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Desenrola Brasil 2.0: Por que o número de endividados aumentou em 10,3 milhões mesmo com o programa de renegociação de dívidas?

O governo federal relançou, no início de maio, o Novo Desenrola Brasil, ou Desenrola 2.0, em um esforço para conter o endividamento recorde das famílias. No entanto, o cenário atual mostra um desafio persistente: dois anos após o encerramento da primeira versão do programa de renegociação de dívidas, o país registrou um aumento de 10,3 milhões de inadimplentes, elevando o total para 82,8 milhões de pessoas.

Este crescimento surpreendente da inadimplência levanta a questão: por que o número de endividados aumentou mesmo com a implementação do Desenrola? A resposta, conforme especialistas e dados econômicos, envolve uma complexa combinação de fatores que vão além da simples renegociação.

A pauta, que ganhou destaque no g1, revela as causas e os impactos dessa escalada no endividamento, buscando entender o que impede uma solução duradoura para o problema.

O ‘efeito sanfona’ e os desafios econômicos da inadimplência

Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o aumento da inadimplência pode ser explicado por um “efeito sanfona”. Ele atribui o fenômeno às oscilações da taxa básica de juros da economia, a Selic, e aos impactos ainda persistentes da pandemia de Covid-19, período em que o desemprego subiu e a renda estagnou. Durigan afirmou que “passamos por um período, especialmente durante a pandemia, sem reajuste de renda e com desemprego elevado. Muitas pessoas ficaram impossibilitadas de trabalhar e acabaram se endividando”.

Contudo, especialistas avaliam que o Desenrola Brasil teve um efeito limitado e temporário. O economista Tiago Velloso destaca que “o juro nada mais é do que o custo do dinheiro. Se o dinheiro está caro, tende a haver mais inadimplência”, mas ressalta que “esse não é o único fator”. O cenário pós-Desenrola 1 combinou problemas herdados da pandemia com novas questões da economia mundial, como conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia, que elevaram os preços do petróleo e pressionaram a inflação global, retardando a queda dos juros no Brasil.

A especialista em finanças Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, aponta para outro fator crucial: a rápida digitalização do sistema financeiro. Segundo ela, essa agilidade ampliou o acesso ao crédito fácil sem o devido preparo da população. “O país conseguiu uma digitalização rápida, mas isso não veio acompanhado de educação financeira. O acesso ao crédito aconteceu antes de as pessoas estarem preparadas”, explica Dellatore.

O impacto do Desenrola 1.0: um sucesso momentâneo?

A primeira edição do Desenrola Brasil, que ocorreu de maio de 2023 a março de 2024, foi focada em dívidas negativadas entre 2019 e 2022, com valor atualizado inferior a R$ 20 mil. O Ministério da Fazenda considerou o programa um sucesso, com cerca de 14,8 milhões de pessoas beneficiadas. Ao todo, foram R$ 53,2 bilhões em acordos, com descontos que, em muitos casos, superaram 90% para pagamentos à vista.

As renegociações foram majoritariamente realizadas pelo celular, lideradas por mulheres e pelo público de 35 a 44 anos, com foco em dívidas bancárias e de cartão de crédito. O governo federal reportou que, entre o público elegível, a inadimplência caiu 8,7%. Empresas do setor também sentiram o reflexo positivo; a Recovery, especializada em recuperação de créditos, registrou a quitação de cerca de 500 mil dívidas bancárias, com 290,4 mil acordos firmados beneficiando 278 mil clientes. Helena Passos, head de dados e planejamento da Recovery, observou uma “demanda reprimida de consumidores dispostos a regularizar suas dívidas quando encontram condições adequadas”.

Inadimplência persistente: o que os dados revelam sobre o Desenrola Brasil

Apesar do fôlego momentâneo proporcionado pelo Desenrola Brasil, os indicadores gerais do país mostraram pouca melhora a longo prazo. A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelou que o endividamento geral das famílias passou de 76,9% em outubro de 2023 para 78,8% em março de 2024. A inadimplência geral recuou apenas 0,5 ponto percentual, indo de 29,7% para 28,6%.

Na mesma linha, o volume de inadimplentes mensurado pela Serasa subiu de 71,95 milhões em outubro de 2023 para 72,54 milhões de pessoas ao fim da primeira edição do programa, em maio de 2024. Isso representa cerca de 590 mil pessoas a mais nessa situação, mesmo com uma queda de 1,20% em relação ao mês anterior. Após o encerramento do programa, grande parte da renda das famílias continuou sendo consumida por gastos básicos como alimentação, moradia e transporte, empurrando muitos brasileiros de volta para a inadimplência.

Desenrola 2.0: a nova aposta e os caminhos para a sustentabilidade do programa

O Novo Desenrola Brasil prioriza famílias de menor renda, voltado para pessoas que ganham até cinco salários mínimos. Nesta nova fase, as instituições financeiras também passam a “desnegativar” dívidas de até R$ 100. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, justifica o relançamento do programa como uma resposta ao avanço da inadimplência, buscando alinhar as renegociações a uma nova expectativa de ciclo de corte nas taxas de juros.

Em um primeiro balanço da nova edição, Durigan informou que, no eixo do programa para famílias, foram quitadas à vista mais 449 mil dívidas, com um desconto médio de 85% sobre o valor devido. Do somatório de R$ 1 bilhão, foram pagos R$ 154 milhões. Além disso, 685,5 mil dívidas foram refinanciadas, também com desconto de 85%. De R$ 9 bilhões, foi refinanciado R$ 1,3 bilhão em dívidas. O ministro reiterou que, embora a primeira edição tenha tido impacto, perdeu força com a alta dos juros, e que o ideal é que esses programas sejam pontuais e não recorrentes.

Analistas, porém, avaliam que o efeito do programa é limitado sem mudanças estruturais. Eles apontam a educação como um dos principais fatores de longo prazo para reduzir o endividamento. “Esse talvez seja o principal gargalo, o mais difícil de implementar, mas o mais importante”, disse o economista Tiago Velloso, defendendo a ampliação da educação básica e financeira. Ele também destaca o papel da renda no processo, afirmando que a criação de empregos não é suficiente sem aumento do rendimento médio e redução da informalidade.

Velloso conclui que “programas como o Desenrola Brasil são importantes como incentivo, mas, isoladamente, não resolvem o problema. Sem mudanças estruturais, acabam apenas reinserindo as pessoas no sistema financeiro, o que pode levar a novos ciclos de endividamento”.

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