Pular para o conteúdo

Guerra no Irã: Noruega, Canadá e Rússia disparam lucros com o petróleo, enquanto o mundo paga a conta, entenda os maiores beneficiados e prejudicados

O conflito no Oriente Médio redefine o mapa energético global, impulsionando a fortuna de alguns países e aprofundando a crise em outros, com a alta do petróleo e gás.

As repercussões financeiras da guerra no Irã, no Oriente Médio, já estão se espalhando por todo o mundo, causando fortes consequências. Desde o aumento das contas de aquecimento doméstico em Yorkshire, no Reino Unido, até o fechamento de escolas no Paquistão para reduzir custos, passando pelos preços dos combustíveis no Brasil, os impactos são sentidos em diversas esferas.

Fica cada vez mais evidente que o efeito das represálias de Teerã, projetadas para causar transtornos e danos econômicos, talvez não seja passageiro, além de ser muito desigual. Enquanto muitos países enfrentam o risco de sofrer duros golpes devido ao aumento dos preços dos combustíveis, outros conseguem tirar vantagem da situação.

Este cenário complexo revela um mapa geopolítico e econômico em constante mudança, onde alguns atores emergem como beneficiados e outros como os mais prejudicados pela guerra no Irã e suas ramificações globais, conforme informações divulgadas pelo G1.

Os Beneficiados Inesperados da Crise Energética

Apesar de todos os esforços para impulsionar as energias renováveis, a dependência global do petróleo e do gás ainda é significativa. Suas reservas abundantes são sinônimo de grandes riquezas, o que lhe rendeu o apelido de "ouro negro".

Quando os preços sobem, os produtores geralmente saem ganhando, enquanto os consumidores pagam a conta. No entanto, esta não é uma crise típica dos preços do petróleo, pois o Oriente Médio continua sendo o centro do abastecimento, e o Estreito de Ormuz, sua principal artéria.

O impacto do bloqueio de facto e dos ataques à infraestrutura energética da região atingiram duramente os produtores do Golfo Pérsico, como o Catar e a Arábia Saudita. Com os clientes procurando fontes alternativas, países como a Noruega e o Canadá podem sair beneficiados neste cenário de guerra no Irã.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, muitos países tentaram deixar de depender do gás russo. Com isso, a Noruega conseguiu aumentar sua produção e tirar vantagem dessa situação, tornando-se um fornecedor crucial para a Europa.

Por outro lado, o ministro da Energia do Canadá, Tim Hodgson, apressou-se a posicionar seu país como "produtor de energia estável, confiável, previsível e baseado em valores". Contudo, existem questões sobre a real capacidade do país de aumentar sua produção de forma significativa.

Na verdade, a Rússia poderá acabar sendo a maior beneficiária. Com Washington flexibilizando as normas para reduzir a escassez global de combustíveis, as vendas de petróleo russo para a Índia aumentaram em cerca de 50%. Estimativas indicam que Moscou poderia conseguir até US$ 5 bilhões adicionais até o final de março, encaminhando-se para fechar o ano com a maior receita obtida com a venda de combustíveis desde 2022.

Os Estados Unidos correm o risco de conceder a Moscou enormes e inesperados lucros, às custas das nações do Golfo. Além disso, com alguns países intensificando seu consumo de carvão, surge uma oportunidade muito atraente para grandes exportadores como a Indonésia, já que o preço deste combustível também está em alta.

Estados Unidos e Europa: Vulnerabilidades Frente à Alta do Petróleo

E sobre os Estados Unidos? O presidente americano, Donald Trump, afirma que, quando sobe o preço do petróleo, os Estados Unidos "ganham muito dinheiro". De fato, os produtores americanos de petróleo podem estar a caminho de ganhar dezenas de bilhões de dólares em receita adicional este ano, se os preços do petróleo bruto se mantiverem próximos dos níveis atuais.

Mas isso não traz lucros líquidos para os Estados Unidos. Primeiramente, porque alguns produtores estão fortemente expostos às interrupções da produção no Oriente Médio. A ExxonMobil, por exemplo, detém operações no centro industrial de Ras Laffan, no Catar, onde a produção está paralisada desde o início de março e o local foi alvo de ataques de mísseis iranianos, causando "extensos danos".

