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Preço do café em reviravolta: tradicional cai, mas descafeinado e especial disparam mais de 15%. A Abic revela os motivos por trás da alta e baixa no mercado.

Enquanto a expectativa de uma colheita robusta em 2026 derruba valores da maioria dos tipos, custos de produção e importação impulsionam categorias premium.

O mercado de café no Brasil apresenta um cenário de contrastes em abril, com a maioria das categorias registrando queda nos preços. Essa é uma notícia bem-vinda para os consumidores, que enfrentaram anos de alta nos valores dos grãos.

A principal razão para essa tendência de baixa é a expectativa otimista de uma colheita mais farta para o ano de 2026. No entanto, nem todos os tipos de café seguiram essa direção de barateamento.

Duas categorias em particular, o café descafeinado e o café especial, tiveram aumentos significativos, superando 15% em seus valores médios. Essa dinâmica peculiar reflete particularidades nos processos de produção e distribuição de cada segmento, conforme informações divulgadas pelo g1, baseadas em dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).

A Queda Generalizada dos Preços do Café

Para a alegria dos amantes do dia a dia, o preço do café tradicional e extraforte registrou uma queda notável de 15,5% em abril. Comparado ao mesmo período do ano passado, o quilo agora custa, em média, R$ 55,34.

Outras categorias de café também acompanharam essa tendência de baixa. O café superior, por exemplo, teve um recuo de 12,6%, sendo comercializado a R$ 70,37. Já o café gourmet cedeu 3,7%, com seu preço médio fixado em R$ 106,66.

A queda foi generalizada, alcançando até mesmo formatos mais específicos e que ganharam popularidade nos últimos anos. O café em cápsula ficou 9,4% mais barato, com o quilo custando em média R$ 364,16.

O drip coffee, por sua vez, registrou uma queda de 5,2%, com preço médio de R$ 238,38. Apenas o café solúvel manteve-se praticamente estável no período, com leve alta de 0,5%, chegando a R$ 224,99.

Descafeinado e Especial: Por Que a Alta Contrária?

Em contraste com a queda da maioria, o café descafeinado viu seu preço disparar 21% em relação a abril do ano passado, alcançando R$ 114,93. Celírio Inácio da Silva, diretor-executivo da Abic, explica os motivos por trás dessa alta.

Segundo Silva, o processo de descafeinação é considerado complexo e caro, sendo majoritariamente realizado no exterior, principalmente na Suíça. Os custos de envio do café para fora e de seu processamento ainda não diminuíram, impactando o valor final.

“O café é enviado ao exterior para passar pelo processo de descafeinação e depois retorna ao Brasil”, detalha o diretor da Abic. Ele acrescenta que o Brasil ainda possui poucas indústrias capazes de fazer a descafeinação em larga escala, citando Cocam, Eisa e a recente DM Descafeinadores do Brasil.

Outro fator que contribui para o encarecimento do café descafeinado é o seu público mais restrito. Diferente do café em cápsula, que também é importado em grande parte, mas se popularizou e barateou, o descafeinado ainda não atingiu essa escala.

O café especial, segmento mais premium do mercado, também teve uma alta expressiva de 16,8%, chegando a R$ 161,26. Silva atribui esse aumento aos altos custos de produção necessários para atingir a pontuação que o classifica como “especial”.

“Para obter um café com a pontuação necessária para ser classificado como ‘especial’, o produtor precisa gastar muito mais do que gastaria com o café comum. Essa diferença de custo no campo se reflete diretamente no preço final”, afirma o diretor da Abic.

Além disso, o café especial não é produzido em larga escala, ao contrário dos cafés tradicionais. Com um volume menor, os custos de produção e manutenção não são diluídos da mesma forma que acontece nas grandes lavouras.

Silva destaca que o café especial representa apenas 1% do consumo total de café no Brasil. “Por ser um mercado muito restrito e com uma diferença de preço considerável em relação ao café do dia a dia, ele ainda não atingiu um patamar de distribuição que permita a redução dos preços”, explica.

A Abic, inclusive, tem trabalhado em parceria com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) para ampliar a distribuição desses cafés pelo país, buscando maior acessibilidade e, consequentemente, uma possível moderação nos preços futuros.

Perspectivas para o Consumo e o Futuro do Mercado

A queda nos preços do café do dia a dia é um sinal de recuperação após anos de desafios. Problemas climáticos, como secas, calor intenso e geadas entre 2021 e 2024, afetaram severamente as lavouras, reduzindo a produção.

Celírio Inácio da Silva lembra que, “em 2024, o preço da matéria-prima (grão de café) teve um aumento severo, ultrapassando 120%. Isso resultou em um repasse direto de mais de 73% para as prateleiras em 2025, o que assustou o consumidor”.

Essa disparada de preços levou a uma queda de 5% no consumo de café de janeiro a abril de 2025, em relação ao mesmo período de 2024. Contudo, os quatro primeiros meses de 2026 já mostram uma inversão, com o consumo aumentando 2,44%, segundo a Abic.

“A recuperação começou a se desenhar em setembro de 2025, quando a florada indicou uma boa produção para a safra seguinte”, comenta o diretor da Abic. A produção de 2026 segue dentro do esperado, sem notícias de problemas climáticos graves até o momento.

Se o clima permanecer favorável, a expectativa é de maior crescimento no consumo e a manutenção da queda gradual dos preços ao longo do ano. No entanto, Silva alerta que os preços dificilmente retornarão aos patamares de 2020, antes da disparada.

“Após quatro anos de dificuldades na produção, os estoques mundiais estão muito baixos e a disputa pelo produto aumentou devido ao crescimento do consumo global”, explica Silva. Para que os preços caiam drasticamente, seriam necessárias “duas ou três safras muito boas consecutivas para reequilibrar os estoques”, conclui o especialista.

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