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Jovens voltam a usar iPods: Geração Z redescobre MP3 para fugir das distrações do celular e busca mais foco em 2026

Saiba como a nostalgia e a rejeição à hiperconectividade impulsionam o retorno dos clássicos aparelhos da Apple, com vendas e buscas em alta no Brasil.

O cenário parece saído de meados dos anos 2000, com fones com fio e a clássica roda de navegação. No entanto, estamos em 2026, e a cena de jovens usando iPods para ouvir música está se tornando cada vez mais comum, marcando um surpreendente retorno.

Longe das notificações constantes, dos algoritmos que ditam o consumo e dos feeds infinitos dos smartphones, a Geração Z tem encontrado no MP3 player da Apple uma fuga. A busca é por um refúgio musical, onde a única função é, de fato, ouvir música.

Este fenômeno não é apenas uma onda passageira de nostalgia, mas um movimento crescente que reflete uma profunda necessidade de desconexão e foco, conforme informações divulgadas pelo g1.

O Retorno de um Clássico para a Geração Z

O iPod, lançado há mais de duas décadas, ressurge na rotina de muitos jovens, não apenas como um item vintage, mas como uma ferramenta prática. Ele é valorizado justamente pelo que não oferece: as distrações do celular, como notificações e redes sociais.

Usuários ouvidos pelo g1 relatam que o aparelho tem sido um companheiro ideal em diversas atividades, como treinos, estudos e deslocamentos diários. A simplicidade de um dispositivo dedicado apenas à música é vista como um alívio em um mundo hiperconectado.

A comunidade em torno dos iPods é robusta, segundo Filipe Esposito, especialista em Apple há 17 anos. Ele observa que “até hoje existe uma comunidade enorme de pessoas que restauram iPods antigos com bateria nova e mais armazenamento, seja para manter o produto vivo como lembrança ou até mesmo para usá-lo no dia a dia”.

Este interesse renovado se traduz em números expressivos. O site de vendas Enjoei registrou um aumento de 47% no valor total de iPods vendidos no primeiro trimestre de 2026, comparado ao mesmo período de 2025. A OLX, por sua vez, informou que as buscas por iPods cresceram 18,9% em abril de 2026 em relação a abril de 2025, com um aumento de 22% de janeiro a abril deste ano.

“Só quero ouvir música em paz”: O Foco como Prioridade

Lisandra Reis, de 29 anos, Emanuelle Assunção, de 27, e Cláudio Wollace, de 26, são exemplos dessa tendência. Eles compartilham o cansaço com o tempo perdido nas redes sociais e encontraram no iPod uma solução para evitar as distrações do celular.

Lisandra relata que o celular a atrapalhava durante suas corridas, com notificações que a faziam parar. Para ela, o iPod é muito mais sobre “ouvir música em paz”, embora a nostalgia também seja um fator. Ela adquiriu seu iPod Touch em 2019.

Emanuelle, que usa um iPod Touch decorado, comprou o aparelho de segunda mão em 2024 por R$ 230. Ela o utiliza em treinos de musculação, durante a leitura e em deslocamentos por carro de aplicativo. Curiosamente, o Spotify, que antes funcionava em seu iPod Touch, já não é mais compatível em 2026, o que a levou a voltar a baixar músicas manualmente.

Para Cláudio, que usa um iPod Nano comprado em 2025 por R$ 130, o processo de baixar músicas manualmente é “revigorante”. Ele valoriza o fato de o aparelho não ter algoritmos, permitindo que ele ouça exatamente o que escolheu. Cláudio ainda afirma que, “mesmo assinando serviços de streaming, como o Spotify, eu ainda prefiro o iPod. Sinto que a qualidade sonora é até melhor”.

Além da praticidade, há uma conexão afetiva. Cláudio sempre quis um iPod quando jovem e hoje sonha em ter um iPod Classic, que ele considera o “top dos tops”, apesar do preço elevado no mercado de revenda.

O Legado do iPod e a Luta Contra a Pirataria

O sucesso do iPod no passado não se deu apenas pela sua capacidade de tocar MP3. Segundo o especialista Filipe Esposito, a combinação entre o iTunes e o iPod foi crucial para combater a pirataria e consolidar o aparelho no mercado.

Ele explica que, embora existissem outros tocadores de MP3, “nenhum tinha a conveniência de uma loja própria de músicas ou um gerenciador de playlists como o iTunes”. Inicialmente restrito a computadores Mac, o iPod ganhou força com o lançamento de uma versão do iTunes para PC.

Pouco depois, a Apple lançou a iTunes Store, sua loja online de músicas, revolucionando o consumo. “Pela primeira vez, os usuários podiam comprar músicas separadamente por US$ 0,99 (cerca de R$ 1,80 na época). Todo o processo era extremamente rápido e fácil, e as músicas podiam ser transferidas em segundos para o iPod“, detalha Esposito.

A Busca por Autonomia em um Mundo Hiperconectado

O resgate de dispositivos antigos, como os iPods, fones com fio e câmeras Cyber-shot, aponta para uma tendência maior. Angelica Mari, especialista em cyberpsicologia, interpreta esse movimento como uma busca por uma era tecnológica com limites mais claros, que interferia menos na atenção das pessoas.

A especialista destaca que essa volta representa uma rejeição simbólica da hiperconectividade e uma tentativa de diferenciação social. No caso dos iPods, o ato de baixar e organizar músicas manualmente contraria a conveniência atual, mas “devolve um certo nível de autonomia”.

Mari complementa que, “hoje, quando uma playlist termina, as plataformas logo sugerem uma sequência parecida para manter o usuário em um ciclo infinito”, o que o iPod evita. O retorno dos fones com fio segue a mesma lógica, trazendo uma “materialidade que foi eliminada com o Bluetooth”, a conexão física que literalmente liga o usuário ao dispositivo.

Curiosamente, essa busca por simplicidade e autonomia tem um custo. Dispositivos antigos, como iPods Classic, walkmans e câmeras Cyber-shot, têm seus preços elevados em sites de revenda, com um iPod Classic usado podendo ultrapassar R$ 1 mil na internet, mostrando que a desconexão se tornou um luxo.

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