Descubra o complexo caminho legal e financeiro para ter um carro exclusivo, como um Tesla Cybertruck ou um Cadillac, na sua garagem brasileira, mesmo sem representação oficial da marca.
Ver um Tesla rodando pelas ruas do Brasil pode gerar curiosidade, afinal, a montadora americana não possui operação oficial de vendas no país. No entanto, é totalmente possível ter um desses veículos elétricos de alta tecnologia ou outros modelos de luxo não disponíveis por aqui.
O segredo reside na importação independente, um processo que, embora legal, é repleto de etapas burocráticas e envolve custos significativos que podem dobrar o valor original do veículo. Essa modalidade permite a pessoas físicas e jurídicas trazerem carros para uso próprio, desde que sigam rigorosamente a legislação brasileira.
Empresas especializadas oferecem consultoria para navegar por essa jornada complexa, que exige aprovações de órgãos como Ibama e Denatran, além de uma série de impostos. As informações sobre esse processo detalhado foram divulgadas pelo g1.
O Desafio da Importação Independente: Muita Burocracia
O primeiro passo para importar um carro é escolher o modelo e verificar se ele se enquadra no critério de “novo”. A lei não estabelece um limite exato de quilometragem, mas na prática, a alfândega aceita veículos com cerca de 300 km rodados. Em alguns casos, o emplacamento na fábrica de origem pode complicar a situação.
Em seguida, é fundamental comprovar a compatibilidade da renda do CPF com o valor da compra, garantindo transparência fiscal. O Ibama também desempenha um papel crucial, emitindo a Licença de Importação. Se o veículo não atender às rigorosas regras de emissões e ruído brasileiras, ele pode ser barrado nessa fase.
A burocracia não para por aí, pois o Denatran exige a emissão do Certificado de Adequação à Legislação de Trânsito, o CAT, que atesta a conformidade do veículo com as normas nacionais. Natel Valério, diretor comercial da Direct Imports, afirma que, felizmente, ainda não tiveram carros barrados por não atenderem às exigências do Ibama ou do Denatran.
“São muitas etapas e documentos. Por isso, os clientes buscam nossa assessoria e, muitas vezes, optam por fazer a operação pela nossa empresa. Isso agiliza a conclusão da compra”, explica Valério. Depois de todas essas aprovações, é necessário registrar a Declaração de Importação no Sistema de Comércio Exterior, um sistema da Receita Federal.
Jair De Paula Machado Júnior, sócio de uma empresa de assessoria aduaneira, complementa que, com carros zero quilômetro, não há problemas de homologação para a legislação brasileira. Ele destaca, entretanto, que carros a diesel demandam mais atenção por precisarem atender à legislação mais recente de emissões, caso contrário, o Ibama poderia barrar a importação.
Impostos e Custos Elevados: O Preço da Exclusividade
Todo o processo de importação independente, desde a escolha do veículo até a chegada ao Brasil, pode levar até 90 dias, caso o carro esteja pronto no país de origem. Além da extensa documentação, os custos são um fator determinante. Há o transporte, que inclui embarque, envio em navio cargueiro e desembarque no Brasil.
“Para um veículo de US$ 100 mil, as taxas de aduana e transporte podem, somadas, ficar entre R$ 80 mil e R$ 120 mil”, detalha Natel Valério. É comum que o preço final do veículo praticamente dobre ao somar o Imposto de Importação, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), ICMS, taxas aduaneiras e todos os custos de documentação.
Um exemplo notável é o Tesla Cybertruck. Valério conta que sua empresa vendeu uma unidade em outubro de 2025 por cerca de R$ 900 mil, enquanto nos EUA, a versão topo de linha do modelo custa US$ 115 mil, aproximadamente R$ 600 mil. Com toda a documentação regularizada e impostos pagos, o veículo segue para o registro e emplacamento no Detran, como qualquer outro carro nacional.
Manutenção, Garantia e Combustível: As Dores de Cabeça Pós-Compra
A jornada de ter um carro importado de forma independente não termina com o emplacamento. Um dos maiores desafios é a ausência de garantia da fabricante no Brasil. Por exemplo, a Honda não tem obrigação de oferecer garantia ou fornecer peças e manutenção para modelos da Acura no país, mesmo sendo proprietária da marca.
Isso se aplica até a modelos vendidos oficialmente. Se alguém importar um Mustang com motor 2.3 turbo, a Ford não é obrigada a prestar atendimento de garantia como faria com um Mustang GT comercializado pela própria marca no país. Portanto, quem adquire um importado independente precisa estar ciente de que peças e manutenção tendem a ser mais caras e complexas.
Natel Valério explica que a Direct Imports também auxilia seus clientes nos trâmites para importar peças de reposição. Os proprietários geralmente buscam oficinas especializadas e providenciam os componentes, que podem levar até 30 dias para chegar ao Brasil. Outro ponto de atenção é que esses carros não foram desenvolvidos especificamente para rodar com o combustível brasileiro.
Embora atendam às exigências do Ibama, componentes de alta tecnologia podem ser afetados pelo combustível nacional, que contém cerca de 30% de etanol. Essa maior concentração de etanol é mais corrosiva e exige adaptações das montadoras. Além disso, os ajustes de suspensão desses veículos não são pensados para as condições das estradas brasileiras.
Vale a Pena a Importação? O Perfil do Cliente Exclusivo
Apesar dos altos custos e da complexidade, alguns clientes optam pela importação independente para realizar uma extravagância, ter na garagem um carro que poucas pessoas possuem. Os valores, prazos e condições geralmente não são vantajosos para modelos mais acessíveis, tornando a opção mais comum para marcas de luxo.
É por isso que marcas como Cadillac, Tesla e Hummer estão entre as mais procuradas. “Já tivemos vários clientes procurando por Cadillac Escalade”, conta Jair De Paula Machado Júnior. Ele acrescenta que há clientes que trazem desde versões customizadas do Mercedes-Benz Classe S até picapes robustas como a Toyota Tundra.
Esses exemplos mostram que muitos buscam configurações e opcionais não oferecidos no Brasil, mesmo quando as marcas têm operação no país. É importante lembrar que esses veículos passam pelo mesmo processo e não ficam sob responsabilidade das fabricantes, mesmo que a marca tenha representação oficial no mercado nacional.
