A alta concorrência, etapas intermináveis e a falta de feedback transformam a busca por emprego no Brasil em um labirinto, frustrando candidatos e desafiando o mercado, apontam G1 e LinkedIn.
Apertar o botão de ‘enviar candidatura’ virou sinônimo de um compromisso informal com o tempo e a incerteza para milhões de brasileiros. Formulários extensos, testes complexos e várias etapas de um processo seletivo que, muitas vezes, termina em um silêncio prolongado.
Essa sensação de caminhar no escuro durante a busca por emprego não é um caso isolado. Uma pesquisa global do LinkedIn revela que o Brasil lidera a percepção de que os processos seletivos são longos demais, com 77% dos entrevistados, e impessoais, com 60%.
Seis em cada dez brasileiros acreditam que buscar um trabalho ficou mais difícil no último ano, um cenário complexo que levanta questões sobre a eficácia e humanidade dos processos de contratação, conforme informações divulgadas pelo G1.
Por que a busca por emprego ficou tão desafiadora no Brasil?
Os dados do LinkedIn são claros: o aumento da concorrência, mencionado por 55% dos entrevistados, e a percepção de processos seletivos mais exigentes, citada por 50%, são os principais motivos para a dificuldade. Isso reflete um mercado de trabalho em constante movimento.
Apesar do desemprego estar nos menores níveis da série histórica do IBGE, há uma intensa mobilidade profissional. Trabalhadores mais confiantes buscam novas oportunidades, seja por melhores salários, flexibilidade ou crescimento de carreira, como já mostrou o G1.
Além disso, 54% dos brasileiros planejam procurar uma nova oportunidade em 2026, segundo o LinkedIn. Na prática, isso significa um número significativamente maior de candidatos disputando a mesma vaga, elevando a pressão sobre os processos.
Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, explica que as empresas lidam com mais perfis, muitos deles de profissionais já empregados. Isso exige comparações mais cuidadosas e decisões estratégicas.
Contudo, a concorrência não é o único fator. Beck destaca que muitas organizações operam com equipes mais enxutas e processos internos de aprovação que são mais demorados, contribuindo para a lentidão generalizada.
Onde os processos seletivos realmente emperram?
Jhennyfer Coutinho, chefe da experiência para pessoas candidatas da Gupy, esclarece que a lentidão não se deve apenas ao volume de candidatos, mas à estrutura das etapas. Uma triagem eficiente pode lidar com milhares de candidaturas, mas os gargalos reais surgem nas validações humanas.
Entrevistas, reuniões com gestores e decisões finais dependem de agendas, alinhamentos internos e critérios subjetivos. É nesse ponto que o relógio da contratação desacelera, segundo a especialista.
Thomas Costa, head de growth da Redarbor, que inclui plataformas como Catho e InfoJobs, concorda. Ele aponta que, mesmo com a tecnologia entregando uma lista enxuta de candidatos potenciais, a fase de escolha humana é complexa e demorada.
Para as empresas, o processo continua ativo, mesmo que silencioso para o candidato. Profissionais já empregados, por exemplo, não têm a mesma urgência para responder ou marcar entrevistas, o que impacta a velocidade.
Adicionalmente, o custo de uma contratação equivocada é alto, especialmente em funções estratégicas. Isso leva as empresas a alongar etapas, envolver mais decisores e aprofundar análises, resultando em um processo mais cauteloso.
Dados da Gupy indicam que cada etapa adicional em um processo seletivo aumenta em 13% o tempo estimado para o preenchimento da vaga. Por isso, a plataforma limita a oito o número de etapas configuráveis, buscando equilibrar rigor e agilidade.
Inteligência Artificial: aliada ou vilã na triagem de currículos?
A inteligência artificial (IA) acelerou as etapas iniciais, triando currículos, mas gerou uma nova tensão para os candidatos. Muitos sentem que algoritmos filtram perfis sem considerar contexto ou potencial.
A engenheira de produção Samanta Santos, que busca emprego há meses, relata essa frustração: “O robô afunila demais. Se não tem a palavra certa, o currículo cai. Ele não vê o potencial, não vê que a experiência conversa com a vaga”.
A pesquisa do LinkedIn mostra que, embora a IA possa reduzir vieses, há um incômodo com a falta de transparência. No Brasil, 29% dos entrevistados não entendem como a IA é usada nos processos seletivos, e 28% questionam a justiça da análise.
Plataformas como Gupy e Redarbor, no entanto, explicam que a IA não elimina candidatos, mas organiza os perfis pela aderência à vaga. Todos permanecem visíveis, mas em processos com milhares de inscritos, os perfis nas últimas posições raramente são avaliados, criando a percepção de que o “robô derruba”.
O silêncio das empresas e o desgaste emocional dos candidatos
Entre todas as dores relatadas por quem busca trabalho, a falta de retorno é a mais persistente. A frustração é tão grande que hashtags como #venceragupy se tornaram símbolo do desgaste emocional nas redes sociais.
A Gupy reconhece o peso dessa percepção. Em 2024, a plataforma registrou 36 milhões de inscrições para cerca de 1 milhão de vagas, evidenciando um funil naturalmente estreito.
Diante da sensação de “vagas fantasmas”, anúncios que permanecem abertos sem intenção real de contratação, a Gupy passou a fechar trimestralmente vagas inativas. Em um desses processos, identificou 24 mil vagas sem movimentação, que somavam 4 milhões de candidaturas.
A Redarbor observa um fenômeno semelhante, onde empresas mantêm processos abertos em silêncio como estratégia para reaproveitar candidatos no futuro, sem descartá-los formalmente, segundo Thomas Costa.
O que pode mudar para acelerar a contratação?
Para os especialistas, acelerar os processos seletivos depende menos de tecnologia e mais de escolhas. Muitos gargalos persistem porque empresas mantêm etapas que não se justificam, por tradição ou excesso de cautela.
A transparência é outro ponto central. Processos sigilosos, onde o candidato não sabe quantas fases existem, o tempo estimado de cada uma ou o que está sendo avaliado, alimentam a percepção de desorganização.
“Informar o caminho, mesmo que de forma simples, reduz ruído, alinha expectativas e torna a experiência menos desgastante”, afirma Jhennyfer Coutinho. A comunicação, mesmo que mínima, é crucial para devolver ao candidato a noção de acompanhamento humano.
Em um mercado onde o tempo investido em cada processo é alto, não responder deixa de ser apenas uma falha. Passa a ser parte do problema. Enquanto isso, Samanta Santos, mãe de dois filhos, segue tentando há quase seis meses: “Uma hora vai. Só queria que o caminho fosse menos escuro”.
