se perdeu.
Questionada sobre o aumento das margens e se o setor tende a se beneficiar de choques nos preços internacionais do petróleo, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes, a Fecombustíveis, não respondeu até a publicação da reportagem. A Associação das Distribuidoras de Combustíveis, a Brasilcom, afirmou que não se manifesta sobre a formação de preços, pois essa é uma questão estratégica de cada associada, sem interferência da entidade.
Impacto da Alta do Petróleo na Economia Brasileira
Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, o preço do petróleo ultrapassou a marca de US$ 100 por barril, atingindo o maior nível desde fevereiro de 2022, quando começou o conflito entre Rússia e Ucrânia. A alta recente ocorre porque a guerra envolve países localizados em rotas estratégicas para a produção e o transporte de petróleo e gás.
O Irã, por exemplo, controla o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. O fluxo na região está muito reduzido por conta do conflito, e com a menor oferta mundial de petróleo, os preços disparam no mercado internacional. O petróleo mais caro eleva também o preço dos derivados, com o diesel sendo um dos mais críticos para o Brasil.
O diesel, combustível fundamental para a logística da economia brasileira, espalha o aumento de custos dos caminhoneiros ao valor dos alimentos, de produtos industriais e de serviços. Na semana passada, um levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, indicou que o preço médio do litro do diesel nos postos do país subiu quase 20% em cerca de 15 dias. Este número será atualizado pela agência nesta sexta-feira.
Agronegócio e Energia: Setores Vulneráveis
Além do transporte, o agronegócio brasileiro também sofre com o custo de operação das máquinas agrícolas e com o encarecimento dos fertilizantes químicos. Estes representam uma parte relevante das importações brasileiras vindas do Irã. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o MDIC, indicam que adubos e fertilizantes químicos responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.
Há impacto também na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas. Estas usinas geram energia a partir de combustíveis e costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos, elevando o custo da energia para os consumidores finais. A ampliação das margens de lucro dos postos e distribuidoras de diesel, somada à instabilidade geopolítica e ao aumento do preço do petróleo, configura um cenário desafiador para a economia brasileira e para o poder de compra da população.
