Em uma tentativa de combater as constantes distrações e proteger informações cruciais, empresas nos Estados Unidos estão adotando uma medida incomum: exigir que funcionários guardem seus celulares em bolsas lacradas durante o expediente.
Essa prática, que se espalha por diversos setores, visa limitar o uso dos aparelhos no ambiente de trabalho, reforçando a segurança de dados e buscando um aumento significativo na produtividade.
A iniciativa, conforme reportagem do jornal Financial Times, foi amplamente detalhada pelo g1, que explorou os impactos e a viabilidade de tal restrição.
A Medida Inovadora e Seus Motivos
O sistema de bolsas lacradas, fornecido pela empresa Yondr, é um dos destaques dessa tendência. A ID.me, companhia de verificação de identidade digital, implementou a medida há cerca de três anos para aproximadamente 290 funcionários, segundo o Financial Times.
Os celulares são colocados em pequenos sacos que permanecem com os trabalhadores, mas só podem ser abertos em estações magnéticas específicas. Diferente de armários, as bolsas permitem que os funcionários percebam chamadas ou notificações urgentes, e o uso é liberado durante os intervalos.
As empresas que adotam a restrição de celulares no trabalho apontam dois motivos principais: evitar vazamentos, intencionais ou acidentais, de dados sensíveis e aumentar a produtividade ao reduzir distrações.
Graham Dugoni, fundador e CEO da Yondr, afirma que muitas organizações recorrem ao sistema após tentativas frustradas de confiar apenas em regras internas de uso. Ele destaca que “As organizações que nos procuram geralmente já tentaram o sistema de confiança”, e que “uma política de não usar celular não é o mesmo que um ambiente livre de telefones”.
A discussão também chegou ao ambiente corporativo. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, criticou o uso constante de celulares em reuniões, classificando-o como desrespeitoso e prejudicial. Ele afirmou que “As pessoas estão em reuniões e recebem notificações, mensagens de texto pessoais e emails o tempo todo. Isso tem que parar. É desrespeitoso. É perda de tempo.”
Recepção dos Funcionários e Primeiros Desafios
Apesar de uma resistência inicial, alguns trabalhadores relatam efeitos positivos. Kamilah Muiruri, funcionária da ID.me, contou que a política melhorou sua relação com o celular e contribuiu para mais interação entre colegas.
Ela afirmou: “Não preciso de tantas pausas para olhar meu celular.” E adicionou: “Isso nos faz conectar com os outros. Eu não conhecia as pessoas do escritório porque estava focada nos amigos que tenho fora do trabalho. Agora, somos unidos como equipe e adoramos sair juntos.”
A implementação, no entanto, não foi simples. Kyle Scofield, vice-presidente sênior de suporte ao membro na ID.me, relatou que nos primeiros meses houve queixas e descumprimento frequente da regra, com parte dos funcionários interpretando a medida como falta de confiança da gestão.
“Durou mais do que eu esperava. Nos primeiros seis meses, as violações eram muito frequentes”, disse Scofield. Contudo, hoje, ele observa: “não saberia dizer a última vez que tivemos algo assim.” A adoção das bolsas no ambiente corporativo segue uma tendência já testada em escolas, buscando mais foco e menos distrações.
Impactos na Produtividade e Opiniões Divididas
Ainda segundo o Financial Times, especialistas destacam que os impactos da restrição de celulares no trabalho não são um consenso. Estudos sugerem que a proibição pode aumentar a produtividade em tarefas simples e repetitivas, mas não necessariamente em atividades que exigem criatividade e autonomia.
Adrian Chadi, professor associado de economia da Universidade de Southampton, explica que “É muito difícil para os pesquisadores determinar os efeitos de uma proibição em comparação com uma situação sem a restrição no mesmo contexto organizacional.” Ele aponta que o resultado varia conforme o tipo de trabalho.
Enquanto funções mais operacionais podem se beneficiar da redução de distrações, atividades que dependem de pensamento criativo podem ter o efeito oposto. Chadi também alerta que a medida pode ser mal recebida se o uso do celular oferecer vantagens claras no dia a dia do trabalhador.
Há evidências de que permitir o uso dos celulares pode ajudar os funcionários a lidar com questões pessoais ao longo do expediente, o que pode impactar positivamente o desempenho geral. Eoin Whelan, professor da Universidade de Galway, conduziu um estudo onde a liberação dos aparelhos não prejudicou a produtividade e ajudou os trabalhadores a equilibrar demandas pessoais.
Ele enfatiza: “Depende do funcionário, mas no mundo de hoje, a maioria espera que haja uma fronteira entre trabalho e vida pessoal, especialmente aqueles responsáveis por cuidar da família fora do emprego.”
O Cenário Brasileiro: Limites e Possibilidades
No Brasil, empresas podem proibir ou restringir o uso de celular no trabalho, mas a medida precisa seguir alguns limites. Não há uma regra específica na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sobre o tema, mas o empregador possui o chamado poder diretivo, ou seja, pode organizar, controlar e fiscalizar as atividades dos funcionários.
Na prática, a restrição pode ser prevista em contrato de trabalho ou em regulamentos internos, especialmente em atividades que envolvam riscos à integridade física, proteção de dados ou sigilo profissional.
Luiz Antonio Colussi, juiz do trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, afirmou à Rádio TST que “O uso do celular pode ser limitado, desde que não haja invasão da privacidade, da intimidade e da dignidade do trabalhador.”
Ele ressalta que a fiscalização deve ser proporcional e baseada no bom senso. Medidas como restringir o uso durante a operação de máquinas ou veículos, por exemplo, são consideradas legítimas e contribuem para evitar acidentes e conflitos no ambiente de trabalho.
O descumprimento das regras pode levar a advertência, suspensão e, em casos mais graves, como situações de risco, até demissão por justa causa. Especialistas recomendam que as empresas deixem claras as regras e prevejam exceções, como uso em emergências ou durante os intervalos, garantindo um ambiente de trabalho equilibrado e produtivo.
