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EUA vendem petróleo venezuelano e enviam bilhões ao governo Delcy Rodríguez: entenda o novo e polêmico mecanismo que impacta a economia da Venezuela

Em uma reviravolta geopolítica surpreendente, os Estados Unidos, sob a administração Trump, iniciaram a venda de petróleo venezuelano, um movimento que redefine a relação econômica entre os dois países e gera sentimentos mistos na Venezuela.

A ação veio após a captura do então presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro, quando o presidente americano, Donald Trump, anunciou que seu país assumiria o controle da indústria petrolífera venezuelana.

Este novo e complexo mecanismo de comercialização e distribuição de receitas, que já movimenta bilhões de dólares, busca estabilizar a economia do país sul-americano, mas levanta importantes questões sobre transparência e soberania, conforme informação divulgada pelo g1.

O Início do Controle Americano sobre o Petróleo Venezuelano

A decisão de Washington de intervir na indústria petrolífera da Venezuela foi recebida com uma mistura de surpresa e incerteza. Donald Trump justificou a medida afirmando que “o negócio do petróleo na Venezuela tem sido um fracasso” e prometeu que “grandes companhias petrolíferas americanas” investiriam bilhões para recuperar a infraestrutura e gerar lucro para o país.

A indústria petrolífera venezuelana, historicamente um pilar da economia, sofreu um declínio acentuado devido a desinvestimento, corrupção e sanções internacionais. A intervenção americana, portanto, acende um debate sobre a propriedade e o controle de um recurso vital para a identidade nacional venezuelana.

Recentemente, o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, visitou a Venezuela, sendo a autoridade americana de mais alto escalão a fazê-lo em mais de duas décadas. Ele se reuniu com Delcy Rodríguez, presidente interina, e reafirmou o compromisso de Trump em transformar a relação para “trazer comércio, paz, prosperidade, empregos e oportunidades ao povo da Venezuela em parceria com os Estados Unidos”.

Como os EUA Estão Comercializando o Petróleo Bruto

Poucos dias após a prisão de Maduro, Trump anunciou que o governo de Delcy Rodríguez entregaria entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA, volume equivalente a um ou dois meses da produção venezuelana atual. O petróleo bruto seria vendido a preços de mercado, com o controle da receita pelos EUA para “garantir que ela seja usada em benefício do povo da Venezuela e dos EUA”.

O Departamento de Energia dos EUA (DOE) confirmou o início das negociações, indicando que o mecanismo seria aplicado indefinidamente. A estatal petrolífera venezuelana, PDVSA, comparou o acordo a um já existente com a Chevron, afirmando que se baseia em uma “transação estritamente comercial, com critérios de legalidade, transparência e benefício para ambas as partes”.

Para executar as vendas, os EUA contataram empresas como a Vitol e a Trafigura, gigantes do comércio de commodities. Essas empresas adquiriram o petróleo a um preço cerca de US$ 15 abaixo do Brent e o venderam a refinarias na Costa do Golfo dos EUA por um valor entre US$ 8 e US$ 9 menor que o Brent. Historicamente, o petróleo venezuelano é vendido com um desconto de US$ 5 a US$ 15 em relação ao Brent.

O Secretário de Estado americano, Marco Rubio, explicou que a venda era crucial porque a Venezuela estava ficando sem capacidade de armazenamento, devido ao bloqueio marítimo imposto por Trump em dezembro, e precisava de dinheiro para cobrir despesas essenciais. Rubio destacou que o petróleo está sendo vendido a preços de mercado, superiores aos que o país recebia antes da prisão de Maduro, quando a China o obtinha com um desconto de cerca de US$ 20 por barril, sem pagamento em dinheiro, mas para amortizar dívidas.

O Destino do Dinheiro: Fundo Fiduciário no Catar

Em meados de janeiro, a primeira venda de petróleo bruto venezuelano, avaliada em US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões), foi confirmada. No entanto, esse dinheiro não está sob o controle direto das autoridades venezuelanas, mas sim dos Estados Unidos.

