A ofensiva dos EUA no Irã eleva o barril do petróleo, acende o alerta para o bolso dos eleitores e pode azedar a disputa legislativa para o partido de Trump em novembro.
A recente ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã, que elevou significativamente os preços do petróleo no mercado internacional, representa um desafio político considerável para o presidente Donald Trump.
Com as eleições legislativas de meio de mandato se aproximando em novembro, o impacto direto no custo de vida dos americanos, especialmente no preço da gasolina, pode influenciar decisivamente o humor do eleitorado.
A alta nos preços da energia já gera insatisfação e ameaça a maioria republicana no Congresso, conforme informações divulgadas pelo g1.
A Disparada do Petróleo e o Impacto no Eleitor Americano
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o barril de petróleo saltou para até US$ 120, o maior valor desde 2022. Embora tenha recuado, ele se mantém na casa dos US$ 100, um patamar ainda bastante elevado.
Essa escalada se traduz em gasolina e diesel mais caros, gerando um efeito cascata que pressiona os preços de diversos produtos nos EUA e amplia a insatisfação popular.
O presidente Trump tem buscado ativamente formas de conter essa alta, ciente do impacto direto no bolso dos eleitores e das consequências para seu partido nas urnas.
Uma pesquisa Ipsos/Reuters, divulgada na última segunda-feira (9), revelou que 67% dos americanos acreditam que os preços da gasolina vão subir no próximo ano por causa do conflito.
Além disso, seis em cada 10 entrevistados avaliam que as ações militares dos EUA contra o Irã devem se prolongar, o que adiciona uma camada de incerteza e preocupação.
Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, observa que o humor do eleitor, que já vinha se deteriorando em relação a Trump, tende a piorar com este cenário.
Ela explica que o presidente tenta transmitir a mensagem de que a guerra será contida, o Estreito de Ormuz controlado e os preços e o abastecimento equilibrados para acalmar a população.
Estreito de Ormuz: O Nó da Questão Energética
O Estreito de Ormuz é uma rota marítima vital, responsável pela passagem de cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e aproximadamente um quinto do comércio global de gás natural liquefeito (GNL).
A região registrou uma forte queda no tráfego de navios nos últimos dias, após o Irã anunciar o bloqueio da área e realizar ataques a petroleiros, intensificando a crise.
Especialistas avaliam que o governo americano calculou mal a intervenção no Irã, sendo surpreendido pela capacidade de resposta e resiliência do exército iraniano.
Segundo Denilde Holzhacker, o cálculo inicial era de uma guerra rápida, com uma intervenção que levaria à queda do aiatolá e à substituição por uma liderança mais alinhada aos EUA.
O uso do Estreito de Ormuz como ferramenta de pressão sobre aliados dos EUA e sobre o próprio governo americano também pegou Washington de surpresa, forçando um recálculo de sua estratégia.
Desafio Eleitoral e a Narrativa Econômica de Trump em Xeque
Em novembro, os EUA terão eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, onde serão escolhidas as 435 cadeiras da Câmara e 35 do Senado. Atualmente, os republicanos controlam ambas as casas do Congresso.
Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional, avalia que a disparada do petróleo ocorre em um momento especialmente desfavorável para o governo Trump.
O presidente vinha tentando sustentar uma narrativa de economia forte e energia mais barata no mercado interno, que agora é posta em xeque.
Dados da associação automobilística AAA, citados pelo jornal britânico Financial Times, mostram que o preço da gasolina subiu mais de 20% desde o início da guerra, atingindo o nível mais alto dos dois mandatos de Trump.
Aragão lembra que, além da alta nos preços, os EUA já enfrentavam perda de empregos e volatilidade econômica, um cenário que amplia o descontentamento com o impacto da guerra no bolso dos consumidores.
“Isso acaba transformando o preço da energia em uma espécie de termômetro imediato do eleitor, sobretudo em um ano eleitoral”, afirma o especialista, que também é professor de Relações Internacionais da Marymount University.
Economistas em Washington estimam que um aumento de 10% no preço do petróleo pode reduzir em cerca de 0,2 ponto percentual o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Ao mesmo tempo, bancos calculam que uma alta de US$ 10 no barril pode adicionar cerca de 0,1 ponto à inflação, funcionando, na prática, como um imposto sobre as famílias, comprimindo a renda disponível.
“Isso gera um impacto muito grande nos eleitores de média e baixa renda, especialmente nos independentes, nem democratas nem republicanos, mas decisivos nos estados-pêndulo”, explica Aragão.
Carolina Moehlecke, coordenadora do mestrado profissional em Relações Internacionais da FGV, também considera o cenário bastante prejudicial para Trump, lembrando que a pressão sobre os preços foi crucial para a queda de popularidade do ex-presidente Joe Biden em 2024.
“É um eleitorado que está bastante preocupado com isso agora e que tem observado aumentos rápidos e constantes de preços nos últimos tempos”, diz Moehlecke.
Medidas para Conter a Crise e o Cenário Político Pós-Eleições
Preocupado com os preços, Trump decidiu afrouxar temporariamente as sanções ao petróleo russo, impostas em fevereiro de 2022, e afirmou que até 200 milhões de barris da Venezuela serão destinados aos EUA para refino.
Outra medida importante partiu da Agência Internacional de Energia (AIE), cujos 32 países-membros concordaram em disponibilizar 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas de emergência para conter a alta dos combustíveis, na maior liberação da história da agência.
No entanto, David Fyfe, economista-chefe da Argus, avalia que a eficácia dos estoques estratégicos para acalmar os preços depende da duração das restrições à navegação no Estreito de Ormuz.
“Estoques estratégicos, por si só, serão insuficientes para evitar novas altas de preços se a navegação no Estreito permanecer intensamente restrita por um período prolongado”, afirma Fyfe.
Os republicanos detêm uma maioria estreita na Câmara, com 220 cadeiras contra 213 dos democratas, e no Senado, com 53 a 47. Essa margem apertada torna a disputa de novembro ainda mais acirrada, especialmente no Senado, que pode ter uma corrida mais competitiva do que o previsto.
Carolina Moehlecke aponta que a quebra de promessas de Trump de evitar conflitos externos também pode prejudicá-lo, já que o novo conflito no Irã é mais difícil para o eleitor compreender em comparação com ataques anteriores.
Caso os republicanos percam a maioria na Câmara e no Senado, Trump enfrentará maior resistência no Legislativo, perdendo a capacidade de aprovar projetos e, segundo Denilde Holzhacker, podendo até enfrentar processos de impeachment.
Thiago de Aragão acrescenta que uma eventual maioria democrata poderia bloquear prioridades de Trump, como cortes de impostos e mudanças na regulamentação ambiental, além de abrir diversas investigações contra ele.
“Se o Senado passar a ter maioria democrata, aí sim o poder é muito maior: eles podem travar indicações para o Judiciário e cargos-chave no Executivo. Esse seria o pior pesadelo de Trump”, conclui Aragão.
Moehlecke ressalta que o resultado das eleições legislativas também influenciará o ciclo político que levará à disputa presidencial de 2028. Contudo, ela alerta que ainda faltam oito meses para o pleito, e a situação no Oriente Médio pode tanto se estabilizar quanto piorar, alterando o tabuleiro eleitoral.
