Desigualdade Sistêmica: Como a falta de acesso a condições de resfriamento agrava os riscos do calor extremo em bairros e cidades globalmente
Enquanto algumas pessoas desfrutam da brisa do mar e de bebidas geladas em uma tarde de verão, milhões em outras partes do mundo, muitas vezes a poucos quilômetros de distância, enfrentam um calor sufocante e perigoso. Este contraste brutal revela uma realidade alarmante conhecida como pobreza de refrigeração.
É um problema que vai muito além de ter ou não um ar-condicionado. Ela expõe as profundas desigualdades em infraestrutura e acesso a recursos, tornando o calor extremo não apenas desconfortável, mas uma ameaça direta à vida e ao bem-estar.
Regiões inteiras e comunidades dentro das mesmas cidades são desproporcionalmente afetadas, com consequências devastadoras para a saúde e a economia. Compreender a pobreza de refrigeração é fundamental para abordar a crise climática de forma justa, reconhecendo que a vulnerabilidade ao calor não é um acaso, mas resultado de decisões e políticas. As informações a seguir foram divulgadas por The Conversation Brasil, com base em um estudo recente sobre o tema.
O Que Define a Pobreza de Refrigeração?
A pobreza de refrigeração não se resume à capacidade individual de comprar um aparelho de ar-condicionado. Conforme um novo estudo, ela é definida pela forma como a infraestrutura, as instituições e o próprio design do ambiente expõem as pessoas ao calor prejudicial, falhando em protegê-las.
É uma condição generalizada e desigual, predominantemente em países em desenvolvimento. O estudo revela que, entre os 3 bilhões de pessoas analisadas, quase 600 milhões enfrentam níveis graves de pobreza sistêmica de refrigeração em 28 países.
O sul da Ásia e a África Subsaariana suportam o maior fardo, evidenciando a concentração da vulnerabilidade em certas regiões. Países que enfrentam calor extremo semelhante podem apresentar resultados diferentes.
A Indonésia e Bangladesh, por exemplo, lidam com a exposição a um calor úmido perigoso que afeta quase toda a sua população. No entanto, a infraestrutura física e os serviços de saúde mais robustos da Indonésia se traduzem em níveis mais baixos de pobreza sistêmica de refrigeração.
As Ilhas de Calor Urbanas e a Desigualdade de Acesso
Em cidades como o Rio de Janeiro, a desigualdade é gritante. Enquanto a praia de Ipanema oferece brisa e sombra, a poucos metros, favelas como o Vidigal se tornam verdadeiras ilhas de calor.
Telhados de metal, ausência de parques e a falta de redes de transporte público formal contribuem para essa realidade. Nestes locais, milhares de pessoas vivem em condições de calor intenso.
Nos subúrbios e comunidades mais pobres, as noites são igualmente sufocantes. As calçadas de concreto irradiam calor por horas após o pôr do sol, e a ausência de espaços públicos frescos, bebedouros ou fontes de água potável torna o calor extremo inevitável e mais perigoso.
Este problema não é exclusivo do Brasil. No verão passado, a Europa enfrentou ondas de calor recordes, com a Espanha registrando 46°C e Portugal 46,6°C. A França teve o segundo junho mais quente desde 1900.
Nos EUA, mais de 150 milhões de pessoas enfrentaram alertas de calor extremo. No sul da Ásia, África Ocidental e no resto da América Latina, o calor extremo não é apenas sazonal, mas uma constante ameaça.
A vulnerabilidade é moldada por infraestruturas físicas, como edifícios, ruas e espaços verdes, e sociais, como serviços de saúde e redes de apoio. Moradores de áreas mais pobres frequentemente têm menos acesso a ar-condicionado, ruas arborizadas e moradias com isolamento térmico adequado, intensificando a pobreza de refrigeração.
Além do Ar-Condicionado: Um Olhar Crítico sobre as Soluções
Enquadrar o ar-condicionado como a única resposta ao calor extremo é problemático. O acesso a essa tecnologia é extremamente desigual globalmente e dentro dos países, com grande parte da população mundial simplesmente sem acesso.
Além disso, o uso de ar-condicionado consome muita energia. Ele pode aumentar as contas anuais de eletricidade das famílias em mais de um terço, em média, sobrecarregando as redes elétricas em picos de demanda.
Esse aumento na demanda acelera as mudanças climáticas, retroalimentando a crise do calor e elevando ainda mais as temperaturas externas. A produção e o descarte desses aparelhos também têm um custo ambiental significativo, com o risco de liberação de materiais perigosos no solo, na água e no ar.
É crucial entender que os principais fatores que determinam se o calor se torna perigoso são as condições em que as pessoas nascem e vivem. Onde se mora, como o bairro é construído, a presença de árvores ou água potável pública, a ventilação da casa e a proteção no local de trabalho, tudo isso influencia diretamente a sobrevivência.
A perda de conhecimentos ancestrais e práticas intergeracionais de convivência com o calor, muitas vezes substituídas pela dependência do ar-condicionado, também contribui para a vulnerabilidade, deixando as pessoas mais expostas e menos resilientes.
Vozes da Vulnerabilidade: Histórias da Pobreza de Refrigeração
Desde 2020, um projeto sobre a pobreza de refrigeração entrevistou 80 pessoas em subúrbios de baixa renda e favelas do Rio de Janeiro. Dezenove delas mantiveram diários online sobre suas experiências diárias com o calor extremo, coletando fotos, desenhos, memes e notas de voz.
As histórias revelam a dura realidade. Cuidadores precisaram mudar suas rotinas para realizar trabalhos domésticos nas horas mais frescas do amanhecer e do entardecer. Vendedores ambulantes alteraram locais e rotas de trabalho.
Para um morador com deficiência motora, banhos frios, a estratégia de resfriamento mais imediata, não são viáveis. Ele relatou que suas contas de luz triplicam no verão devido à dependência do ar-condicionado, e a inaccessibilidade impede idas a praias ou cachoeiras.
Mulheres trans, por sua vez, enfrentam discriminação social que as impede de acessar espaços públicos com sombra ou frescor. O risco de assédio em banheiros públicos as leva a limitar a ingestão de água, transformando o calor em um perigo físico sem saída segura para elas.
Rumo à Justiça Térmica: Um Chamado à Ação Coordenada
A pobreza sistêmica de refrigeração não é um acaso. É um resultado direto de decisões de planejamento urbano que eliminam áreas verdes, políticas habitacionais que permitem edifícios mal ventilados e leis trabalhistas que deixam trabalhadores ao ar livre desprotegidos.
Sistemas de saúde pública que falham com os mais expostos também contribuem para o problema. Reformular a pobreza de refrigeração nos leva à ideia de justiça térmica.
Isso significa não apenas reduzir a exposição ao calor, mas fazê-lo de forma justa, responsabilizando as pessoas e instituições cujas políticas e decisões de planejamento tornaram alguns bairros mais quentes e algumas famílias menos capazes de se refrescar.
Ao questionar ‘quem projetou essas condições?’, podemos identificar quem detém o poder de mudá-las. Respostas eficazes exigem uma ação coordenada entre planejamento urbano, saúde pública, habitação e regulamentação trabalhista.
Isso inclui a ampliação do acesso à água potável, a reforma de edifícios, o plantio de árvores e a redução da discriminação. É fundamental que as pessoas mais afetadas ajudem a projetar essas soluções.
Suas experiências diárias com o calor revelam a verdadeira dimensão do problema e apontam os caminhos para alcançar a justiça térmica para aqueles que correm maior risco com o calor extremo.
