Pular para o conteúdo

Por que a quantidade de navios abandonados no mar disparou? Geopolítica, “frotas fantasmas” e o drama de milhares de marinheiros revelam crise global

A instabilidade geopolítica e a ascensão de “frotas fantasmas” com bandeiras de conveniência são fatores-chave por trás do aumento drástico de embarcações à deriva.

A imagem de um navio à deriva, sem rumo e com sua tripulação à mercê das intempéries, parece coisa de filme, mas tem se tornado uma realidade cada vez mais comum nos oceanos. Um aumento alarmante no número de navios abandonados no mar está chamando a atenção global para uma crise humanitária e econômica silenciosa.

Essas embarcações, muitas vezes petroleiros e cargueiros antigos, são deixadas para trás por seus proprietários, transformando-se em verdadeiras prisões flutuantes para marinheiros que se veem sem salários, comida ou a esperança de retornar para casa. A situação é complexa e envolve uma teia de fatores que vão da instabilidade política a práticas comerciais obscuras.

O cenário é de crescente preocupação, com milhares de trabalhadores do mar enfrentando condições desumanas e um futuro incerto. Para entender o que impulsiona essa escalada, o g1 detalha os bastidores dessa crise que assola os mares.

O drama humano por trás dos navios abandonados no mar

O impacto mais cruel do abandono marítimo recai sobre os marinheiros. Ivan, um funcionário sênior de convés, relatou à BBC as dificuldades que ele e sua tripulação enfrentaram em um petroleiro abandonado próximo à China. “Houve falta de carne, grãos, peixe, coisas simples para a sobrevivência”, disse ele.

O marinheiro russo acrescentou que a situação “afetou nossa saúde e o clima operacional a bordo. A tripulação estava com fome, a tripulação estava com raiva, e tentávamos sobreviver apenas dia após dia”. O navio, que transportava cerca de 750 mil barris de petróleo russo, foi dado como abandonado em dezembro pela International Transport Workers’ Federation (ITF), após meses sem pagamento de salários.

A ITF interveio para garantir o envio de alimentos, água e o pagamento de salários atrasados, que somavam aproximadamente US$ 175 mil no caso do navio de Ivan. Embora alguns tripulantes tenham sido repatriados, muitos, como Ivan, permanecem a bordo, aguardando uma solução para o destino da embarcação e de sua carga valiosa.

A ascensão das “frotas fantasmas” e seus riscos

O aumento de navios abandonados no mar está diretamente ligado à instabilidade geopolítica e a um fenômeno crescente: as “frotas fantasmas”. Em 2016, 20 navios foram abandonados. Em 2025, esse número saltou para 410, afetando 6.223 marinheiros mercantes, um aumento de quase um terço em relação a 2024, de acordo com a ITF.

Essas “frotas fantasmas” são compostas por navios antigos, com propriedades obscuras, frequentemente sem seguro e em condições precárias de navegação. Elas operam sob as chamadas bandeiras de conveniência (FOCs), registradas em países com fiscalização regulatória limitada, o que permite contornar leis e sanções.

Um exemplo notório é a Rússia, que, após a invasão da Ucrânia, utilizou essas embarcações para exportar petróleo bruto em violação às sanções ocidentais. A Gâmbia, por exemplo, não tinha nenhum petroleiro registrado em 2023, mas em março de 2024 já contava com 35 dessas embarcações em seu registro, evidenciando a proliferação dessas práticas.

O impacto devastador e a luta por justiça

As bandeiras de conveniência desempenham um papel central no problema dos navios abandonados no mar. Em 2025, 82% dos casos de abandono, ou 337 embarcações, estavam sob FOCs. A Organização Marítima Internacional (IMO) define um marinheiro como abandonado quando o armador falha em arcar com custos de repatriação, não oferece apoio necessário ou rompe unilateralmente o vínculo, incluindo a falta de pagamento de salários por dois meses ou mais.

Segundo Stephen Cotton, secretário-geral da ITF, “o abandono não é um acidente”. Ele explica que “os marinheiros, na verdade, não sabem exatamente para onde estão indo. Eles assinam um contrato, vão para alguma outra parte do mundo e se deparam com muitos desafios diferentes”.

Em 2025, as tripulações abandonadas tinham um total de US$ 25,8 milhões em salários atrasados. A ITF conseguiu recuperar e devolver US$ 16,5 milhões desse valor. As nacionalidades mais afetadas foram a indiana, com 1.125 marinheiros (18% do total), seguida por filipinos (539) e sírios (309).

Mark Dickinson, secretário-geral do Nautilus International, critica os Estados que oferecem bandeiras de conveniência por uma “completa abdicação de responsabilidade”. Ele defende a necessidade de “um vínculo genuíno entre os proprietários dos navios e as bandeiras sob as quais eles navegam”, algo que já é exigido pelo direito marítimo internacional, mas sem uma definição prática clara.

Diante desse cenário, governos como o da Índia já tomaram medidas, colocando 86 embarcações estrangeiras na lista negra por casos de abandono e violações de direitos. Marinheiros como Ivan aprendem a lição, prometendo maior cautela na escolha de futuros empregos. “Com certeza vou ter uma conversa adequada sobre as condições da embarcação, sobre pagamento e provisões. E vou recorrer à internet, onde podemos ver quais navios são proibidos, quais estão sob sanções”, afirmou Ivan.

A proteção dos trabalhadores do mar exige uma cooperação internacional ainda maior para enfrentar os riscos inerentes ao serviço marítimo, especialmente com a crescente complexidade das cadeias de suprimento e a atuação das “frotas fantasmas” em águas internacionais.

Este conteúdo foi útil?

Clique nas estrela para avaliar!

Média de avaliação 0 / 5. Vote count: 0

Ainda não há votos! Seja o primeiro a avaliar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *