Após três anos e dois meses à frente do Ministério da Fazenda, Fernando Haddad se prepara para deixar o cargo nesta semana. Sua saída marca o fim de um período intenso de redefinições econômicas e políticas, com o ministro se preparando para concorrer ao governo de São Paulo pelo PT nas eleições de outubro.
A gestão de Haddad foi caracterizada pela busca por um novo modelo para as finanças públicas e pela aprovação de reformas aguardadas há décadas. No entanto, o período também foi marcado por desafios para consolidar a credibilidade e alinhar as expectativas do mercado com as prioridades do governo.
Os principais marcos e desafios de sua administração, bem como a avaliação de especialistas sobre seu impacto na economia brasileira, foram detalhados em informações divulgadas pelo g1.
As reformas estruturais e os avanços na gestão Haddad
À frente da equipe econômica, Fernando Haddad liderou a aprovação da reforma tributária sobre o consumo, um feito considerado histórico após mais de 30 anos de discussões no Congresso Nacional. A proposta unifica tributos, buscando simplificar a cobrança de impostos e tornar o sistema mais transparente e eficiente, sem alterar a carga tributária total.
O ministro também foi o arquiteto do arcabouço fiscal, a nova regra que substituiu o teto de gastos com o objetivo de reequilibrar as contas públicas. Inicialmente, o arcabouço foi bem recebido pelo mercado, sinalizando uma preocupação do governo com a responsabilidade fiscal. Contudo, ao longo do tempo, a regra perdeu parte de sua credibilidade devido à exclusão de determinadas despesas e às revisões das metas fiscais.
André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, elogia a capacidade de articulação do ministro. Ele afirma que “Fazer o volume de reformas que Haddad fez à frente do Ministério da Fazenda é algo elogiável. Ele é um político muito habilidoso. Não por acaso, em diversos momentos de estresse, foi ele quem conectou o Poder Executivo ao Legislativo”.
Melhora nos indicadores econômicos e sociais
Paralelamente às reformas, a gestão Haddad coincidiu com uma melhora em importantes indicadores econômicos e sociais. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu acima do esperado, o desemprego recuou para níveis recordes e a renda média da população avançou, mesmo em um cenário de juros elevados e inflação controlada.
A redução do desemprego, o aumento do rendimento médio e a ampliação de programas sociais, como o Bolsa Família, contribuíram para que o país registrasse os menores níveis de pobreza e desigualdade em três décadas. Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, destaca que “o crescimento do PIB, especialmente nos dois primeiros anos, foi elevado para os padrões brasileiros”.
Outra vitória no campo social foi a viabilização da promessa de campanha do presidente Lula de isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês, uma medida que beneficiará cerca de 10 milhões de contribuintes a partir de 2026.
A agenda de taxação da alta renda
Desde o início de seu mandato, Fernando Haddad defendeu ativamente medidas para aumentar a tributação da alta renda e rever regras que, segundo o governo, favoreciam os mais ricos. Entre as iniciativas aprovadas, destacam-se a taxação de fundos exclusivos, usados por investidores de maior renda, e a cobrança periódica sobre rendimentos no exterior, as chamadas offshores.
O ministro também propôs alterações nas regras de Juros sobre Capital Próprio (JCP), um mecanismo amplamente utilizado por grandes empresas para reduzir a carga tributária, embora o texto tenha sido modificado durante a tramitação no Congresso. A proposta de tributação de lucros e dividendos, no entanto, ainda enfrenta resistência no Legislativo.
Ao levar o tema ao G20 em fevereiro de 2024, Haddad argumentou que a tributação da alta renda exige respostas coordenadas no plano internacional, visando uma contribuição mais justa dessa parcela da população.
Desafios persistentes e a crise de confiança
Apesar dos avanços e reformas, a gestão de Fernando Haddad enfrentou dificuldades para consolidar sua credibilidade, especialmente no que diz respeito ao controle das contas públicas. A confiança na condução fiscal foi abalada após a revisão das metas fiscais e declarações que colocaram em dúvida seu cumprimento.
A economista Zeina Latif observa que “A meta de 2023 já nasceu abandonada. Desde o início ficou claro que não era um compromisso crível, apesar das sinalizações ao mercado. Prometer uma meta que já se sabia, de largada, que não seria cumprida cobra um preço. Isso gera desgaste”.
Medidas de corte de gastos foram neutralizadas por prioridades do presidente Lula, como a regra de reajuste real do salário mínimo, fazendo com que a estratégia de Haddad se apoiasse mais no aumento da arrecadação e de impostos do que na redução de despesas. Isso levou a um cenário em que o país não atingiu o objetivo de zerar o déficit público, e agentes do mercado não conseguem projetar um momento próximo em que o endividamento começará a cair.
Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, avalia que a gestão ficou aquém do que o país precisa no controle das contas públicas, mas teve um papel importante para evitar uma deterioração maior da dívida. “Comparado ao que era necessário e ao que ainda precisará ser feito a partir de 2027, a avaliação não é positiva. Por outro lado, considerando todas as pressões que sofreu, fez o melhor possível e conteve ao máximo o aumento de gastos”, afirma Meirelles.
O futuro da pasta e o legado de Haddad
A saída de Fernando Haddad abre espaço para a sucessão na Fazenda, e o secretário-executivo da pasta, Dario Durigan, surge como um sucessor natural. Felipe Salto, da Warren, destaca que Durigan “é da mesma escola de Haddad, foi treinado por ele, tem experiência e já trabalhou ao seu lado na Prefeitura de São Paulo. É um quadro bastante experiente”.
Independentemente de quem assumir a pasta, a agenda de revisão de gastos públicos parece ter sido inevitavelmente adiada para 2027. Henrique Meirelles faz um alerta: “A dívida pública está aumentando e, a partir de 2027, vamos ter um acerto de contas. Ou se controla essa expansão a partir desse momento ou o país poderá enfrentar, mais adiante, uma crise fiscal”.
A passagem de Fernando Haddad pelo Ministério da Fazenda, portanto, será lembrada pelas importantes reformas que conseguiu implementar, pela melhora de indicadores econômicos e sociais e pelos desafios persistentes no controle fiscal, evidenciando as complexidades da condução da política econômica brasileira em um governo de coalizão.