Asdrúbal Oliveros, economista e consultor empresarial venezuelano, explicou à BBC News Mundo que o dinheiro é depositado em uma conta do Banco Central da Venezuela (BCV) no JP Morgan, e de lá é transferido para uma conta no Catar, funcionando como um fundo fiduciário entre os EUA e o governo venezuelano. “De lá, o dinheiro é distribuído a bancos venezuelanos para a venda de dólares no mercado de câmbio ou para cobrir as necessidades do país, sujeito à aprovação prévia dos Estados Unidos e do fundo fiduciário”, detalhou Oliveros.

Marco Rubio esclareceu que a decisão de enviar os fundos para o Catar visava resolver uma dificuldade legal, já que os EUA não reconhecem a legitimidade do governo venezuelano e queriam evitar que credores da dívida venezuelana tentassem assumir o controle desses recursos. Segundo Rubio, “se qualquer quantia desse dinheiro chegasse a um banco americano, mesmo que estivesse em uma conta em nome de venezuelanos, seria imediatamente congelada por vários credores”.

Como as Receitas Chegam à Economia Venezuelana

Os fundos estão sendo alocados na economia venezuelana por meio de leilões realizados pelo Banco Central da Venezuela (BCV). Empresas e indivíduos podem acessar esses recursos através de quatro bancos venezuelanos, apresentando a documentação necessária e indicando a quantidade de dólares desejada e o preço que estão dispostos a pagar.

O BCV é quem decide, em última instância, quem recebe a moeda estrangeira, em que montante e a que preço. Segundo o economista Alejandro Grisanti, da consultoria Ecoanalítica, até 30 de janeiro, 80% dos fundos foram destinados a setores prioritários, como alimentos e medicamentos, 15% a outros setores produtivos e 5% a pessoas físicas.

Marco Rubio afirmou que esses orçamentos mensais são apresentados pelo governo de Delcy Rodríguez aos EUA, que informam para que o dinheiro não pode ser usado. Ele destacou a cooperação venezuelana, que se comprometeu a usar parte considerável dos recursos para comprar medicamentos e equipamentos diretamente dos EUA. Além disso, os EUA estão desenvolvendo um mecanismo de auditoria posterior, pago com recursos venezuelanos, para verificar a utilização do dinheiro.

Transparência e o Impacto Econômico

Apesar dos benefícios potenciais, a falta de transparência é uma das maiores preocupações em torno desse processo. David L. Goldwyn, presidente da Goldwyn Global Strategies, questiona: “Não sabemos claramente quem aprova a distribuição dos fundos, quais critérios são usados para garantir que o dinheiro seja realmente destinado à compra de alimentos, combustível ou ao pagamento de salários, e quanta supervisão ou prestação de contas existe”.

Asdrúbal Oliveros concorda que o sistema de leilão precisa ser aprimorado para ser mais transparente, com regras claras para participação e definição da taxa de câmbio. Ele observa que o BCV ainda não reflete plenamente os resultados dos leilões em sua taxa de câmbio diária. No entanto, Oliveros acredita que esses mecanismos representam um avanço em relação ao cenário anterior, marcado por dificuldades na venda de petróleo e pagamentos opacos.

Até o momento, o BCV leiloou aproximadamente US$ 800 milhões, com uma projeção de US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026. Este volume, comparável ao período natalino de 2025, é um sinal positivo para a economia, fortalecendo a estabilidade do mercado cambial e reduzindo o risco de desvalorizações abruptas, segundo Alejandro Grisanti. Goldwyn também aponta efeitos anticorrupção e o aumento da disponibilidade de moeda estrangeira, que estancou a desvalorização do bolívar.

A perspectiva de médio prazo, para Oliveros, é de maior estabilidade cambial, redução da inflação e impacto positivo no crescimento, permitindo que o setor privado opere em melhores condições e impulsionando melhorias em serviços essenciais. Contudo, Goldwyn alerta que o sistema ainda precisa provar sua eficácia em volumes maiores e que a Venezuela necessita de muito mais receita para alcançar a estabilização econômica completa.

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