A dura realidade econômica argentina revela que o emprego, antes visto como pilar de estabilidade, agora mergulha milhões na vulnerabilidade, exigindo duplas jornadas para a sobrevivência.
Na Argentina, a posse de um emprego, mesmo que formal e com carteira assinada, deixou de ser um escudo contra a pobreza. Milhões de trabalhadores, como Antonela, uma bioquímica de Buenos Aires, se veem obrigados a buscar mais de uma fonte de renda para cobrir despesas básicas, uma realidade impensável há poucos anos.
Antonela, apesar de ter formação universitária e um salário acima do mínimo, descreve sua situação como estar em “modo sobrevivência”, complementando a renda com um segundo trabalho informal. Sua história reflete um fenômeno crescente no país, onde ter um trabalho na Argentina não é seguro contra pobreza.
Instituições públicas e consultorias privadas concordam que a situação de precariedade se aprofunda, desafiando a percepção tradicional de segurança econômica. Este cenário preocupante foi detalhado em reportagem divulgada pelo g1.
O Fenômeno dos ‘Trabalhadores Pobres’
O paradoxo de ter um emprego e ainda assim viver em situação de pobreza é um fenômeno que especialistas denominam de “trabalhadores pobres”. Conforme explicou Roxana Maurizio, diretora da área de Emprego, Distribuição e Instituições Trabalhistas da Universidade de Buenos Aires (UBA), são pessoas cujo salário, mesmo trabalhando, não as permite sair da linha da pobreza.
A situação é crítica, com o salário mínimo do país atingindo níveis inferiores aos registrados na grave crise de 2001. Um estudo privado da Fundação Mediterrânea, divulgado em outubro passado, revelou que um a cada cinco trabalhadores argentinos é pobre. Para aqueles com empregos informais, o cenário é ainda mais sombrio, com um a cada três vivendo na pobreza, segundo o Instituto Interdisciplinar de Economia Política.
A Controvérsia da Redução da Pobreza do Governo
O governo do presidente Javier Milei celebrou a redução da pobreza para 28%, o menor nível em sete anos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) de março. O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu a queda ao crescimento econômico, à desaceleração da inflação e ao fortalecimento de programas sociais.
No entanto, analistas questionam esses números. Daniel Schteingart, da plataforma Argendata-Fundar, aponta que a “forte redução [da pobreza] é explicada tanto por causas genuínas, quanto por fatores metodológicos no momento da avaliação da pobreza monetária, que a tornam exagerada”. Ele ressalta que a metodologia de cálculo pode distorcer os dados em períodos de alta inflação, exagerando tanto a alta quanto a queda.
Além disso, a queda da pobreza ocorre em comparação com o pico gerado pela brusca desvalorização decretada no início do mandato de Milei, quando a pobreza subiu 11 pontos, atingindo quase 53% da população, o maior índice em duas décadas, comparável apenas à crise de 2001.
Informalidade: O Agravante da Precariedade
Se ter um emprego formal já não é garantia, a deterioração é ainda mais acentuada entre os trabalhadores informais. A Pesquisa da Dívida Social Argentina da Universidade Católica do país (UCA) concluiu que quase 20% dos trabalhadores empregados vivem na pobreza, e esse percentual sobe para 26% entre os informais.
Eduardo Donza, pesquisador da UCA, enfatiza que “o principal problema do mercado de trabalho na Argentina é a precariedade trabalhista”. Ele destaca que mais da metade dos trabalhadores está no setor microinformal. Dados da Argendata-Fundar corroboram que, enquanto a pobreza entre assalariados formais é de 10%, entre os informais, chega a mais de 33%. Roxana Maurizio reforça: “Um trabalhador informal tem três vezes mais probabilidade de ser pobre do que um formal.”
Os trabalhadores formais representam hoje menos da metade das pessoas empregadas, e esse setor está em queda, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Isso demonstra que o trabalho na Argentina não é seguro contra pobreza, especialmente para a crescente parcela de informais.
Inflação, Informalidade e o Impacto no Cotidiano
A queda do poder de compra é uma realidade para muitos, como Antonela, que relata que seu “salário foi derretendo, o que traz uma mudança muito forte do meu estilo de vida”. A UCA indica que a capacidade de compra do salário médio mensal caiu mais de 20% entre 2010 e 2025.
Apesar de a inflação acumulada nos últimos 12 meses (33%) ser menor que a de anos anteriores, ela continua alta e em tendência de crescimento nos últimos nove meses, corroendo o poder de compra. Somado a isso, o aumento do trabalho informal, que atinge cerca de seis milhões de pessoas sem direitos trabalhistas básicos, contribui para a fragilização dos salários.
Esse fenômeno afeta desproporcionalmente jovens e mulheres. A pesquisadora da UBA, Roxana Maurizio, explica que “quanto mais informalidade, maior é a pressão dos que tentam conseguir empregos registrados e, consequentemente, mais se debilitam as condições trabalhistas do emprego com registro”.
A precariedade, as políticas de emprego limitadas e os ajustes estruturais propostos pelo governo Milei explicam o aumento de trabalhadores que, mesmo empregados, vivem na pobreza. A mobilidade social ascendente, onde os filhos alcançam melhor situação que os pais, tem se enfraquecido, com quatro em cada dez argentinos afirmando estar em pior situação que seus pais, segundo a UCA.
Antonela, como muitos, sonha em sair do “modo sobrevivência” e ter uma vida onde possa usufruir de momentos de lazer e bem-estar. “Gostaria de ter uma vida em que pudesse gastar com outro tipo de coisa, como ir à academia, sair para comer com minhas amigas ou fazer uma viagem por ano”, desabafa.