Em segundo lugar, após anos de reduzir sua capacidade frente à queda dos preços no atacado, muitos produtores de petróleo de xisto não conseguem aumentar rapidamente sua produção. E, o mais importante, em termos per capita, os americanos são os maiores consumidores de petróleo e gás do planeta.

Do aumento da calefação durante o forte inverno do meio-oeste americano até o abastecimento de combustível na temporada de viagens de carro, os Estados Unidos estão fortemente expostos à flutuação dos preços dos combustíveis fósseis. Economistas da Oxford Economics alertam que, se os preços do petróleo dispararem para US$ 140 por barril e se mantiverem neste nível, a economia correrá o risco de se contrair.

É claro que os americanos não são os únicos que sofrem com esta vulnerabilidade. A dependência dos consumidores europeus, incluindo o Reino Unido, em relação ao gás importado, apresenta um risco maior para o crescimento econômico, que se materializaria com o impacto sobre a inflação. A evolução do mercado nas últimas semanas poderia acrescentar cerca de 0,5% à taxa anual de inflação, caso essa tendência se mantenha e o aumento dos preços seja transferido para produtos como fertilizantes e custos de transporte.

A boa notícia é que, ao aumentar sua eficiência energética ao longo dos anos, o Ocidente, de forma geral, agora é mais resiliente às flutuações de preço da energia do que no passado. Contudo, com o petróleo e o gás compondo mais da metade do consumo de energia em países como o Reino Unido, os motoristas, as faturas de aquecimento doméstico e os setores com consumo intensivo de energia, como as indústrias, permanecem vulneráveis em muitas partes do mundo.

A Ásia sob Pressão e Estratégias de Adaptação

Grande parte do impacto não depende apenas da trajetória futura dos preços, mas também da reação dos governos, um tema que suscita intenso debate. A maior ameaça imediata recaiu sobre os clientes habituais do petróleo e do gás liquefeito que fluem para o leste, através do Estreito de Ormuz.

A Ásia importa 59% do seu petróleo bruto do Oriente Médio, e no caso da Coreia do Sul, este índice atinge 70%. Com o preço das ações desabando devido à preocupação com as interrupções do fornecimento e os custos, os políticos também alertaram sobre o risco que se apresenta para a indústria de fabricação de chips do país.

A Coreia do Sul produz mais da metade dos chips de memória consumidos no mundo, tornando-a particularmente vulnerável a interrupções no fornecimento de energia. Em outros locais, o racionamento de combustível, semanas de trabalho de quatro dias e o fechamento de centros educacionais são algumas das medidas adotadas por países como Sri Lanka, Bangladesh e as Filipinas para tentar conter os danos.

Mas os maiores consumidores de energia do continente conseguiram, até certo ponto, se manter à margem dessas dificuldades, graças ao seu planejamento e à diplomacia. A China conta com reservas equivalentes a vários meses de consumo e, segundo diversas informações, o país intensificou suas compras de petróleo iraniano.

O mesmo acontece com a Índia, que também aproveita esta luz verde temporária para recorrer à Rússia como seu fornecedor. Essas estratégias mostram como as nações estão se adaptando para mitigar os efeitos da guerra no Irã e a crise energética global.

O Risco de Contágio Global e a Reação Governamental

É claro que o desenlace dependerá, em última instância, da evolução do conflito. Mas parece improvável que os Estados Unidos tivessem previsto totalmente algumas destas consequências econômicas, já que o país elaborou sua estratégia antes de iniciar os ataques ao Irã.

E, se a guerra se prolongar, maior será o risco, não só de prejuízos a países individuais, mas também de contágio e repercussões em escala global. Não surpreende que muitas autoridades relutem em propor resgates financeiros em larga escala, já que suas próprias finanças também se encontram sob fortes pressões.

A reação dos mercados de títulos do governo frente ao risco de aumento da inflação ameaça aumentar em bilhões de dólares os custos já enfrentados por países endividados. A guerra no Irã, portanto, não é apenas um conflito regional, mas um fator de instabilidade econômica com potenciais consequências duradouras para o equilíbrio global de poder e prosperidade.

Este conteúdo foi útil?

Clique nas estrela para avaliar!

Média de avaliação 0 / 5. Vote count: 0

Ainda não há votos! Seja o primeiro a avaliar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *