A Ferramenta de IA que Descomplica o ‘Corporativês’
Uma nova ferramenta de tradução online, impulsionada por inteligência artificial, está fazendo sucesso nas redes sociais. O Kagi Translate, serviço gratuito lançado em 2024, disponibilizou recentemente a função “LinkedIn Speak”, que traduz frases do dia a dia para um estilo mais formal e alinhado ao tom da plataforma profissional.
A ferramenta permite converter qualquer frase para a chamada “linguagem do LinkedIn”, popularmente conhecida como “corporativês”. Essa funcionalidade, que viralizou rapidamente, gera textos que muitos usuários da rede já estão acostumados a ver, muitas vezes com um toque de humor irônico.
No entanto, apesar da utilidade e do apelo divertido, especialistas ouvidos pelo g1 alertam que o uso desse tipo de ferramenta exige cautela para evitar armadilhas e a perda de autenticidade profissional, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o ‘LinkedIn Speak’ Transforma Suas Mensagens
O funcionamento do Kagi Translate é similar ao de outros tradutores, mas com uma proposta específica para o ambiente corporativo. Para testar, o g1 selecionou o português (Brasil) e a opção “LinkedIn Speak”, inserindo a frase “fui demitida por xingar meu chefe”.
A plataforma gerou a seguinte versão, que rapidamente se tornou um exemplo da capacidade da ferramenta: “Hoje encerro meu ciclo nesta empresa. Embora tenha sido um desligamento inesperado após uma comunicação mais assertiva com a liderança, sou grata pelos aprendizados. Às vezes, o crescimento profissional exige momentos de fricção para que possamos encontrar ambientes mais alinhados com nossos valores. Aberta a novos desafios! #OpenToWork #TransiçãoDeCarreira #SoftSkills”.
Quem navega pelo LinkedIn certamente já se deparou com publicações que seguem uma linha semelhante. No X, antigo Twitter, usuários têm compartilhado versões bem-humoradas de frases traduzidas, evidenciando o quão precisa, e por vezes exagerada, a ferramenta pode ser na sua representação do “corporativês”.
O Dilema da Autenticidade e os Riscos da IA
Apesar de sua funcionalidade, o uso do tradutor de linguagem do LinkedIn exige uma análise crítica. Se a intenção do usuário é séria, é fundamental revisar os textos antes da publicação para evitar exageros, perda de autenticidade ou mensagens que não reflitam a experiência real do profissional.
Para a psicóloga e consultora em gestão de pessoas Andréa Krug, as ferramentas de IA generativa são “assistentes que vieram para ficar”. Elas podem apoiar na elaboração de textos para o LinkedIn e na adequação da linguagem em e-mails corporativos, mas devem ser usadas como apoio, não como substitutas da autoria humana.
Krug enfatiza que “elas ajudam a dar o tom, mas a ideia precisa partir do ser humano. A IA existe para lapidar, não para substituir a identidade profissional”. A especialista destaca que o recurso pode tornar mensagens mais claras, economizar tempo e aumentar a confiança, mas o conteúdo precisa passar por um filtro pessoal.
A especialista em posicionamento profissional Juliana Novochadlo compartilha dessa visão, afirmando que a tecnologia pode oferecer clareza e ajudar quem tem dificuldade para estruturar ideias, especialmente em momentos de bloqueio criativo. Contudo, ela alerta: “Um texto pode até ficar bonito, mas continua vazio se não refletir a trajetória e o repertório de quem assina”.
O maior risco apontado pelas especialistas é a perda de autenticidade. Como a IA usa padrões comuns da internet, ela tende a repetir frases e estilos, gerando conteúdos que podem soar “insossos, pasteurizados”, enfraquecendo a reputação do profissional. Krug lembra que isso já gerou memes, com usuários publicando respostas da IA sem remover instruções internas.
Essa uniformidade na linguagem também pode influenciar processos seletivos. Novochadlo explica que recrutadores experientes conseguem identificar textos gerados por IA sem revisão, o que pode levantar dúvidas sobre a autenticidade das experiências relatadas. Krug complementa que a experiência vivida e os resultados entregues são o que realmente diferenciam um profissional, algo que a IA não reproduz.
Dicas para Usar IA sem Perder a Essência Profissional
Para evitar que seu perfil ou suas publicações no LinkedIn soem artificiais, as especialistas recomendam tratar a IA como um apoio de edição, e não como uma substituta da escrita. Algumas orientações importantes incluem:
- Estruturar a ideia antes de pedir ajuda à ferramenta.
- Incluir experiências reais e ajustar o texto ao próprio tom de voz.
- Evitar jargões e promessas exageradas sugeridas pela IA.
- Revisar criticamente cada trecho antes de publicar.
Um bom teste, segundo Novochadlo, é simples: “alguém que conhece você reconheceria aquele texto como seu?”. Ambas reforçam que a responsabilidade final sempre recai sobre o autor. Para Krug, a regra é clara: não existe inteligência artificial eficaz sem uma inteligência natural muito bem aplicada.
A Visão do LinkedIn sobre Conteúdo Autêntico
Procurado pelo g1, o LinkedIn afirmou que busca incentivar interações mais autênticas na plataforma. Segundo a empresa, conteúdos de maior valor são aqueles que refletem as experiências reais dos usuários. “Interações de alto valor acontecem quando as pessoas envolvidas usam suas competências reais de forma autêntica, e nossa infraestrutura é pensada para facilitar esse alinhamento”, disse a companhia em nota.
A empresa também destacou que vem aprimorando seus sistemas para reduzir a circulação de postagens repetitivas, com foco excessivo em cliques ou engajamento, e reforçar conteúdos mais relevantes no feed. Isso mostra o compromisso da maior rede social profissional do mundo em valorizar a autenticidade e a qualidade das interações, mesmo diante do avanço de ferramentas como o tradutor de linguagem do LinkedIn.
