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Produtores Rurais do Sul Enfrentam Preços Abusivos e Dificuldade para Encontrar Diesel, Essencial na Colheita, em Meio a Suspeitas de Especulação

A escassez e a disparada nos valores do combustível vital para máquinas agrícolas causam apreensão no Rio Grande do Sul e Paraná, com impactos na safra

Produtores rurais nos estados do Rio Grande do Sul e do Paraná estão vivenciando um cenário de grande preocupação. Em plena temporada de colheita de arroz e soja, eles relatam uma crescente dificuldade para adquirir diesel, além de serem confrontados com aumentos considerados “abusivos” nos preços do combustível.

Essa situação emerge poucas semanas após o início de um conflito no Oriente Médio, que impulsionou o preço do petróleo no mercado internacional. Embora a Petrobras ainda não tenha ajustado seus valores, o diesel já apresenta uma alta de 7% nos primeiros dias de março.

Diante da falta de explicações claras, o setor agrícola suspeita de um movimento especulativo no mercado de combustíveis, conforme informação divulgada pelo g1.

Relatos do Campo: Dificuldade e Preços Disparam

A realidade no campo é de incerteza para os produtores. “Até o início da semana passada, ninguém se preocupava com a entrega de diesel. Já nessa semana, eu fui fazer um pedido e fui colocado em uma lista de espera. Estava pagando R$ 5 o litro, e já subiu para R$ 7”, conta Fernando Rechsteiner, produtor de arroz em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

No Paraná, Luiz Eliezer Ferreira, técnico do departamento econômico do Sistema FAEP, confirma a situação. “No Paraná, temos recebido relatos de falta de diesel desde terça. Um produtor de Rio Azul, por exemplo, nos informou que a distribuidora que atende na região não possui o combustível”. Ele adiciona que “outros relatos semelhantes estão chegando de Faxinal, Guarapuava, Prudentópolis e Irati”.

Em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, cerca de 20% dos produtores enfrentam problemas para encontrar o óleo diesel, segundo Allan André Tormen, presidente do Sindicato Rural da cidade. Ele destaca que “todos relatam alta de preço que varia 20% a 55%”.

Mercado Internacional e a Dinâmica do Abastecimento no Brasil

As queixas dos produtores surgiram uma semana após o início do conflito entre EUA, Israel e Irã, que gerou a disparada do preço do petróleo. Apesar da alta internacional, a Agência Nacional do Petróleo, ANP, afirmou que não há registro de falta de combustível no país.

A ANP comunicou, em 8 de março, que o Rio Grande do Sul possui estoques suficientes para assegurar o abastecimento de diesel. A agência pretende notificar formalmente as distribuidoras para que forneçam esclarecimentos sobre volumes em estoque, pedidos recebidos e aceitos.

O abastecimento no campo é feito principalmente por empresas conhecidas como Transportadores Revendedores Retalhistas, TRRs. Carlos Schneider, diretor do SindTRR no Rio Grande do Sul, explica que a maioria das TRRs opera sem contratos fixos, o que as coloca no final da fila de prioridade das grandes distribuidoras.

Suspeita de Especulação e Investigação do Cade

Antônio Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, Farsul, sugere que tanto a falta de diesel nas TRRs quanto a elevação dos preços parecem ser um “movimento especulativo”. Ele argumenta que “o diesel que está saindo das distribuidoras foi comprado com petróleo abaixo de US$ 60”.

Luz critica a prática, afirmando que “o sujeito vê que o preço vai subir e segura o produto que ele tem estocado para vender 50% mais caro. Isso é algo extremamente danoso”.

Carlos Schneider, do SindTRR, aponta que a produção nacional não supre toda a demanda, sendo necessário importar entre 25% e 30% do óleo diesel consumido no Brasil. Ele levanta a hipótese de que as distribuidoras podem estar “abrindo mão” de suas cotas de importação para não amargar prejuízos, criando uma lacuna no suprimento.

“Eles não estão sendo transparentes com o mercado, não estão dizendo o que realmente está acontecendo”, declara Schneider, reforçando a suspeita de manipulação.

Allan Tormen, do Sindicato Rural de Erechim, sugere que as próprias TRRs podem estar “tentando se antecipar aos aumentos da Petrobras para não ter prejuízo na reposição do estoque”. Diante das irregularidades, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, abriu uma investigação sobre os preços após pedido da Secretaria Nacional do Consumidor, Senacon.

Biodiesel como Solução para Conter a Escalada de Preços

Para mitigar a crise e evitar a escalada dos preços, associações rurais e distribuidoras têm pedido ao governo medidas para aumento da oferta de biodiesel. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, CNA, solicitou ao Ministério de Minas e Energia, MME, o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel dos atuais 15% para 17%.

João Martins, presidente da CNA, defende que “o avanço da mistura de biodiesel representa uma medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional”.

A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, Abicom, e a Fecombustíveis, junto a outras entidades como a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis, Brasilcom, SindTRR e Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, IBP, apoiam a liberação da importação de biodiesel até o limite de 20% da demanda nacional, visando frear a escalada de preços e garantir a disponibilidade do diesel.

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