Empresas lucram bilhões em meio à turbulência global causada pelo conflito no Irã
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã tem gerado prejuízos significativos para famílias e governos ao redor do mundo, elevando o custo de vida e impactando orçamentos. A incerteza causada pelo conflito e o fechamento do estratégico Estreito de Ormuz pelos iranianos amplificam a pressão econômica, afetando a todos.
No entanto, em um cenário de dificuldades generalizadas, algumas empresas e setores específicos da economia estão registrando ganhos expressivos. Negócios que se tornam mais lucrativos em tempos de guerra ou que se beneficiam diretamente da instabilidade dos preços da energia viram seus lucros dispararem.
Este panorama de contraste, onde alguns enfrentam dificuldades enquanto outros contabilizam altos ganhos, é detalhado em uma reportagem da BBC, conforme informação divulgada pelo g1, que aponta as empresas que estão ganhando bilhões com a guerra no Irã.
Petróleo e Gás: O grande impulso da crise energética
O impacto mais notável da guerra na economia global tem sido o forte aumento dos preços da energia. Aproximadamente 20% do petróleo e gás mundial são transportados pelo Estreito de Ormuz. A interrupção deste tráfego no final de fevereiro gerou uma montanha-russa de oscilações nos mercados energéticos.
As gigantes petrolíferas europeias foram as principais beneficiárias. Empresas como a BP (British Petroleum) viram seus lucros mais que dobrar nos primeiros três meses do ano, atingindo US$ 3,2 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 15,7 bilhões. Este resultado foi impulsionado pelo desempenho “excepcional” de sua divisão de trading, que soube aproveitar as fortes oscilações de preços.
A Shell também superou as expectativas, com lucros de US$ 6,92 bilhões, cerca de R$ 33,9 bilhões, no primeiro trimestre. A TotalEnergies registrou um salto de quase um terço em seus lucros, chegando a US$ 5,4 bilhões, aproximadamente R$ 26,4 bilhões, devido à volatilidade dos mercados. Embora ExxonMobil e Chevron tenham tido queda em comparação ao ano anterior, elas superaram previsões e esperam crescimento com a manutenção dos preços do petróleo acima dos níveis pré-guerra.
Grandes Bancos: Volatilidade que gera lucros recordes
A instabilidade gerada pela guerra no Irã também impulsionou os lucros de alguns dos maiores bancos do planeta. O JP Morgan, por exemplo, alcançou uma receita recorde de trading de US$ 11,6 bilhões, cerca de R$ 56,8 bilhões, contribuindo para o segundo maior lucro trimestral de sua história.
Os bancos do grupo dos “Seis Grandes” , incluindo Bank of America, Morgan Stanley, Citigroup, Goldman Sachs e Wells Fargo, relataram lucros combinados de US$ 47,7 bilhões, ou cerca de R$ 233,4 bilhões, nos primeiros três meses de 2026. Susannah Streeter, estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, destaca que “os altos volumes de trading beneficiaram os bancos de investimentos, particularmente o Morgan Stanley e o Goldman Sachs”.
A busca dos investidores por ativos mais seguros, em detrimento de ações e títulos de maior risco, e a tentativa de capitalizar a volatilidade dos mercados financeiros foram fatores cruciais. Streeter explica que a volatilidade “gerou um pico de trading, pois alguns investidores venderam ações com medo da escalada do conflito, enquanto outros compraram em baixa, ajudando a alimentar a corrida pela recuperação”.
Defesa: A demanda crescente por segurança
O setor de defesa é, sem surpresas, um dos beneficiários mais diretos de qualquer conflito. Emily Sawicz, analista sênior da consultoria RMS UK, afirma que “o conflito reforçou as lacunas da capacidade de defesa aérea, acelerando investimentos em defesas contra mísseis, sistemas de combate a drones e equipamento militar em toda a Europa e nos Estados Unidos”.
Além de evidenciar a importância das empresas de defesa, a guerra cria uma necessidade urgente para os governos reabastecerem seus estoques de armas, o que eleva a demanda. A BAE Systems, fabricante de componentes para jatos de combate F35, prevê um forte crescimento em vendas e lucros para 2026, citando o aumento das “ameaças de segurança” globais como um cenário favorável.
As três maiores fornecedoras do setor de defesa no mundo, Lockheed Martin, Boeing e Northrop Grumman, registraram atrasos recordes nos pedidos no final do primeiro trimestre de 2026. Contudo, as ações dessas empresas, que tiveram fortes altas nos últimos anos, apresentaram queda desde meados de março, em meio a temores de que o setor possa estar supervalorizado.
Energia Renovável: Uma aposta na independência energética
Paradoxalmente, o conflito também acentuou a urgência de diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, como observa Susannah Streeter. Este cenário “potencializou o interesse no setor de energia renovável”, mesmo em países onde a política incentivava combustíveis fósseis.
Streeter ressalta que a guerra fez com que os investimentos em energias renováveis fossem vistos como cruciais para a estabilidade e resiliência a choques. A NextEra Energy, da Flórida, viu suas ações valorizarem 17% este ano. As gigantes dinamarquesas de energia eólica, Vestas e Orsted, também relataram aumento nos lucros, mostrando como as consequências da guerra no Irã impulsionam este setor.
No Reino Unido, a Octopus Energy informou à BBC que a guerra gerou um “enorme impulso” na venda de placas solares e bombas de calor, com um aumento de 50% nas vendas de painéis solares desde o final de fevereiro. A alta nos preços da gasolina, por sua vez, impulsionou a demanda por veículos elétricos, uma oportunidade que os fabricantes chineses, em particular, estão aproveitando.
